segunda-feira, 14 de maio de 2012
O Naufrágio da Europa: novo Titanic ou botes à vista?
Lendo o artigo de João Pereira Coutinho sobre o resultado das últimas eleições européias, enviado pelo parceiro de reflexões Ruy Leal, visualizo como meu tema de pesquisa (neodesenvolvimentismo) é atual. O que é a eleição de Hollande senão: 1) o diagnóstico de que a crise de 2008 ainda continua forte na França; 2) o remédio de austeridade francesa, receitado pela Alemanha, foi de um amargor insuportável para os franceses; 3) a promessa de Hollande é um novo tipo de remédio que, ao invés de matar a doença de fome, busca fortalecer as defesas do corpo. Esse novo tipo de remédio se materializa numa negação do discurso (e práticas) neoliberais de remeter as construções coletivas da sociedade (e formativas do próprio processo produtivo) apenas à livre movimentação das forças de mercado. Em oposição a isso, receita-se um reposicionamento do Estado diante da economia. Afinal, se é para injetar um bilhão de dólares na GM para salvá-la da incompetência dos seus diretores nababescamente remunerados, porque não usar da autoridade legitimada democraticamente (em substituição a autoridade imposta pelo grande capital, tão autoritária quanto, mas sem nenhuma legitimidade) para fazer mais do que apenas tapar o poço sem fundo das sandices especulativas criadas pela inesgotável criatividade dos financistas (Derivativos, NINJA Loans, Subprime Mortgagees)? A discussão em torno da possibilidade de elaboração de um projeto de desenvolvimento nacional está menos nas dificuldades de, uma vez elaborado, levá-lo adiante pelas mãos das precárias lideranças políticas existentes, do que na aceitação da própria ideia da possibilidade da elaboração consciente e intencional de algo tão amplo quanto tal projeto e que precisa, contraditoriamente à sua unidade interna, refletir a diversidade do seu ambiente social. Para pensadores da linha do representante maior da Escola Austríaca, Friedrich von Hayek, é justamente essa barreira cognitiva que torna qualquer proposta de projeto coletivo um passo para governos totalitários (seu famoso “Caminho para Servidão”). Já pensadores contemporâneos como K. Sabeel Rahman, da Universidade de Harvard, entendem que a democracia pode muito bem superar esse obstáculo, uma vez que essa diversidade não pode ser igualmente totalitária, pois a vida em sociedade não comporta os extremos da liberdade negativa ou dos modernos (na clássica distinção de Benjamin Constant, notabilizada por Isaiah Berlin, com a liberdade positiva ou dos antigos). Quem vive em sociedade e tem sua vida garantida por uma série de construções coletivas como segurança, serviços públicos, urbanidade, valores compartilhados não pode se fechar em um hedonismo autista, considerando que os impostos que paga ao governo são o suficiente para comprar seu ticket de isolamento em seu universo particular (algo como “pago impostos para os políticos me governarem”, a lá Schumpeter). Obviamente defendo a tese de Rahman e a liberdade dos antigos, mais que a dos modernos, pois a liberdade como um fazer proativo e socialmente legitimado é o que está na base do neodesenvolvimentismo. Quando Hollande recusa a austeridade pela austeridade de Ângela Merkel em nome de uma ação responsável mas proativa, ele se junta a outros líderes mundiais que defendem o que o The Economist chamou este ano de “Capitalismo de Estado” (China, Brasil, Índia, Coréia do Sul, Japão e até, a partir da leitura de Rahman sobre o governo de Obama, com sua nova política de saúde e sua política industrial, os Estados Unidos). Para a extrema-direita, conservadora e porta-voz do grande capital, o “Capitalismo de Estado” é o totalitarismo previsto por Hayek Não é a toa que os republicanos adoram chamar Obama de socialista. Para a extrema-esquerda, revolucionária e porta-voz do proletariado, o “Capitalismo de Estado” é só mais um disfarce para o eterno “Comitê da Burguesia”. Sem me sentir a vontade em nenhum dos segmentos acima, “Capitalismo de Estado” para mim é a recusa do discurso neoliberal de que “o mercado resolve” e a aceitação do papel de autoridade democraticamente legitimada na condução (termo amplo que admite tanto a ação direta via empresas públicas quanto a ação indireta via mediação de pactos entre trabalhadores e empresários) de um projeto de desenvolvimento nacional. Negar tal papel ao Estado não é garantir que todos sejam tratados igualmente, sem os privilégios concedidos pelo Estado, mas sim fazer com que a competitividade intrínseca ao capitalismo selvagem vá atrás da concessão desses privilégios e desse tratamento diferenciado por todos os meios possíveis, da corrupção direta no Brasil até o lobby legalizado nos EUA. Lendo Joseph Schumpeter é possível afirmar, como faz Ha-Joon Chang, que a suposta assimetria de informações, vista pelos economistas neoclássicos como uma típica falha de mercado a ser corrigida, é, na verdade, o motor de propulsão dos ganhos diferenciados da empresas, que investem em pesquisa justamente para terem informações que seus concorrentes não têm. A competição entre as forças de mercado e a competição entre as forças políticas sempre existirá, assim como a imposição da vontade dos vencedores momentâneos dessas disputas sempre existirá. Como eu disse, a diferença entre a imposição da vontade do mercado ou do grande capital, individualizado nas empresas globais, e a vontade geral (para usar o termo de Rousseau), individualizada nos governos democraticamente eleitos, é apenas a legitimidade da segunda em relação à primeira. A vinculação direta entre capitalismo e democracia que pretende, por exemplo, Denis Rosenfeld, com base nos pensadores liberais e neoliberais, é uma peça de retórica sem maior substância. O capitalismo pode ser tão opressivo e totalitário quanto qualquer outro modo de produção (Rússia e China, que aderiram, total e parcialmente, ao capitalismo provam isso). Até porque, diversamente do que dizia Marx, o modo de produção não determina a superestrutura normativo-cognitiva, ainda que a influencie bastante. Porém, esta decorre de uma série de outras condicionantes que não estão inclusas na sacrossanta econometria dos neoclássicos como John Bates Clark e Vilfredo Pareto (a idealizada “Economia Pura”, a qual o economista português José Reis opõe a “Economia Impura”, de cunho institucionalista e muito mais realista). A depender desse conjunto de circunstâncias (e não apenas das econômicas), um arranjo sócio-político que congregue forças econômicas, políticas e sociais será, de forma mais ou menos duradoura, formatado. É a interação dessas forças e, principalmente, da força da sociedade civil, que determinará o grau de opressão que as outras duas forças poderão imprimir ao conjunto da população, sempre maioria numérica, mas ordinariamente também minoria decisória. Voltando à França, Hollande quer um governo focado em crescimento e não em austeridade. Em tempos de retranca na seleção brasileira de Mano Menezes, Hollande prefere jogar no ataque, a lá Barcelona, de Pepe Gardiola. Isso me lembra minha entrevista em São Paulo com o economista da UNICAMP, João Furtado. Nesta conversa, ele me dizia, entre uma xícara de café e outra, que a grande diferença entre o governo Lula e um eventual governo Serra foi a forma de tratar a crise de 2008. Segundo Furtado, um governo do PSDB teria seguido a cartilha-padrão de enfrentamento de crises financeiras, como a que ocorreu em 1999, ou seja, fechar a torneira, se apoiar nas reservas cambiais (infladas ocasionalmente pelo FMI) e esperar, encolhido, a tormenta passar. Em um contexto de crise financeira, como o de 2008, Lula, talvez até numa “sacada” pessoal, de sensibilidade à sua própria sobrevivência política e à manutenção dos louros conseguidos ao longo de 5 anos de lua de mel com a economia, pensou o imponderável e nadou contra a corrente, indo para o ataque com tudo que tinha em termos de sopa de letrinhas: PAC (investimentos públicos), PDP (Política Industrial), BNDES (financiamento). Com essa receita fora da cartilha da austeridade a todo custo, depois de anos colocando a estabilidade financeira como prioridade zero do governo (prioridade mantida no governo FHC e aprofundada, para desespero dos militantes de esquerda, no governo Lula), o Brasil conseguiu uma reação a crise que foi enaltecida nos quatro cantos do mundo (e claro que com o mesmo número de críticas que acusavam essa reação de ser apenas midiática, uma vez que o Brasil estaria sofrendo tanto quanto os EUA, dos homeless corporativos, ou qualquer um dos PIIGS, o que é, no mínimo, questionável). De qualquer modo, essa nova cartilha (ou devamos dizer “requentada”, pois redita coisas como o New Deal americano ou o Desenvolvimentismo asiático e latino-americano que vigorou entre os anos 1930-1970) vem encontrando novos adeptos do “defender atacando”. Hollande, pelo menos no discurso, é um deles. Se assim for, não parece ser possível reeditar a dobradinha Merkel-Sarkozi (ou “Merkozi”, como chamou a imprensa). Por outro lado, se as duas lideranças máximas da zona do Euro não perceberem o tiro no pé que é uma virar as costas para a outra, os esforços hercúleos de Konrad Adenauer e Charles De Gaulle para criar a União Européia, conforme me foram relembrados em ótimas conversas com o mestre Wolfgang Reiber no último final de semana, irão por água abaixo. Outro ponto iluminado no artigo de Coutinho, e que repercute uma outra receita de negação da austeridade pela austeridade da Alemanha, foi o avanço dos extremistas políticos, inclusive na França do socialista Hollande, com o terceiro lugar de Marine Le Pen. Na Grécia, a situação é ainda mais complexa (não só na economia, mas também na política – quem influencia quem, já que são as desavenças políticas que estão inviabilizando um governo de coalizão, sem o qual a crise econômica só tende a se agravar?), pois tanto a extrema-esquerda (com o segundo lugar do Partido Syriza) quanto a extrema-direita (com o quarto lugar do Partido Aurora Dourada, de clara orientação neonazista) saíram fortalecidos na última eleição. Esse avanço do extremismo, juntamente com outros fatores, fazem Coutinho farejar um retorno aos anos 1930, com a sucessão de crise econômica aguda; que abre espaço para discursos extremistas sem qualquer compromisso com a governabilidade, pois nunca foram vidraça, só pedra; que abre espaço para uma escalada de conflitos. Para mim, trata-se de um diagnóstico possível, porém ainda prematuro. Existe uma clara comparação entre a gravidade da Crise de 2008 e a gravidade da Crise de 1929. Isso se deve ao fato de que a Crise de 2008 é a mais parecida com a de 1929 dos últimos 35 anos, pois se equipara a esta tanto em centralidade quanto em impacto, diferentemente do Crack de Wall Street, em 1987, que ocorreu no coração do capitalismo, mas teve menor impacto na economia; e das crises econômicas dos anos 1990, que tiveram grande impacto na economia, mas ocorreram fora desse coração, visualizado na Tríade de Kenichi Ohmae (EUA-Alemanha-Japão), começando no México e se espalhando por Ásia, Rússia e Brasil para acabar no desastre argentino de 2001. Assim, dois fatores fazem com que o diagnóstico de Coutinho tenha que ser considerado: 1) as semelhanças de centralidade e impacto entre as duas crises; 2) o fato de que a Crise de 2008 ainda não foi totalmente superada (estamos em 2012!!), não dando para dizer se já chegamos no fundo do poço. Pior é se no fim do poço, ao invés de uma mola (como pregam os otimistas), nos depararmos com um fundo falso. O fato é que não dá para saber o que está depois da curva. O que Coutinho vê é a ascensão dos extremismos políticos e suas conseqüências nefastas. O quadro, para mim, é um pouco mais matizado, pois quando