sábado, 5 de março de 2011

A Minha Cidade a Pés

Olá novamente. Novamente porque fiquei sem pôr os pés aqui por muito tempo desde a última postagem, onde dizia que esperava não ficar tanto tempo fora. Porém, lembrem-se que criei esse blog com uma condição: não ter obrigatoriedade de atualizá-lo. Ocorre que isso é condição sine qua non para se criar um blog!! Por que alguém leria algo hoje para saber que, daqui há um mês, encontrará a mesma coisa se olhar o blog novamente. Esse sentimento de culpa quase me faz querer mudar o nome do blog para "cartas para mim mesmo". Pelo menos seria menos angustiante saber que a única pessoa que lê essas mal escritas linhas sou eu mesmo e, é claro, eventualmente Juli, minha cúmplice. Ah, agora uma terceira pessoa sabe desse blog também, o Eliziel, figuraça com quem bato altos papos no fim do expediente da SEDHAM (na verdade, os papos são tão legais que se estendem pelo fim do expediente adentro, até que finalmente o cara cansa de se submeter a minha verborragia. Mas certamente é uma das poucas pessoas que eu conheço que sabe que slipknot não é marca de batom e que o cinema não é feito só de Titanic, mas de coisas singelas como Centopéia Humana e Holocausto Cannibal.) Mas a menos que The Platelminto's (nome fictício que dei à quase-banda de rock que ele teve) anunciem um retorno triunfal ao cenário rocker baiano, o velho Eliziel não é o tema desse post, mas sim a minha cidade.
Esse post, na verdade, descreve algo que faz parte dos meus "hábitos estranhos", entre os quais também podem se enquadrar o fato de eu só tomar café a partir das 17:00 no trabalho (alguns colegas costumam acertar o relógio quando eu me dirijo à garrafa térmica) e a minha preferência por chafurdar na poeira de sebos antigos ao invés de ir a uma livraria devidamente climatizada como a Cultura do Shopping Salvador (maravilhosa por sinal!) ou a LDM na Piedade (meu oásis no pós-almoço, sempre na Fazendinha, na lateral do Center Lapa). Esse hábito consiste em "flanar" pela cidade. Não sei se posso aportuguesar assim a expressão "flâneur", que ficou famosa nos versos de Charles Baudelaire (autor de "Flores do Mal"), mas trata-se de andar pela cidade, sem destinos ou horários pré-determinados. Digo hábito porque faço isso com alguma constância, apesar de bem menos do que já fiz no passado e do que gostaria de ainda poder fazer. O fato é que o Centro da cidade tem um simbolismo forte para mim. Interessante que não se trata do Centro que tem como marco o Pelourinho ou a Praça Municipal, mas sim o Centro que tem por origem a Estação da Lapa. Como usuário do sistema de ônibus até o final de 2008, tenho lembranças de estar sempre passando pela Lapa a caminho de algum lugar. Até que desenvolvi a mania de também passar pela Lapa a caminho de lugar nenhum. Estou tentando lembrar se, na infância ou adolescência, eu tinha algum motivo em especial para ir tanto à Lapa e realmente não me lembro. Nunca estudei no Central ou trabalhei na Avenida Sete. Sei que de 2001 em diante, por razões de trabalho e do coração, tive um itinerário bem intenso que começava, de manhã, no Porto da Barra, na ARCON - Arquitetura e Consultoria Ltda, meu primeiro trabalho como urbanista recém-formado, à convite do grande Claudson Moreira (quando eu estava deixando o estágio na SEPLAM, em 1999, ele estava entrando na secretaria. Alguns poucos meses de convivência foram suficientes para que ele me desse minha primeira chance de trabalho. E me rendesse um fato que eu repito sempre e me enche de orgulho: me formei numa sexta-feira, as festas se estenderam até o sábado e a recuperação tomou todo o domingo. Na segunda, de manhã, meu telefone tocou e, com o convite de Claudson para trabalhar no PEMAS de Candeias, eu já estava empregado antes mesmo de procurar emprego). Depois eu ia para a Ladeira da Misericórdia, do lado da prefeitura, onde ficava a Fundação Ondazul (cuja experiência ao lado de Eduardo Neira e Cia mereceriam não um, mais vários posts. Vou colocar aqui no blog um texto que conta um pouco dessa relação com a Fundação Ondazul e com Eduardo Neira em especial). Depois caminhava até a casa da professora Palácios (outra figura importantíssima para mim e que merece e terá um post aqui), na Cruz de Pascoal, entre o Pelourinho e o Santo Antônio Além do Carmo. Lá estava no paraíso, pois para um leitor fanático como sou (e cujo fanatismo só tem piorado com os anos), a casa de Palácios é algo como a Fábrica de Chocolates de Willy Wonka, pois parece feita de livros, do piso ao teto (incluindo as paredes, forradas de livros em enormes estantes). Lá passava algumas horas deliciosas catalogando os livros dessa mestra tão admirada. Ao final, dava uma andada "monstro", mas por uma boa causa: namorar no Duque de Windsor, na Piedade, de onde descia, acompanhado, para terminar meu dia na Estação da Lapa. Por esses e outros motivos, a Estação da Lapa tem um lugar especial no meu mapa topofílico (ou seja, aquele mapa formado pelos lugares que gostamos e que constituem a nossa cidade interior, nossa endocidade, como chamo em um texto que apresentei num seminário sobre espaços públicos, a pedido da professora Míriam Velasco. Essa também tem direito à post, com certeza. E post com sotaque colombiano, como sua conterrânea Shakira. Vou colocar aqui também esse texto).