Coutinho apura o olhar para perceber os perigos (inegavelmente reais) do extremismo, ele perde de vista o quadro mais amplo e que emite sinais contrários. Por exemplo, a própria França, do extremismo de Le Pen, preferiu testar uma mudança menos drástica, porém significativa, elegendo um presidente socialista, o primeiro em 30 anos, desde Mitterrand (passando pela derrota de Lionel Jospin, em 2002). Na Grécia, a extrema-ESQUERDA superou a extrema-DIREITA (se é que essas diferenças são ainda tão cruciais – no caso de um partido neonazista, como o Aurora Dourada, ela é obviamente importante). Na Inglaterra, os trabalhistas liderados por Ed Miliband se fortaleceram nas últimas eleições, pressionado o neo-Tory David Cameron. Por fim, temos a emblemática vitória de Obama, que agora em 2012, tem amplas chances de reeleição contra o “homofóbico” Mitt Romney, a depender da recuperação econômica que, ainda tímida, já começa a aparecer. Se, por um lado, o extremismo político, apesar de claramente pertencer à fauna política, ainda é um animal exótico em democracias importantes, por outro podemos lançar também um olhar para os reflexos militares desses extremismos periféricos e as possibilidades de uma escalada de conflitos armados. Saindo dessas democracias consolidadas, onde essa possibilidade parece mais remota, podemos observar os países-baleias (BRIC) para saber se seu ímpeto de “botar a porta abaixo” para entrar a todo custo no primeiro mundo representa o perigo de uma sanha totalitarista. Dos BRICs, a Rússia e a China são as mais sérias candidatas ao posto de Superpotência Totalitária. Apesar de Putin (ex-KGB) representar uma direita militar, a Rússia tem eleições formais (questionáveis pelo povo, mas não abolidas pelo governo) e não há ocupação militar russa em outros países (coisa que os EUA, a quem ninguém acusa de ser totalitário, faz há anos no Afeganistão e no Iraque, liderando uma “força internacional”, ironizada por Michael Moore em “Farenheit 9/11”). Já a China, poderíamos dizer uma esquerda igualmente militar, se não é uma democracia igualitária, também não é o Reich totalitário (há trabalho desumano – que existem mesmo nos rincões do Brasil, mas não campos de concentração para indesejáveis; há influência política regional – como EUA e URSS fizeram ao longo da Guerra Fria – mas não há ocupação militar; há fechamento para o mundo – que o diga o Google -, mas não a lá Coréia do Norte, como mostra o fato da China ser hoje uma das maiores exportadoras de estudantes do mundo. Como comentou o professor do INSPER, Sérgio Lazzarini, em bate-papo após uma de suas visitas à Salvador, as universidades americanas estão cheias de estudantes chineses, como ele pode constatar na sua temporada em Harvard. Apesar de temer mais um século sinocêntrico do que um século nipônico (como se cogitou nos bons tempos do Império do Sol Nascente), já que a cultura japonesa é calcada na solidariedade e no coletivo, enquanto a cultura chinesa é muito mais isolacionista (haja vista a individualidade socialmente autista dos chineses em seu dia-a-dia urbano) e antropocêntrica (haja vista seu modelo de desenvolvimento industrial, altamente predatório, reeditando um cenário digno dos romances de Charles Dickens ou das denúncias de Friedrich Engels). Uma postura não muito surpreendente para um país cujo nome significa “Reino do Meio”. De qualquer modo, ainda vivemos em um mundo multilateral onde EUA, Alemanha, Índia, Japão e Brasil, entre outros, dividem o cenário com o dragão chinês. Pelas primeiras palavras de Hollande, a França é uma peça prestar a traçar uma outra trajetória no tabuleiro geopolítico. É por isso que, onde Coutinho enxerga um naufrágio, eu ainda visualizo alguns botes salva-vidas, seja na complexidade em si da realidade européia, que não se esgota nos extremismos políticos, seja na multilateralidade de um século que, se não é mais americano, não é totalmente chinês. Ainda não. Ainda bem.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Pondé e o Facebook - sapiências imanentes
O eterno parceiro de reflexões, Ruy Leal, me encaminhou um texto de Luiz Felipe Pondé, que comenta sobre o narcisismo humano a partir da popularização do Facebook (o texto pode ser encontrado no Google). Empolguei-me nos comentários, e a curta resposta se transformou no presente post.
As redes sociais, na minha concepção (diversamente de Pondé) significam uma diferença sim (eu não me enquadraria entre os "céticos em relação as redes sociais"). Talvez não de conteúdo, mas claramente de forma, o que, segundo Marshal Macluhan, também conta, pois "The medium is the message." Dizer que não é, reduzindo os "facebooks" da vida a mero detalhe (desqualificando qualquer consequência dele), equivale a dizer (como, de fato, dizem alguns) que a globalização nada mais é que uma mera extensão das viagens das caravelas de Cristovão Colombo (só que mais rápidas). O fato de cada invenção, cada novo avanço humano não tirar a Terra do seu eixo solar não quer dizer que ele não signifique nada. Dizer que andamos em círculos (como faz Pondé) é comparar as pinturas rupestres com as obras de Shakespeare. Até considero-me um pós-narrativo, talvez sem a acidez dos franceses (Jean Baudrilard, Jean François Lyotard, Emil Cioran), mas fazendo uma leitura algo próxima da que faz Richard Rorty, ou seja, de que não existe um horizonte pré-determinado, teologicamente ou não, para o qual se dirigiria inexoravelmente a raça humana em seu progresso (como visualiza Auguste Comte e os positivistas, de quem deriva o nosso lema "Ordem e Progresso"). O problema é que Pondé, para manter o ar blasê que lhe deu fama, da qual ele faz questão pois não tem o mínimo viés de reclusão a la Lauro Trevisan, joga qualquer transladação da criatividade humana para a orla da materialidade na lata de lixo da insignificância. O fato é que, no entanto, tanto a própria existência de alguém como Pondé e a sua atual fama são frutos desses novos tempos que ele tanto critica; Por um lado, ele deve a sua existência enquanto filósofo profissional ao fato de ser possível hoje ganhar a vida falando de imanências. Isso é produto do progresso humano (no momento em que a vida humana deixa de ser apenas sobrevivência, para tornar-se existência, para usar os termos do aforismo de Victor Hugo). Já a fama da crítica pela crítica, por sua vez, é o resultado de uma época desbussolada, onde se buscam respostas mesmo naqueles que defendem a ausência dessas.
A referência à "almas ridicularmente infantis num corpo de adulto", levada ao extremo, para a crítica dos sábios que pairam acima dessa ralé que são as pessoas comuns e a sua mundanidade excessivamente terrena. Discordo tanto da suprema superiodade de uns (como parece ser o caso de Pondé, sempre ansioso para, tal qual um bedel cósmico, passar um "pito" em quem se atreve a existir sem ter lido Ludwig Wittgenstein de trás para frente) quanto da suprema inferioridade dos outros, materializada no selo da suposta infalitidade crônica genericamente distribuído. Qual foi o censo que que contabilizou, de um lado, o 1% de guardiões ungidos da racionalidade e, do outro, os 99% de "bêbes grandes"? Ignoro os dois extremos e aposto na "geléia geral", da qual faço parte, que consegue ler Pondé e assistir as “vídeocassetadas” do Faustão. A infantilidade, ao lado da genialidade; a solidariedade, ao lado da selvageria, todas essas dicotomias basais integram a quintessência do ser humano. A diferença entre Adolf Hitler e Madre Teresa de Calcutá é de quantidade, não de qualidade. Qualitativamente, ambos eram serem humanos de carne e osso, com qualidades e defeitos. A distinção historicamente consolidada entre eles reflete as diferentes quantidades de cada um daqueles elementos na composição final das suas personalidades. Não eram anjos e demônios. Mas seres humanos em sua diversidade. Tentar totalizar qualquer um dessas características intrínsecas (cada um de nós não é sempre diligente, apolíneo ou ordeiro; podemos igualmente ser, em circunstâncias diferentes, relapsos, dionisíacos e caóticos) é fazer uma leitura apressada da fatalidade do “homem unidimensional” de Herbert Marcuse. Apesar de igualmente colérico, como parece ser a sina dos franceses, desalojados, à contragosto, da posição de luminárias da civilização ocidental, Pascal Bruckner faz uma leitura interessante dessa tese dos “bebês grandes” em seu livro “A Tentação da Inocência.” Porém, escrito na década de 1990, o livro parece refletir seu “zeitgeist”. Aplicar tal tese com ares de verdade revelada, com jovens “ocupando” Wall Street, bem como as praças da Espanha, Grécia, Chile, Norte da África e Oriente Médio (usando destacadamente as tais “redes sociais” em relação às quais Pondé é tão cético em relação às suas conseqüências) me parece, no mínimo, passível de reavaliação. Creio que Ponde comete o mesmo erro ao transpor, “ipse literis”, um narcisismo que marcou a juventude dos anos 1980 nos EUA (uma vez que essa é a premissa de um estudo citado por ele no artigo) para tentar entender o fenômeno do hedonismo via Facebook, sendo este apenas um instrumento para externalizar aquele. Concordo com Ponde sobre a natureza instrumental do Facebook. Porém discordo tanto do conteúdo que move tal ferramenta (seria o narcisismo dos jovens americanos da geração Yuppie o mesmo dos Indignados espanhóis dos dias de hoje?) quanto da irrelevância dos seus movimentos em si. Como diz Antônio Machado, “Caminhante, o caminho se faz ao caminhar.” Nesse sentido, nenhum passo, por menor que seja, é desprovido de significado. Seja ele, “a giant leap for mankind” ou um simples “Facebook”.
As redes sociais, na minha concepção (diversamente de Pondé) significam uma diferença sim (eu não me enquadraria entre os "céticos em relação as redes sociais"). Talvez não de conteúdo, mas claramente de forma, o que, segundo Marshal Macluhan, também conta, pois "The medium is the message." Dizer que não é, reduzindo os "facebooks" da vida a mero detalhe (desqualificando qualquer consequência dele), equivale a dizer (como, de fato, dizem alguns) que a globalização nada mais é que uma mera extensão das viagens das caravelas de Cristovão Colombo (só que mais rápidas). O fato de cada invenção, cada novo avanço humano não tirar a Terra do seu eixo solar não quer dizer que ele não signifique nada. Dizer que andamos em círculos (como faz Pondé) é comparar as pinturas rupestres com as obras de Shakespeare. Até considero-me um pós-narrativo, talvez sem a acidez dos franceses (Jean Baudrilard, Jean François Lyotard, Emil Cioran), mas fazendo uma leitura algo próxima da que faz Richard Rorty, ou seja, de que não existe um horizonte pré-determinado, teologicamente ou não, para o qual se dirigiria inexoravelmente a raça humana em seu progresso (como visualiza Auguste Comte e os positivistas, de quem deriva o nosso lema "Ordem e Progresso"). O problema é que Pondé, para manter o ar blasê que lhe deu fama, da qual ele faz questão pois não tem o mínimo viés de reclusão a la Lauro Trevisan, joga qualquer transladação da criatividade humana para a orla da materialidade na lata de lixo da insignificância. O fato é que, no entanto, tanto a própria existência de alguém como Pondé e a sua atual fama são frutos desses novos tempos que ele tanto critica; Por um lado, ele deve a sua existência enquanto filósofo profissional ao fato de ser possível hoje ganhar a vida falando de imanências. Isso é produto do progresso humano (no momento em que a vida humana deixa de ser apenas sobrevivência, para tornar-se existência, para usar os termos do aforismo de Victor Hugo). Já a fama da crítica pela crítica, por sua vez, é o resultado de uma época desbussolada, onde se buscam respostas mesmo naqueles que defendem a ausência dessas.
A referência à "almas ridicularmente infantis num corpo de adulto", levada ao extremo, para a crítica dos sábios que pairam acima dessa ralé que são as pessoas comuns e a sua mundanidade excessivamente terrena. Discordo tanto da suprema superiodade de uns (como parece ser o caso de Pondé, sempre ansioso para, tal qual um bedel cósmico, passar um "pito" em quem se atreve a existir sem ter lido Ludwig Wittgenstein de trás para frente) quanto da suprema inferioridade dos outros, materializada no selo da suposta infalitidade crônica genericamente distribuído. Qual foi o censo que que contabilizou, de um lado, o 1% de guardiões ungidos da racionalidade e, do outro, os 99% de "bêbes grandes"? Ignoro os dois extremos e aposto na "geléia geral", da qual faço parte, que consegue ler Pondé e assistir as “vídeocassetadas” do Faustão. A infantilidade, ao lado da genialidade; a solidariedade, ao lado da selvageria, todas essas dicotomias basais integram a quintessência do ser humano. A diferença entre Adolf Hitler e Madre Teresa de Calcutá é de quantidade, não de qualidade. Qualitativamente, ambos eram serem humanos de carne e osso, com qualidades e defeitos. A distinção historicamente consolidada entre eles reflete as diferentes quantidades de cada um daqueles elementos na composição final das suas personalidades. Não eram anjos e demônios. Mas seres humanos em sua diversidade. Tentar totalizar qualquer um dessas características intrínsecas (cada um de nós não é sempre diligente, apolíneo ou ordeiro; podemos igualmente ser, em circunstâncias diferentes, relapsos, dionisíacos e caóticos) é fazer uma leitura apressada da fatalidade do “homem unidimensional” de Herbert Marcuse. Apesar de igualmente colérico, como parece ser a sina dos franceses, desalojados, à contragosto, da posição de luminárias da civilização ocidental, Pascal Bruckner faz uma leitura interessante dessa tese dos “bebês grandes” em seu livro “A Tentação da Inocência.” Porém, escrito na década de 1990, o livro parece refletir seu “zeitgeist”. Aplicar tal tese com ares de verdade revelada, com jovens “ocupando” Wall Street, bem como as praças da Espanha, Grécia, Chile, Norte da África e Oriente Médio (usando destacadamente as tais “redes sociais” em relação às quais Pondé é tão cético em relação às suas conseqüências) me parece, no mínimo, passível de reavaliação. Creio que Ponde comete o mesmo erro ao transpor, “ipse literis”, um narcisismo que marcou a juventude dos anos 1980 nos EUA (uma vez que essa é a premissa de um estudo citado por ele no artigo) para tentar entender o fenômeno do hedonismo via Facebook, sendo este apenas um instrumento para externalizar aquele. Concordo com Ponde sobre a natureza instrumental do Facebook. Porém discordo tanto do conteúdo que move tal ferramenta (seria o narcisismo dos jovens americanos da geração Yuppie o mesmo dos Indignados espanhóis dos dias de hoje?) quanto da irrelevância dos seus movimentos em si. Como diz Antônio Machado, “Caminhante, o caminho se faz ao caminhar.” Nesse sentido, nenhum passo, por menor que seja, é desprovido de significado. Seja ele, “a giant leap for mankind” ou um simples “Facebook”.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Kripton, Willis, Albieri e Nicolelis: O que é alma? Parte II
Retomando as discussões sobre as idéias de Miguel Nicolelis e a resposta para a pergunta: "O que é Alma?". Após dar um panorama sobre as idéias de Nicolelis, queria agora colocar algumas questões que se apresentaram na forma de links com outros assuntos e personagens. Cito no título desse post esses links: Kripton, Willis e Albieri. Vamos começar por Kripton. Acho que todo mundo sabe de que Kripton eu estou falando: da terra natal do super-homem. O nosso pequeno Kal-El, filho de Jor-El (interpretado brilhantemente pelo Marlon Brando, no cinema - mas o que esperar de um ator que conquista um filme aparecendo apenas nos seus minutos finais, como ele fez ao interpretar o ensandecido Coronel Kurtz em "Apocalipse Now", de F.F. Copolla), veio para a Terra (o nosso planetinha azul, que orbitava - para alegria do bebê - um sol amarelo) numa capsula espacial, lançado por seu pai por conta da destruição eminente do planeta Kripton. Pois bem, cosmo-geograficamente localizado, o que tem a ver Kripton com a questão mente-cerebro-alma, aqui levantada a partir da discussão de Nicolelis? Bom, uma das versões contadas para o fim de Kripton em uma edição especial da DC (a editora das história do SH) teria sido a ocorrência de uma rebelião de clones. Clones???... Pois é, clones. Qual era o enredo? Cada cidadão kriptoniano, ao nascer, tem uma amostra de DNA retirada e dessa amostra se produziam três clones do indivíduo. Para quê? Para, em caso de acidentes, o clone servir de "peças de reposição", sem perigo de rejeição. Pois é. Os clones ficavam em cápsulas e, quando se precisava, por exemplo, de um "bracinho", se ia lá e arrancava o do clone para colocar no original. Pois bem. Um dia, os defensores dos direitos humanos (até em Kripton tinha, tá vendo?) resolveram questionar a política dos clones como peças de reposição. A justificativa: seres humanos não podem ser meios para os fins de outros seres humanos (qualquer alusão a Kant é óbvia). Ai vem a dúvida: os clones são seres humanos? E, em última instância, a dúvida final: o que torna alguém ou algo um ser humano? Entre tantas respostas possiveis, cada uma com a sua limitação, está a posse de uma alma. Não no sentido religioso, mas no sentido de uma âncora existencial e um liame com as gerações passadas e vindouras. Fato é que os rebeldes de Kripton afirmavam que, ao se manter aqueles corpos em isolamento, era justamente essa "alma", essa "condição de seres humanos" que estavam sendo negadas. E para mostra isso, eles apresentam clones que foram gerados fora do sistema de isolamento e que, portanto, desenvolveram identidade própria, e agora lutavam pela libertação de seus "irmãos". Bom, o pau cantou e o planeta foi destruído. Assim, qual a dúvida que fica para a gente? O clone, uma cópia biológica igual a outro ser humano, pode ter uma existência plena de significado? E não me venham falar em irmãos gêmeos não, pois cada um desses foi gerado nenhum processo autônomo. Não se gerou um primeiro irmão, que depois foi copiado. No caso do clone, não. Tem-se claramente um original e uma cópia (ou várias). Ponto. Não é a mesma coisa. O que não importa dizer que ele não possa ter o status de ser humano. E o que concebe esse status? Seria essa alma que falávamos acima? Esse é o ponto. Ponto esse que nos leva a o outro link dessa história. Semana passada chegou ao fim a reapresentação da novela “O Clone”, de Glória Perez. Desta vez, por motivos mais fortes que minha vontade (com a mudança de horário da SEDHAM, chegava em casa exatamente na hora der começar a novela e acabava almoçando e assistindo) acabei acompanhando a história. Porém, acabou sendo muito interessante, pois pude acompanhar em detalhes o conflito principal da trama: a geração de um clone e os conflitos morais envolvidos nisso. Um aspecto interessante dessa celeuma (e que a conectou com a questão do Nicolelis), foi o fato do cientista que gerou o Clone, o Albieri (interpretado pelo Juca de Oliveira – o homem dos devaneios, na Band FM) ser declaradamente ateu (como Nicolelis). Em contraposição, dois dos seus amigos e confidentes são pessoas extremamente religiosas. Por um lado, o padre católico Matiolli (interpretado pelo atual “Homem Baixo” Francisco Cuoco) e, por outro, o muçulmano Ali (interpretado pelo eterno caminhoneiro Stênio Garcia). Ambos foram unânimes em condenar Albieri com base na mesma questão: ele havia rivalizado com Deus/Alah. De uma cajadada só, Albieri tinha cometido um pecado mortal (a soberba) e reprisado o pecado original de Adão e Eva ao comer o fruto da Árvore do Conhecimento. Ele, por sua vez, sem qualquer amarra religiosa, só via o avanço científico que significava a geração do clone. Um típico caso de descumprimento do princípio da precaução, que diz que, na dúvida sobre os malefícios de uma prática, ela não deve ser executada. Em outros termos, um divórcio claro entre a ciência e a ética. Coincidentemente comecei a ler hoje “Vícios Privados, Benefícios Públicos?” (Eduardo Gianetti), que começa discutindo justamente essa separação entre a possibilidade científico-tecnológica do que é possível fazer (o campo da ciência é o campo positivo do ser) e a responsabilidade ético-moral do que deve ser feito (o campo da ética é o campo normativo do dever ser). O que ocorreu no caso do Albieri foi justamente isso: um ato cientificamente viável, mas eticamente discutível. E toda a discussão ética é muito bem representada na novela, com o conflito envolvendo Lucas - o original - e Leo - a cópia (ambos, obviamente, interpretados por Murilo Benicio). Um ponto relevante para a discussão aqui se refere ao conflito de identidade. Se, por um lado, Leo, não vivendo no mesmo ambiente controlado de Lucas, acaba desenvolvendo uma personalidade distinta, mais audaciosa do que a do inseguro Lucas, por outro, ele se sente inexplicavelmente atraído por Jade (interpretada por Giovanna Antonelli), que teve um romance com Lucas. O detalhe é que ele já sonhava com Jade antes mesmo de conhece-la. E o motivo era justamente a herança genética recebida de Lucas. E ai fica a pergunta: Leo amava, enquanto indivíduo, Jade ou apenas reproduzia, enquanto cópia, o amor de Lucas por ela? Esse tema do conflito identitário dos clones é magistralmente desenvolvido no filme (baseado no seriado de animação da MTV) “Aeon Flux” (interpretada por Charlize Theron). No filme, a cura para uma doença leva a esterilidade dos sobreviventes. Sem que esses se dêem conta disso, o governo começa a clonar cada individuo que morre e implantar o embrião clonado nas mulheres que pensam estar grávidas. Assim, o ciclo se reestabelece sem que ninguém perceba. Porém, ocorre algo semelhante com o que se passou com Léo. As pessoas tem sonhos com lugares e pessoas que elas não conhecem, e as vezes, ao ver alguém na rua, a pessoa sente uma saudade que não consegue identificar o porquê (no caso, são parentes ou amigos do original que morreu). Assim, a vida de todos acaba sendo uma mentira, reencenada várias vezes. Ou não? Cada “nova vida” não é só nova no tempo, mas também no seu todo? Como cada ator, ao interpretar o mesmo personagem a cada espetáculo, é sempre o mesmo? Isso fica no ar. Por fim, o último aspecto que queria levantar acerca das ideias do Nicolelis remete ao filme “Os Substitutos”, estrelado por Bruce Willis. Neste filme, cuja abertura usa imagens dos experimentos de Nicolelis com sua macaca para mostrar a evolução do uso de rôbos controlados pelo cérebro humano, os seres humanos deixaram de viver suas vidas “em primeira mão”, uma vez que lhe é possibilitado “vivenciar” o mundo exterior às suas casas através de um robô que reproduz todos os movimentos e sensações do seu usuário. Assim, por exemplo, eu posso saltar de paraquedas tendo todas as sensações do salto. Porém, se o paraquedas não abre, quem se esborracha é o substituto, enquanto que eu estou são e salvo na poltrona da sala de estar. O enredo do filme vai discutir esse distanciamento entre as pessoas e o mundo real a partir de um assassinato de um usuário através de um ataque ao seu substituto. Ou seja, o princípio básico da segurança do uso dos substitutos (àquela altura, totalmente generalizado para quase 90% da população, que os usava desde a hora em que colocavam o pé fora de casa) tinha ido por água abaixo. Sem entrar em maiores detalhes do filme, o ponto é: por melhor que seja o sistema de reprodução das sensações e movimentos do individuo através de uma veste robótica, como prevê Nicollelis, ou através de um substituto, como no filme, é possível, no futuro, buscar reproduzir tudo o que sentimos através de máquinas? Costumo dizer que “Os Substitutos” é um “Matrix”, sem a Matrix, ou seja, todos sabem que estão interagindo com máquinas e não com as pessoas diretamente. Neste caso, temos uma vida de verdade? Estamos diante de um ser humano? Se entendermos que o substituto robótico é apenas uma roupa que recobre uma individualidade cerebral, não estaremos diante de um ser humano ao falar com um substituto? Qual a diferença do meu cérebro estar ali ou a milhares de quilômetros? Afinal, esteja onde estiver, é com ele que estamos interagindo. Então, seriamos isso: cérebros em um barril (para usar a famosa expressão de Hilary Putnam)? E para finalizar: se ao saltarmos de paraquedas com um substituto robótico que promete que sentiremos tudo exatamente como se fossemos nós mesmos a saltar (e não somos? Afinal, nosso cérebro está lá), podemos ter essa sensação por completo, mesmo sabendo que falta nela um elemento crucial, qual seja, justamente o medo de colocar sua vida em risco? A priori, eu diria que o medo é pessoal e intransferível, portanto, se salto com um substituto robótico não tenho a mesma sensação, pois sei que, se algo der errado, a minha vida não está em jogo. Porém, depois da palestra do Nicolelis e de ler o seu livro, que descreve claramente a aceleração cardíaca e toda a reação muscular de alguém ao ver um braço de borracha (que ele sabe claramente que não é o seu braço “de verdade” – será que não é?) ser esfaqueado como se fosse o seu, fico me perguntando: o que é o ser humano? Seu corpo físico? Seu corpo mental que se projeta para além da matéria? Ou seu corpo interno – sua alma – que retém o que lhe é único, seja ele um avatar cibernético ou um clone biológico? Ficam essas questões. Quem sabe um dia eu consigo responder...
quinta-feira, 21 de julho de 2011
Kripton, Willis, Albieri e Nicolelis: O que é alma? Parte I
Esse post, apesar de já decorridos vários dias, ainda está sendo escrito sob o impacto da palestra magistral de Miguel Nicolelis neste mês de julho, no Salão Nobre da UFBA, por ocasião do lançamento do seu livro "Muito Além do Nosso Eu" e do Cafê Científico na Ufba (o CC, que já promovia debates mensais na LDM da Piedade, agora, a cada três meses, promoverá debates também na UFBA). O livro, apesar do título, não é nem de auto-ajuda, nem tem temática espírita. Seu conteúdo foi resumido na palestra de certa de 1:30 e tem a ver com um mundo novo que está sendo criado na nossa frente e que nós ainda não somos capazes de ver. Mas que, de certa forma, eu antevi, em um trecho de um poema meu que está aqui no blog e que diz: "O Corpo é um Equívoco. A mente é a resposta." Nicolelis falou muito da mente, o que me levou institivamente a me perguntar: o que é alma? Ao mistura numa mesma sentença as palavras cérebro (bio), mente (psico) e consciência (sócio), resta alguma lugar para falar em alma? Não "alma" no sentido necessariamente religioso, mas em um sentido duplo: de um elán vital que nos mova em direção a alguma meta-lugar, por um lado, e de uma âncora que nos conecte à realidade, nos dando os referenciais necessários para compormos um ponto de vista a partir do qual nos desloquemos. A matriz bio-psico-sociológica poderia até ser uma primeira pista do que seria essa "realidade" à qual nos ancoramos. Mas e quanto ao que nos move? Isso pode ser reduzido/traduzido a impulsos elétricos e reações químicas? É isso que nos propomos a discutir aqui. A partir de uma rápida apresentação dos argumentos de Nicolelis, e passando por alguns exemplos pop (à maneira de Zizek), poderemos levantar alguns pontos sobre essa questão basilar da nossa existência, dentro, obviamente, dos limites de um post blogônico. Nessa primeira parte do Post, vamos fazer uma breve apresentação das idéias de Nicolelis, em particular a idéia do avatar mental.
Em "Muito Além do Nosso Eu", Nicolelis narra o caminho percorrido até tornar-se um dos mais renomados neurocientistas do mundo, sério candidato à prêmio nobel nos próximos anos. Nesse caminho, suas experiências o levaram aos estudos da comunicação entre o cérebro e o corpo. Seu objetivo não poderia ser mais nobre: possibilitar a pacientes paraplégicos a retomada dos movimentos. Identificando como o cerébro funciona (e entrando ai numa interessante discussão entre duas correntes: os locacionistas, que viam o cérebro como uma loja de departamentos, onde cada parte é responsável por uma função; e os generalistas, que viam o cérebro como uma democracia, onde todos os neurônios, com maior ou menor intensidade, participam de todas as decisões. Essa última visão, da qual Nicolelis é partidário, tem se afirmado nos últimos anos), Nicolelis buscou "traduzir" a tempestade elétrica que ocorre no cérebro, que modo a que os comandos que movem o nosso corpo possam ser transmitidos a um exoesqueleto (um esqueleto mecânico externo ao nosso corpo), que fará o papel dos nossos músculos, possibilitando a execução dos movimentos solicitados pelo nosso cérebro. Isso, por si só, já seria algo fantástico. Porém, as pesquisas de Nicolelis e outros cientistas ao redor do mundo levaram a descobertas ainda mais surpreeendentes sobre como funciona nosso cérebro. Resumindo: uma macaca foi treinada para, movendo um joystick (num mundo de tablets, falar em joystick parece algo pré-histórico), acertar, com um cursor, uma bolinha na tela do computador e ganhar uma recompensa. Enquanto isso, os cientistas registravam e decodificavam os movimentos dos impulsos elétricos transmitidos entre seus neurônios. Num segundo momento, afastaram o joystick da mão da macaca, porém os seus comandos cerebrais eram transmitidos tanto biologicamente para seus braços, quanto eletronicamente para o joystick, que continuava movendo o cursor e garantindo a recompensa. A macaca logo percebeu que movendo os braços, movia o joystick, que movia o cursor e ela continuava ganhando a recompensa. No estágio final, buscou-se isolar o fato biológico dos comandos mentais, justamente o caso dos paraplégicos, onde o comando mental não equivale a um movimento físico. Assim, prenderam os braços da macaca, porém mantiveram sua conexão eletrônica com o joystick. A macaca então percebeu que, mesmo sem mexer os braços, ela comandava o joystick, que comandava o cursor e que lhe garantia a recompensa. Enquanto os cientistas comemoravam a descoberta e tentavam aprimorar o sistema, uma descoberta magnífica ocorreu: com os braços soltos, a macaca não só comandava os movimentos do cursor quanto continuava a usar seus dois braços de forma natural! Ou seja, o cérebro da macaca não substituiu o braço biológico pelo braço mecânico. Ele incorporou mais um braço ao avatar mental do seu corpo. Na verdade o meu espanto maior vem dessa idéia do avatar mental. Ou seja, nosso corpo não é um radar sensorial que diz a nossa mente o que está ao nosso redor. Nosso corpo é uma projeção mental. Isso serve tanto para incorporar um elemento que fisicamente é externo a ele (no caso do braço mecânico da macaca) quando para extenalizar sensações que só existem na nossa mente, como na experiência em que um braço de borracha visível é estimulado simultaneamente com o braço real da pessoa, que está encoberto. Quando esse braço de borracha é esfaqueado, o corpo reage (batimentos cardiácos, pressão arterial, etc) como se fosse o braço real sendo esfaqueado. Assim, a falsidade física do braço de borracha sucumbe diante da sua "realidade" mental. O corpo é o que a mente pensa. Explicadas as idéias gerais de Nicolelis, passemos a uma segunda parte, onde discutiremos os aspectos ético-filosóficos dessa questão, com o apoio de alguns exemplos da cultura pop.
Em "Muito Além do Nosso Eu", Nicolelis narra o caminho percorrido até tornar-se um dos mais renomados neurocientistas do mundo, sério candidato à prêmio nobel nos próximos anos. Nesse caminho, suas experiências o levaram aos estudos da comunicação entre o cérebro e o corpo. Seu objetivo não poderia ser mais nobre: possibilitar a pacientes paraplégicos a retomada dos movimentos. Identificando como o cerébro funciona (e entrando ai numa interessante discussão entre duas correntes: os locacionistas, que viam o cérebro como uma loja de departamentos, onde cada parte é responsável por uma função; e os generalistas, que viam o cérebro como uma democracia, onde todos os neurônios, com maior ou menor intensidade, participam de todas as decisões. Essa última visão, da qual Nicolelis é partidário, tem se afirmado nos últimos anos), Nicolelis buscou "traduzir" a tempestade elétrica que ocorre no cérebro, que modo a que os comandos que movem o nosso corpo possam ser transmitidos a um exoesqueleto (um esqueleto mecânico externo ao nosso corpo), que fará o papel dos nossos músculos, possibilitando a execução dos movimentos solicitados pelo nosso cérebro. Isso, por si só, já seria algo fantástico. Porém, as pesquisas de Nicolelis e outros cientistas ao redor do mundo levaram a descobertas ainda mais surpreeendentes sobre como funciona nosso cérebro. Resumindo: uma macaca foi treinada para, movendo um joystick (num mundo de tablets, falar em joystick parece algo pré-histórico), acertar, com um cursor, uma bolinha na tela do computador e ganhar uma recompensa. Enquanto isso, os cientistas registravam e decodificavam os movimentos dos impulsos elétricos transmitidos entre seus neurônios. Num segundo momento, afastaram o joystick da mão da macaca, porém os seus comandos cerebrais eram transmitidos tanto biologicamente para seus braços, quanto eletronicamente para o joystick, que continuava movendo o cursor e garantindo a recompensa. A macaca logo percebeu que movendo os braços, movia o joystick, que movia o cursor e ela continuava ganhando a recompensa. No estágio final, buscou-se isolar o fato biológico dos comandos mentais, justamente o caso dos paraplégicos, onde o comando mental não equivale a um movimento físico. Assim, prenderam os braços da macaca, porém mantiveram sua conexão eletrônica com o joystick. A macaca então percebeu que, mesmo sem mexer os braços, ela comandava o joystick, que comandava o cursor e que lhe garantia a recompensa. Enquanto os cientistas comemoravam a descoberta e tentavam aprimorar o sistema, uma descoberta magnífica ocorreu: com os braços soltos, a macaca não só comandava os movimentos do cursor quanto continuava a usar seus dois braços de forma natural! Ou seja, o cérebro da macaca não substituiu o braço biológico pelo braço mecânico. Ele incorporou mais um braço ao avatar mental do seu corpo. Na verdade o meu espanto maior vem dessa idéia do avatar mental. Ou seja, nosso corpo não é um radar sensorial que diz a nossa mente o que está ao nosso redor. Nosso corpo é uma projeção mental. Isso serve tanto para incorporar um elemento que fisicamente é externo a ele (no caso do braço mecânico da macaca) quando para extenalizar sensações que só existem na nossa mente, como na experiência em que um braço de borracha visível é estimulado simultaneamente com o braço real da pessoa, que está encoberto. Quando esse braço de borracha é esfaqueado, o corpo reage (batimentos cardiácos, pressão arterial, etc) como se fosse o braço real sendo esfaqueado. Assim, a falsidade física do braço de borracha sucumbe diante da sua "realidade" mental. O corpo é o que a mente pensa. Explicadas as idéias gerais de Nicolelis, passemos a uma segunda parte, onde discutiremos os aspectos ético-filosóficos dessa questão, com o apoio de alguns exemplos da cultura pop.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Becket, Mészarós, Chico de Oliveira e Neojibá: do inferno ao céu...
Depois de vir represando alguns post que vinham aparecendo na minha cabeça, hoje é dia de finalmente desaguá-los. Para facilitar, resolvi juntá-los num único post. Este post versará, portanto, sobre a peça "Fim de Partida", de Samuel Becket; as palestras de István Mészarós e Chico de Oliveira, nas comemorações dos 70 Anos da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas; e a apresentação da orquestra Neojibá, no TCA. Como o subtítulo do post já abrevia, é uma viagem do inferno ao céu, como se verá.
Comecemos pela peça "Fim de Partida" de Samuel Beckett. Já tinha ido a várias peças, inclusive com mais intensidade nos últimos anos, por causa de Juli que, como já disse aqui, é da "turma do teatro". Porém, ainda não tinha ido ao chamado teatro mais clássico. Já tinha assistido peças de autores conhecidos como Nelson Rodrigues ("A Serpente", com Débora Falabela) e Plínio Marcos ("Abajur Lilás", com a turma de teatro da UFBa), além de peças em formato clássico (como "Os Emanorados" com Luiza Prosérpio) e dramas (como "História de uma lágrima furtiva de cordel", baseado no romance "A Hora da Estrela", de Clarice Lispector). Mas devo dizer que nada me atingiu tanto quanto "Fim de Partida". Foi um dos pouquíssimos casos onde as minhas expectativas (sempre muito altas) foram não só alcançadas como superadas (casos semelhantes podem ser contados nos dedos, como o final de "Seven" e as intermináveis reviravoltas de "Lost"). Tinha expectativas altas por conta do autor (Beckett é um dos dramaturgos mais conhecidos da história) e por causa de atores como Harildo Deda e Gideon Rosa, presente no elenco. Pois bem. Entrando no Teatro Martin Gonçalves, fui mergulhado (durante nada menos que três horas!!!) na depressão de um mundo pós-apocalíptico, habitado por quatro almas em frangalhos. No Palco, Hamm (Haroldo Deda) guarda como único prazer espezinhar sua única companhia, Clov (Gideon Rosa) enquanto atura, muito à contragosto, os últimos suspiros de seus genitores, o romântico Nagg (Gil Teixeira) e a pragmática Nell (Maria de Souza), agora reduzidos à apenas troncos inertes guardados dentro de tambores de metal e alimentados por biscoitos e papa. Diferente de seus três "patrões", Clov é o único que ainda se mantém de pé (Hamm vive numa cadeira de rodas) e pode, com as próprias pernas, sair daquele calabouço. Mas não o faz, pois, como lembra sardonicamente Hamm, "não há para onde ir." Ao longo de três horas, onde nos é exposta toda a desesperança que um texto teatral pode descrever, o sentimento pode ser resumido nas palavras de Clov. Perguntando por Hamm o que ele via quando olhava para as paredes da sua cozinha, ele responde: "Vejo minha luz se apagar". Será que em algum momento das nossas vidas, quando pararmos para fazer um balanço sobre as nossas escolhas nessa corrida inercial para uma linha de chegada que sequer sabemos onde está, podemos nos encontrar diante de uma parede de uma cozinha qualquer, vendo a nossa luz se apagando? Esse foi o momento que mais me marcou e que me faz querer ter certeza de todas as minhas escolhas, ter certeza que a vida merece ser vivida no seu máximo e que a sua luz seja sempre fulgurante, brilhando de lembranças ricas e promessas de um amanhã ainda melhor. A luz moribunda de Clov é o inferno de que devemos todos escapar.
Na segunda parada da nossa estação, saindo do inferno, mas indo para algo não muito melhor, temos a palestra de István Mészáros na Reitoria da Ufba, abrindo as comemorações dos 70 anos da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBa. Não que a palestra tenha sido ruim, muito pelo contrário. Mészáros é o principal intérprete e atualizador da obra de Karl Marx. A sua crítica escapa aos lugares comuns e busca as razões estruturais das nossas consecutivas crises econômicas. Na palestra em questão, havia vasto material a ser analisado, em face da crise mundial de 2008 e Mészáros o fez com arguta percepção. A proximidade ao inferno a que me refiro deve-se a dois fatores: o quadro pintado por Mészáros e a solução proposta por ele. Por um lado, Mészáros atualiza a raíz estrutural das crises capitalistas, já apontadas por Marx, ou seja, o capitalismo é necessariamente insustentável. As evidências enumeradas pelo escritor, para além do que é fartamente documentado em relação à crise de 2008, buscam mostrar a voracidade inerente ao capitalismo, cujas reformas com vistas a "domá-lo" não passam de frágeis rodinhas de bicicleta para impedir um inevitável tombo. Porém, mais grave que isso, a solução proposta por Mészáros assusta pela impossibilidade: como dentro do capitalismo não há solução, a proposta é excluir o dinheiro de todas as transações responsáveis pela reprodução social! Durma com um barulho deste!! Ai fica realmente difícil acreditar numa solução ainda nesta vida...
Mas ainda há luz no fim do tunel. Se não é a luz moribunda de Clov ou a luz utópica de Mészáros, é a luz anciã mais viva do que nunca de Francisco de Oliveira, que fechou com chave de ouro as comemorações da FFCH. Diferentemente de Mészáros, que apontou suas lentes para a economia mundial, Chico de Oliveira, um dos maiores pensadores da esquerda, aprofundou o exame da economia nacional, em sua mais nova face, a do ornitorrinco. Esse estranho animal, uma das mais esdrúxulas misturas da natureza, é a materialização da hegemonia às avessas, onde o grupo que chega ao poder dedica-se justamente a aplicar o programa de governo do grupo ao qual se opunha anteriormente. Ainda que o seu comentador, o professor Jorge Almeida, tenha lembrado que o conceito de hegemonia de Antônio Gramsci descreve justamente uma situação onde quem detém o poder o faz com tanta força, que não resta aos adversários outro caminho senão aquele sinalizado pelos supostos adversários. Porém, como Chico de Oliveira defendeu, trata-se de uma idéia-força, um conceito que, ao usar o termos "às avessas", enfatiza o caso do Brasil, onde o PT foi construído sobre um programa anti-conservador, anti-liberal, anti-mainstream e passou a vida sendo pedra, no momento em que se tornou vidraça, tomou consciência de que talvez FHC, Malan e companhia não estivessem tão errados assim. Não entrarei em querelas econômicas aqui porque criei meu outro blog (neoestrategiasbrasil.blogspot.com) para discutir isso. Aqui gasto apenas minhas palavras para anunciar o meu prazer de ouvir um pensador como Chico de Oliveira, em sua lucidez e esperança irremovível no nosso povo e país.
(Como lembranças pessoais dessas duas palestras, ficam os autógrafos colhidos, com direito a registro em video desse momento com Chico do Oliveira, que com humildade luminosa, me disse: "Você ainda gastou seu dinheiro com meu livro, meu filho." Segue link:
http://www.youtube.com/watch?v=CUU0sXkWIdI
(Como lembranças pessoais dessas duas palestras, ficam os autógrafos colhidos, com direito a registro em video desse momento com Chico do Oliveira, que com humildade luminosa, me disse: "Você ainda gastou seu dinheiro com meu livro, meu filho." Segue link:
http://www.youtube.com/watch?v=CUU0sXkWIdI
O deleite só não foi maior do que o céu ao qual chegamos na última parada da nossa viagem: a apresentação da orquestra Neojibá, na sala principal do TCA. Simplesmente maravilhoso! Se não pela perfeição da Neojibá, por duas questões minhas: seria a primeira vez que assistiria a uma orquestra completa (já assisti anteriormente no Parque da Cidade, mas com um número reduzido de músicos e instrumentos) e a minha primeira vez na sala principal do TCA. Com relação a este último aspecto, ao entrar na sala principal e sentar na frente, pensei comigo: "Nem é tão grande assim." Quando olhei para trás, o susto: a imensa arquibancada que dá ao auditório os seus 1.500 lugares. Fantástico! Pelo lado da apresentação de uma orquestra completa e dessa orquestra ser a Neojibá, de qualidade internacionalmente reconhecida, não há muito que se possa dizer em palavras. Apenas alguns elementos que me tocaram mais: a perfeita sincronicidade dos instrumentos, em especial os violinos, que eram uns vinte; os enormes bumbos, com um metro de diâmetro; o "se vira nos trinta" dos percussionistas, que mudam de instrumentos ao longo da mesma música; a importância do maestro, que eu pensava que somente dava o ritmo da música, mas que, pelo olhar permanentemente atentos dos músicos para ele, faz muito mais do que isso. Mas o momento que mais marcou a noite foi a participação do violonista Mário Ulloa, que coincidentemente também tinha feito uma apresentação na palestra de Chico de Oliveira (nas duas ocasiões, tocou "El Condor Pasa"). A junção da perfeição da Neojibá com a emoção de Ulloa, certamente nos transporta para um céu. Abaixo, uma foto desse momento inesquecível:
Assim, da luz moribunda de Clov alcançamos a luz celestial da Neojibá, numa viagem que, do inferno ao céu, me preencheu com todos os matizes da genialidade artística humana.
terça-feira, 24 de maio de 2011
Sebos na Memória
A estudante de jornalismo da Faculdade Social, Laís Santos, está fazendo um trabalho de conclusão de curso sobre os sebos em Salvador. Quando ela ligou para o Pedro, dono do Sebo Berinjela, eu estava lá. Ela pediu indicações de freqüentadores e ele passou meu número. Ela me ligou, conversamos sobre a pesquisa e ela me mandou uma relação de perguntas. Como adoro livros, e já tinha me comprometido a fazer um posto sobre sebos aqui no blog, segue as minhas respostas como um aperitivo de um futuro post especialmente dedicado ao tema.
1) Para você, o que é um sebo?
R - Numa definição formal, podemos dizer que sebo é um lugar especializado na compra, venda e troca de livros usados. Porém, para mim, os sebos são territórios a serem explorados, pois, diferentes das livrarias, não basta só ir no balcão e pedir o livro que se quer. É preciso explorar as estantes, procurar nas brechas, tirar os livros de baixo das pilhas, para encontrar "aquela" preciosidade. Para mim, cada sebo é uma mina de ouro que merece ser garimpada com cuidado. O resultado vale a pena em 99% dos casos.

2) Como e por que você começou a frequentar esses estabelecimentos?
R - Acredito que isso tenha a ver com o hábito da leitura, estimulado tanto pelo meu pai quanto pela minha mãe. Meu pai toda sexta-feira, me dava uma grana para comprar quadrinhos. Por outro lado, minha mãe era professora e sempre recebia todo mês dois livros da coleção Vagalume, os quais eu esperava ansioso. Quando entrei na faculdade de urbanismo, na UNEB, em 1996, meu pai me levou para minha primeira feira de livros, no Shopping Piedade, onde comprei meus primeiros livros (lembro que na feira se comprava livro a metro, a quilo e a unidade). Desde então, tornei-me um obcecado por livros, mais especificamente pela garimpagem de preciosidades literárias. Antes de tornar-me um usuário de sebos, minha predileção eram as feiras de livros e, mais ainda, os saldões, ou seja, aquelas mesas colocados na frente das velhas pequenas livrarias de Salvador (como a DILISA e a Civilização Brasileira, que praticamente já não existem mais). Sempre considerei os saldões melhores que os sebos, pois a referência de sebo que tinha era o Brandão, que foi o primeiro sebo que visitei (já em 1997, quando entrei na faculdade de Direito da UFBA, pois ele era o mais conhecido em 1997, como é até hoje), onde comprei meu primeiro livro de sebo (Introdução ao Estudo do Direito, de João Bosco Cavalcanti Lara). Ocorre que a ida ao sebo foi justamente pelo motivo que não gosto: fui porque queria comprar livros específicos, como numa livraria. O preço não foi tão atraente quanto aqueles que eu estava acostumado a pagar nos saldões. Então para mim, ficou a dicotomia: nos saldões, a intenção dos donos é se livrar de livros que estão ocupando espaço; dai a variedade e o preço mais baixo; nos sebos, os donos sabem o real valor dos livros, o que dificulta achar preços realmente mais baixos. Assim, só passei a frequentar sebos quando os saldões começaram a rarear em Salvador, quando as pequenas livrarias começaram a fechar. Uma das últimas a fechar foi a DILISA da Rua da Ajuda, próximo a Praça Municipal. Logo em frente abriu o Sebo Berinjela, que aos poucos foi atraindo minha atenção pela quantidade, mas também pelo preço (sempre metade do que estava escrito no fundo do livro). Já tinha visitado outros sebos, como o Graúna, que ficava próximo ao Hotel da Bahia; a Casa do Livro, na Ladeira do Corpo de Bombeiros; Um outro que ficava num prédio na Praça da Sé (cujos livros vi, lá de baixo, através da janela e tratei logo de ir atrás); outro que fica na rua paralela à Manoel Dias da Silva, na Pituba; os dois da Estação da Lapa (e o Papirus, que fica do lado de fora, e outro que fica logo no começo, em frente ao ponto do ônibus Boca do Rio); um pequeno que fica na Av. Centenário; houve também um sebo no Aeroclube Plaza Show; o próprio Brandão; e um pequeno, que abriu a pouco num prédio próximo ao Brandão. E assim por diante. Com o fim dos saldões (o que restou foi o da LDM da Piedade, onde há pouco achei algumas coisas bem legais, além da Bienal do Livro, que sempre traz coisas interessantes a preços baixos), os sebos foram se tornando uma opção cada vez mais comum. O que ajudou a desfazer minha primeira imagem dos sebos, pois dá para fazer ótimos negócios também em termos de preços. Mas, o mais importante para mim, é a possibilidade de negociar e de encontrar preciosidades, como as que tenho encontrado ao longo desses anos de visitas aos sebos.
3) Qual seu maior prazer em ir a sebos?
R - Sem dúvida a garimpagem. O preço, na verdade, faz parte da garimpagem, pois o grande lance é juntar o excelente livro e o excelente preço. É claro que às vezes você encontra um livro fantástico, que vale a pena comprar pelo preço pedido. Mas o bom mesmo é quando você consegue negociar um preço mais baixo mesmo naquele livro que você pagaria o dobro do que está sendo pedido. A garimpagem, a negociação e a certeza do bom negócio e do bom produto são os elementos necessários para uma visita proveitosa ao sebo.
4) Você frequenta livrarias?
R - Sim. Com a chegada das grandes livrarias como a Nobel, na Pituba, a Saraiva, do Shopping Iguatemi, e finalmente a Cultura, no Shooping Salvador, há também muito prazer em frequentar livrarias. O ideal é quando você pode mesclar tudo, como no caso da LDM da Piedade, que frequento muito. Lá posso juntar um ambiente agradável, as últimas novidades, um gostoso capuccino e, de vez em quando, uma olhadinha nas "novidades" no saldo do andar de cima.
5) Você lembra qual o primeiro sebo em que você entrou? E o primeiro livro que você comprou?
R - Lembro sim. Como disse, o primeiro foi o Brandão, onde comprei Introdução ao Estudo do Direito, de João Bosco Cavalcanti Lara.
6) Você costuma ir a sebos com que frequência? E, sempre que vai, compra livros?
R - Dificilmente deixo de dar uma passada uma ou duas vezes por semana nos sebos que estão no meu caminho (Lapa, Berinjela). Mas nem sempre compro, pois depende de achar alguma coisa interessante (o que demanda um tempinho para dar aquela vasculhada com atenção) e de haver espaço para negociar um bom preço. A regra é: nunca pagar o que está sendo pedido, ainda que no final você pague mais do que sua oferta original. E nem sempre há negociação chega a um bom termo para ambos. Mas dificilmente passo um mês sem adquirir algum livro, seja em sebos (a maioria), seja em livrarias.
7) Além dos livros, você adquire outros produtos em sebos?
R - Não, principalmente porque eu prefiro aqueles mais caóticos, dedicados apenas aos livros, esparramados por todos os lados.
8) Quais as principais vantagens de comprar em sebo?
R - As duas grandes vantagens são o preço e a possibilidade de achar preciosidade, seja pelo valor do livro em si (uma obra clássica, um grande autor, etc), seja pela combinação valor do livro/preço do livro. Além disso, a sensação da descoberta, do "Nossa, não acredito que encontrei esse!" Para aficcionados como eu, essa sensação pode ser tão boa ou melhor do que encontrar um bom livro por um bom preço.
9) Na sua opinião, quais as desvantagens de comprar em sebos?
R - É necessário, obviamente, ter um cuidado a mais ao examinar um lvro no sebo antes de comprar, afinal, trata-se de um livro usado, o que pode implicar em paginas a menos ou com defeitos de impressão que podem prejudicar a leitura. Tratar-se apenas de um livro velho e rabiscado não é problema, desde que você consiga ler o texto original. Mas descobrir defeitos ou páginas a menos é sempre muito chato. Assim, é necessário examinar com calma o livro antes de comprar (o que nem sempre é possível, a depender da empolgação de encontrar "aquele" livro tão desejado).
10) Você utiliza redes virtuais de sebos, como a Estante Virtual?
R - Não, apesar de ser bastante recomendado. Estou pensando em começar a usar, especialmente em função de alguns livros específicos para a pesquisa do meu mestrado atual, que não posso depender de achar ou não nos sebos.
11) Agora, por favor, relembre histórias curiosas [como conversamos por telefone, podem ser histórias de livros que você encontrou ou qualquer outro fato que aconteceu dentro de um sebo].
R - Bom, realmente são muitos anos de sebo e, portanto, muitas histórias. Posso lembrar pelo menos duas. Por conta da faculdade e do trabalho, comecei a fazer algumas viagens e, sempre que chegava a uma cidade grande (Brasília, Rio, São Paulo), buscava logo saber onde ficava o sebo mais próximo. Foi assim na minha primeira viagem ao Rio de Janeiro. Participei de um concurso de textos promovido pelo Academia Brasileira de Letras, Fiquei em terceiro lugar. Como prêmio, uma passagem de ida e volta ao Rio para receber o prêmio e um valor em dinheiro. Bom, indo ao Rio, não podia pensar em outra coisa: sebos, saldões, livros e mais livros. Perguntei a alguns conhecidos, que me indicaram o "Baratos da Ribeiro", na Av. Barata Ribeiro. Peguei um avião às 07:00, cheguei ao Rio às 09:00 e fui direto do Aeroporto para o "Baratos da Ribeiro". Lá chegando, começei a garimpagem, quando entrou um camarada que falou sobre uma feira de livros. Não pensei duas vezes e perguntei onde estava sendo essa feira. Ele me disse: "Do outro lado da cidade." Fique na dúvida, pois nao conhecia nada do Rio e para chegar lá tinha que ir de metrô. Isso naquela época que só se falava de bala perdida no Rio. Juntei a coragem, pensei nos livros e meti as caras: lá fui eu para o outro lado da cidade, de metro, para cima e para baixo. Mas valeu muito a pena: saindo da estação, dezenas de bancas com livros caindo pelo chão. Me esbaldei, é claro. Quase perco o horário da premiação e pior: quando já estava no taxi, indo para o aeroporto, me dei conta que passei o dia todo no Rio e nada de Pão de Açúcar, Ipanema, Copacabana... quando olhei pela janela, lá estava distante o Cristo Redentor. Moral da história: a máquina fotográfica voltou vazia, mas a mala voltou cheia... de livros.
A segunda história foi aqui em Salvador mesmo. Já tinha ido neste sebo (não vou revelar o nome) e as negociações variavam bastante. Quando era o dono, o negócio era difícil. O cara sabia exatamente quais livros eram mais valiosos e qualquer descontinho mínimo era duro de sair. Já quando era com o ajudante dele, o negócio era moleza. O cara quase sempre aceitava minha primeira oferta. Ou seja, era sopa no mel. Um final de semana tinha ido lá e visto vários livros interessantes, mas o dono estava lá. Pensei, "venho durante a semana". Só que durante a semana, eu trabalho e só dava para ir na hora do almoço. Dito e feito, lá vou eu correndo para o outro lado da cidade, sem ter tempo de almoçar para conseguir comprar os livros. Chegando lá, minha surpresa: o dono estava lá. Bom, já estava lá, não iria dar viagem perdida. Fiquei esperando: 30 minutos, 01 hora, 01:30. Já estava praticamente desmaiando de fome!!, Depois de duas horas, eu já azul de fome, o ajudante finalmente chegou e o dono foi almoçar. Com o resto das forças que tinha, chamei o ajudante e fiz a proposta: não sei se diante do dinheiro vivo ou do meu aspecto já meio morto, o cara aceitou de primeira. Porém, quase 3 horas da tarde, já era o trabalho e eu fui correndo para casa comer alguma coisa. Novamente, moral da história: o estômago estava vazio, mas as mãos estavam cheias de livros e a alma, cheia de alegria.
Essas são algumas das emoções de quem ama os livros e, por tabela, os sebos da nossa cidade e do nosso Brasil.
1) Para você, o que é um sebo?
R - Numa definição formal, podemos dizer que sebo é um lugar especializado na compra, venda e troca de livros usados. Porém, para mim, os sebos são territórios a serem explorados, pois, diferentes das livrarias, não basta só ir no balcão e pedir o livro que se quer. É preciso explorar as estantes, procurar nas brechas, tirar os livros de baixo das pilhas, para encontrar "aquela" preciosidade. Para mim, cada sebo é uma mina de ouro que merece ser garimpada com cuidado. O resultado vale a pena em 99% dos casos.
2) Como e por que você começou a frequentar esses estabelecimentos?
R - Acredito que isso tenha a ver com o hábito da leitura, estimulado tanto pelo meu pai quanto pela minha mãe. Meu pai toda sexta-feira, me dava uma grana para comprar quadrinhos. Por outro lado, minha mãe era professora e sempre recebia todo mês dois livros da coleção Vagalume, os quais eu esperava ansioso. Quando entrei na faculdade de urbanismo, na UNEB, em 1996, meu pai me levou para minha primeira feira de livros, no Shopping Piedade, onde comprei meus primeiros livros (lembro que na feira se comprava livro a metro, a quilo e a unidade). Desde então, tornei-me um obcecado por livros, mais especificamente pela garimpagem de preciosidades literárias. Antes de tornar-me um usuário de sebos, minha predileção eram as feiras de livros e, mais ainda, os saldões, ou seja, aquelas mesas colocados na frente das velhas pequenas livrarias de Salvador (como a DILISA e a Civilização Brasileira, que praticamente já não existem mais). Sempre considerei os saldões melhores que os sebos, pois a referência de sebo que tinha era o Brandão, que foi o primeiro sebo que visitei (já em 1997, quando entrei na faculdade de Direito da UFBA, pois ele era o mais conhecido em 1997, como é até hoje), onde comprei meu primeiro livro de sebo (Introdução ao Estudo do Direito, de João Bosco Cavalcanti Lara). Ocorre que a ida ao sebo foi justamente pelo motivo que não gosto: fui porque queria comprar livros específicos, como numa livraria. O preço não foi tão atraente quanto aqueles que eu estava acostumado a pagar nos saldões. Então para mim, ficou a dicotomia: nos saldões, a intenção dos donos é se livrar de livros que estão ocupando espaço; dai a variedade e o preço mais baixo; nos sebos, os donos sabem o real valor dos livros, o que dificulta achar preços realmente mais baixos. Assim, só passei a frequentar sebos quando os saldões começaram a rarear em Salvador, quando as pequenas livrarias começaram a fechar. Uma das últimas a fechar foi a DILISA da Rua da Ajuda, próximo a Praça Municipal. Logo em frente abriu o Sebo Berinjela, que aos poucos foi atraindo minha atenção pela quantidade, mas também pelo preço (sempre metade do que estava escrito no fundo do livro). Já tinha visitado outros sebos, como o Graúna, que ficava próximo ao Hotel da Bahia; a Casa do Livro, na Ladeira do Corpo de Bombeiros; Um outro que ficava num prédio na Praça da Sé (cujos livros vi, lá de baixo, através da janela e tratei logo de ir atrás); outro que fica na rua paralela à Manoel Dias da Silva, na Pituba; os dois da Estação da Lapa (e o Papirus, que fica do lado de fora, e outro que fica logo no começo, em frente ao ponto do ônibus Boca do Rio); um pequeno que fica na Av. Centenário; houve também um sebo no Aeroclube Plaza Show; o próprio Brandão; e um pequeno, que abriu a pouco num prédio próximo ao Brandão. E assim por diante. Com o fim dos saldões (o que restou foi o da LDM da Piedade, onde há pouco achei algumas coisas bem legais, além da Bienal do Livro, que sempre traz coisas interessantes a preços baixos), os sebos foram se tornando uma opção cada vez mais comum. O que ajudou a desfazer minha primeira imagem dos sebos, pois dá para fazer ótimos negócios também em termos de preços. Mas, o mais importante para mim, é a possibilidade de negociar e de encontrar preciosidades, como as que tenho encontrado ao longo desses anos de visitas aos sebos.
3) Qual seu maior prazer em ir a sebos?
R - Sem dúvida a garimpagem. O preço, na verdade, faz parte da garimpagem, pois o grande lance é juntar o excelente livro e o excelente preço. É claro que às vezes você encontra um livro fantástico, que vale a pena comprar pelo preço pedido. Mas o bom mesmo é quando você consegue negociar um preço mais baixo mesmo naquele livro que você pagaria o dobro do que está sendo pedido. A garimpagem, a negociação e a certeza do bom negócio e do bom produto são os elementos necessários para uma visita proveitosa ao sebo.
4) Você frequenta livrarias?
R - Sim. Com a chegada das grandes livrarias como a Nobel, na Pituba, a Saraiva, do Shopping Iguatemi, e finalmente a Cultura, no Shooping Salvador, há também muito prazer em frequentar livrarias. O ideal é quando você pode mesclar tudo, como no caso da LDM da Piedade, que frequento muito. Lá posso juntar um ambiente agradável, as últimas novidades, um gostoso capuccino e, de vez em quando, uma olhadinha nas "novidades" no saldo do andar de cima.
5) Você lembra qual o primeiro sebo em que você entrou? E o primeiro livro que você comprou?
R - Lembro sim. Como disse, o primeiro foi o Brandão, onde comprei Introdução ao Estudo do Direito, de João Bosco Cavalcanti Lara.
6) Você costuma ir a sebos com que frequência? E, sempre que vai, compra livros?
R - Dificilmente deixo de dar uma passada uma ou duas vezes por semana nos sebos que estão no meu caminho (Lapa, Berinjela). Mas nem sempre compro, pois depende de achar alguma coisa interessante (o que demanda um tempinho para dar aquela vasculhada com atenção) e de haver espaço para negociar um bom preço. A regra é: nunca pagar o que está sendo pedido, ainda que no final você pague mais do que sua oferta original. E nem sempre há negociação chega a um bom termo para ambos. Mas dificilmente passo um mês sem adquirir algum livro, seja em sebos (a maioria), seja em livrarias.
7) Além dos livros, você adquire outros produtos em sebos?
R - Não, principalmente porque eu prefiro aqueles mais caóticos, dedicados apenas aos livros, esparramados por todos os lados.
8) Quais as principais vantagens de comprar em sebo?
R - As duas grandes vantagens são o preço e a possibilidade de achar preciosidade, seja pelo valor do livro em si (uma obra clássica, um grande autor, etc), seja pela combinação valor do livro/preço do livro. Além disso, a sensação da descoberta, do "Nossa, não acredito que encontrei esse!" Para aficcionados como eu, essa sensação pode ser tão boa ou melhor do que encontrar um bom livro por um bom preço.
9) Na sua opinião, quais as desvantagens de comprar em sebos?
R - É necessário, obviamente, ter um cuidado a mais ao examinar um lvro no sebo antes de comprar, afinal, trata-se de um livro usado, o que pode implicar em paginas a menos ou com defeitos de impressão que podem prejudicar a leitura. Tratar-se apenas de um livro velho e rabiscado não é problema, desde que você consiga ler o texto original. Mas descobrir defeitos ou páginas a menos é sempre muito chato. Assim, é necessário examinar com calma o livro antes de comprar (o que nem sempre é possível, a depender da empolgação de encontrar "aquele" livro tão desejado).
10) Você utiliza redes virtuais de sebos, como a Estante Virtual?
R - Não, apesar de ser bastante recomendado. Estou pensando em começar a usar, especialmente em função de alguns livros específicos para a pesquisa do meu mestrado atual, que não posso depender de achar ou não nos sebos.
11) Agora, por favor, relembre histórias curiosas [como conversamos por telefone, podem ser histórias de livros que você encontrou ou qualquer outro fato que aconteceu dentro de um sebo].
R - Bom, realmente são muitos anos de sebo e, portanto, muitas histórias. Posso lembrar pelo menos duas. Por conta da faculdade e do trabalho, comecei a fazer algumas viagens e, sempre que chegava a uma cidade grande (Brasília, Rio, São Paulo), buscava logo saber onde ficava o sebo mais próximo. Foi assim na minha primeira viagem ao Rio de Janeiro. Participei de um concurso de textos promovido pelo Academia Brasileira de Letras, Fiquei em terceiro lugar. Como prêmio, uma passagem de ida e volta ao Rio para receber o prêmio e um valor em dinheiro. Bom, indo ao Rio, não podia pensar em outra coisa: sebos, saldões, livros e mais livros. Perguntei a alguns conhecidos, que me indicaram o "Baratos da Ribeiro", na Av. Barata Ribeiro. Peguei um avião às 07:00, cheguei ao Rio às 09:00 e fui direto do Aeroporto para o "Baratos da Ribeiro". Lá chegando, começei a garimpagem, quando entrou um camarada que falou sobre uma feira de livros. Não pensei duas vezes e perguntei onde estava sendo essa feira. Ele me disse: "Do outro lado da cidade." Fique na dúvida, pois nao conhecia nada do Rio e para chegar lá tinha que ir de metrô. Isso naquela época que só se falava de bala perdida no Rio. Juntei a coragem, pensei nos livros e meti as caras: lá fui eu para o outro lado da cidade, de metro, para cima e para baixo. Mas valeu muito a pena: saindo da estação, dezenas de bancas com livros caindo pelo chão. Me esbaldei, é claro. Quase perco o horário da premiação e pior: quando já estava no taxi, indo para o aeroporto, me dei conta que passei o dia todo no Rio e nada de Pão de Açúcar, Ipanema, Copacabana... quando olhei pela janela, lá estava distante o Cristo Redentor. Moral da história: a máquina fotográfica voltou vazia, mas a mala voltou cheia... de livros.
A segunda história foi aqui em Salvador mesmo. Já tinha ido neste sebo (não vou revelar o nome) e as negociações variavam bastante. Quando era o dono, o negócio era difícil. O cara sabia exatamente quais livros eram mais valiosos e qualquer descontinho mínimo era duro de sair. Já quando era com o ajudante dele, o negócio era moleza. O cara quase sempre aceitava minha primeira oferta. Ou seja, era sopa no mel. Um final de semana tinha ido lá e visto vários livros interessantes, mas o dono estava lá. Pensei, "venho durante a semana". Só que durante a semana, eu trabalho e só dava para ir na hora do almoço. Dito e feito, lá vou eu correndo para o outro lado da cidade, sem ter tempo de almoçar para conseguir comprar os livros. Chegando lá, minha surpresa: o dono estava lá. Bom, já estava lá, não iria dar viagem perdida. Fiquei esperando: 30 minutos, 01 hora, 01:30. Já estava praticamente desmaiando de fome!!, Depois de duas horas, eu já azul de fome, o ajudante finalmente chegou e o dono foi almoçar. Com o resto das forças que tinha, chamei o ajudante e fiz a proposta: não sei se diante do dinheiro vivo ou do meu aspecto já meio morto, o cara aceitou de primeira. Porém, quase 3 horas da tarde, já era o trabalho e eu fui correndo para casa comer alguma coisa. Novamente, moral da história: o estômago estava vazio, mas as mãos estavam cheias de livros e a alma, cheia de alegria.
Essas são algumas das emoções de quem ama os livros e, por tabela, os sebos da nossa cidade e do nosso Brasil.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Musica: Gadú, Monae, Kesha, Concha, Medulla e Morte.
Música: um tema que já deveria ter entrado aqui há bastante tempo, mas tinha ficado na prateleira até agora. Esperando o momento certo, talvez. E o momento chegou, proporcionado pela minha ida à Concha Acústica no dia 08/04/2011 assistir ao show de Maria Gadú. Já me prometi que no mínimo dois shows eu iria assistir quando estivessem em Salvador: Gadú e Lenine. Gadú é paixão recente, proporcionada pelo dvd multishow que meu primo Jairo deixou aqui em casa para eu ver. Confesso que "shimbalaies" para lá e para cá eu achava bonitinho, mas nada mais. Ao assistir ao dvd, principalmente com a participação dos Varandistas, ou seja, Leandro Léo e companhia, fiquei realmente vidrado. Músicas como "Quando fui chuva", "Lounge", "João de Barro" e "Laranja" (essa ouvi pela primeira vez no rádio de um taxi em São Paulo) não me saem mais da cabeça. Conversava com algumas pessoas que a aparição de Gadú no cenário musical brasileiro me lembrava a de Marisa Monte. Antes de Marisa aparecer, havia uma cisão entre público e crítica. Ou seja, as músicas populares eram consideradas de baixa qualidade musical pelos críticos (axé, sertanejo, etc) e vice-versa, o que os críticos achavam que tinha qualidade quase não tinha reconhecimento de público (experimentalismo, música instrumental, etc). Marisa rompeu essa divisão, pois era sucesso de público e de crítica. Gadú vai nesse mesmo sentido, pois as músicas tem forte ressonância popular, mas ao mesmo tempo são super-técnicas (do jeito que a crítica gosta). Tentar tocar "Quando fui chuva" ou "João de Barro" é um teste para a flexibilidade dos dedos!! Bom, o show foi caro (R$ 60,00), mas muito bom. Quer dizer, eles souberam fazer o suspense certo, pois o show começou muito bem, tocando os sucessos e tal, tudo ótimo. Mas uma hora depois, ela se despediu. Ai ficou um ar de desapontamento no ar, pois apesar de bom, era pouco em relação ao que se esperava. Mas ai ela voltou para o bis e jogou o show lá para cima de novo, encerrando com uma apoteótica "Eva", com o público inteiro de pé, marcando o rítmo da música nas palmas, a lá "Radio Gaga" do Queen. Muito bom!! O ponto fraco foi a ausência de "Quando fui chuva", minha música favorita do dvd. Não tocou pela falta, imagino eu, do Luís Kiari, que toca a música no dvd e não estava aqui em Salvador, diferente do Dani Black, que cantou "Só Sorriso" e do Leandro Léo, que cantou "Linda Rosa" e "João de Barro", ambos presentes no dvd também. Para aliviar a ausência, segue o link para "Quando fui chuva": http://www.youtube.com/watch?v=QJoE5GPmOvQ Já Lenine é paixão antiga. Já pude curtir show do cara aqui na Bienal de Artes da UNE (onde ouvi também - se não me engano, no mesmo dia - Chico Science e Nazão Zumbi. É claro que depois dessa "surra percussiva", meus ouvidos sairam zunindo). Curti também o dvd "Incité", gravado lá em Paris, com a participação do grande Ramiro Mussoto, um gigante que se foi. É inesquecível a mágica de fazer percussão numa bacia d'água (detalhe: a percussão era na água e não na bacia). E também da baixista cubana Yusa (que toca uma canção sozinha no violão que quebra a espinha de quem tenta acompanhar seu compasso). De qualquer modo, Lenine é sempre uma ponte fundamental entre a reflexão e a transpiração, o corpo e a alma, o movimento e a mansidão. Então, estou na fila: quando o cara estiver em Salvador, estarei na turma do gargarejo! Como exemplo dessa "raíz fincada no mangue e a cabeça, satélite na imensidão", segue o link da música que abre o dvd In Cité: http://www.youtube.com/watch?v=q1nIUp4DnG0 Para finalizar, queria falar de três músicas, talvez nem tanto por elas, mas porque a sua ocorrência agora me fez lembrar um pensamento que sempre tive desde cedo: a limitação do instante de vida diante da espiral infinita da cultura. Isso é só para dizer uma coisa que me afligia muito no passado (hoje aflige menos, mas ainda penso nisso): o fato de quão fundamental é a arte na nossa vida, porém o quão igualmente desimportante é a nossa vida para a arte. Ou seja, as vezes você se depara com um filme, um livro, um quadro ou uma música que marca tanto a sua vida que ela se torna parte de você. E quando você pensava que nenhuma outra peça artística teria aquele mesmo impacto, acontece de novo. E de novo. Ou seja, o impacto da arte na nossa vida é constante. Por outro lado, eu pensava: "E quando eu morrer, outros filmes tão bons quanto esses, e outras músicas, e livros e quadros surgirão e eu já não estarei mais aqui para ser atingido pela força estética dessas obras." Esse tipo de pensamento mostra bem uma certa insignificância nossa diante da cultura como um todo. Nesse sentido, três músicas me atingiram nesse sentido recentemente. Ou seja, de agora em diante, elas sempre estarão gravadas em mim. Como eu disse, a referência a essas músicas é muito mais para demostrar essa oposição entre finitiude da vida e infinitude da arte do que pela qualidade intrínseca delas, pois certamente daqui há algum tempo outras as substituírão em termos de "the newest new thing", ou seja, a mais nova novidade. Primeiro, Kesha. Bandida total, baladeira e badogueira (como diríamos aqui em Salvador), aparece quase sempre nos vídeos caindo aos pedaços depois de alguma zona (haja vista seu maior sucesso "Tik Tok"). Porém, eu gosto de algumas coisas, principalmente da voz, da imagem (beirando o non sense, como em "We R who we R") e do estilo de teclado, algo entre o minimalismo e uns compassos estranhos (4x3), que dão uma quebrada interessante na música, principalmente quando se fala em dance music, que sempre corre o risco de virar um bate-estaca sem identidade. Isso pode ser visto também em "Just Dance", de Lady Gaga (que claro que merecia um post só dela aqui), "Everytime we touch", de David Guetta (idem) e "Move for me", de Kaskade & Deadmaus (não chega a merecer um post não). Assim, curti muito essa "We R who we R", que segue no link abaixo: http://www.youtube.com/watch?v=mXvmSaE0JXA Outra música que grudou nas minhas meninges foi "Eterno Retorno" do Medulla. O Medulla são os irmãos Queops e Raoni e banda. Os caras são muito bons nessa de fazer música num formato bem diferente, flertando com o pop, mas com um gosto de alguma coisa muito estranha no fim da primeira mordida. Guitarras e bateria em descompasso, frases intencionalmente incompleta. Não é exatamente música para cantar no churrasco ou na rodinha de violão na ilha. Mas é música entendida como um produto estético completo, ou seja, letras extremamente engenhosas, inteligentes e poéticas, com uma linguagem visual própria, como se pode ver em videos como "Munição na Mamadeira", "O Novo" e esse "O Eterno Retorno", que segue no link abaixo: http://www.youtube.com/watch?v=3tfYkeGWOgs E para finalizar, o que dizer de Janelle Monae. Somente que não mais imagino minha vida sem ela. Zapeando pela tv, passo pela MTV (que ainda é capaz de revelar algumas coisas) e vejo Janelle Monae dançando à la James Brown, no ritmo alucinante de "Tightrope". Fisgado que estava, fui atrás da enciclopédia dos novos tempos: o youtube (cada geração tem a enciclopédia que merece: os iluministas tinham Diderot, nos temos o Google). E lá encontro "Cold War". Música e videos maravilhosos. A música tem toda a raiva, melancolia, contradições e desabafos que poderia haver numa música que desce fundo em relacionamentos mal resolvidos. Já o video é uma homenagem óbvia a Sinead O'Connor em "Nothing Compares to You": o mesmo enquadramento fixo no rosto, as mesmas lágrimas claramente verdadeiras. O mesmo estilo já tinha sido usado por Alanis Morissette (sem lagrimas) em "Head over feet" e Jamiroquai (em tons de cinza) em "Half the man". Mas o impacto de "Cold War" é arrasador, conforme se pode ver no link abaixo: http://www.youtube.com/watch?v=lqmORiHNtN4 Já me despedindo, não poderia, num post falando em música, não dar alguma esperança ao colega Elisieu de que ainda existe algumas coisas iguamente novas e boas rolando por ai para quem está disposto a procurar. Vai pelo menos duas indicações (ficando no campo do rock em suas múltiplas facetas): "I know what i am" - The Band of Skulls - powertrio barulhento (como só os bons powertrios conseguem - Nirvana e Cream que o digam), que às vezes parece puxar - pelo menos nessa música - quase para um "dirty country", se é que isso existe. Se fosse para resumir diria: uma colisão entre Public Enemy, Kings of Leon e uma colherinha de psicoldelia à la Jefferson Airplane. Segue link: http://www.youtube.com/watch?v=fKL2prSqDQI "Lights" - Interpol - Beeemmm estranho. Trombei com esse video no pior horário possível: duas da manhã. Já conhecia o Interpol de "There's no I in threesome" (que já vale ouvir só pelo título) e resolvi ver o video. O começo é uma mistura de curiosidade e medo do que vai acontecer. E diferentemente de 99% das expectativas desse tipo, o final do clipe não frustra, mas, pelo contrário, choca ainda mais do que qualquer coisa que você poderia esperar (a não ser que você tenha uma imaginação ainda mais fértil que a minha). A músíca, longe de ser um detalhe, é a trilha sonora perfeita para essa viagem ao lado mais encondido da nossa mente. A voz do Paul Banks emoldurada por um riff de guitarra magistral dá o tom ideal para a mente doentia do diretor Charlie White trabalhar. Vale a pena tanto pelas imagens quanto pelo som. Mas sugiro assitir as três da tarde ou as dez da manhã, por via das dúvidas. Segue o link: http://www.youtube.com/watch?v=7_CalTEVCOs
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