Bom, mas voltando ao bovino criogenado (a.k.a. vaca fria), falávamos de flanar pela cidade do Salvador, sem eira nem beira, horários ou compromissos. Essa "escapadinha" se deu na ausência da minha querida Juli, que estava num curso de interpretação teatral no Rio de Janeiro. Aproveitando a ausência (pense bem: como você reagiria se seu namorado(a) dissesse que vai dar uma volta, sem destino certo ou horário para voltar? Se você respondeu que não acharia nada demais, certamente seu nome não é Juli Arize...) Pois bem, no último final de semana "livre" (entre aspas, porque adoro saber que vou ficar "preso" a ela por muitos anos), aproveitei para retomar esse velho hábito e, literalmente, sair por ai. Comecei pegando o carro (calma, quando falei de percorrer a cidade a pés, foi exatamente isso que quis dizer) e fui até o Center Lapa (ahaa!) e deixei o carro devidamente guardado. E de lá comecei o verdadeiro flanar. Sem destino pré-definido, pensei um pouco e decidi: Berinjela. Local também digno de post, o Berinjela é um sebo/lanchonete/espaço cultural que fica num bequinho próximo à Rua Chile. Com dois andares, tem um dos atributos que mais aprecio em um lugar: pilhas e pilhas de livros, numa organização que beira o caos (em sua versão criativa, à la James Gleick). Além disso, conta com a presença do simpaticíssimo Jorge, ex-industrial que agora se dedica ao Berinjela e com quem já fiz alguns negócios da China (entre os quais clássicos como A Questão Urbana, de Manuel Castells; a Democracia na América, de Tocqueville; e Uma Teoria da Justiça, de John Ralws, todos por R$ 15 reais ou menos). Falar do Berinjela me lembro dos tantos outros sebos que conheço (Papirus, Graúna, Brandão...), que valeria a pena fazer também um post sobre eles. Anotado. Bem, colocando as pernas para funcionar, sai do Center Lapa, atravessei a Praça da Piedade, chegando ao Relógio de São Pedro, de onde desci a Avenida Sete de Setembro. Só nesse trecho, você já vê o movimento, as pessoas, os prédios, a mistura de tudo que faz o cenário das ruas dessa cidade. Todos os cheiros e cores, toda a urbanocinética que vivifica a estrutura construída e reconstruída ao longo de tantas gerações, superpostas, mas entrevistas pelas frestas que conectam a cidade antiga ao mar de sempre, como o que explode aos nossos olhos quando chegamos à Praça Castro Alves, e vemos todo aquele conjunto de águas aos pés do poeta, como a regar os seus ossos que jazem sob o monumento (essa vista é particularmente bonita do alto do Espaço Cultural Unibanco - Cine Glauber Rocha, que eu recomendo). Seguindo pela rua principal, entro no beco do Berinjela e me deparo com...grades. Era sábado, quase quatro horas e ele estava fechado. Bom, decepções à parte, não desanimei e parti para a Praça Municipal, de onde apreciei aquela bela vista da Baia de Todos os Santos. Diante daquela paisagem, refleti sobre o próximo rumo. Quando me virei, a resposta lá estava: o Palácio Rio Branco. Aquele construção imponente em frente à Prefeitura, na qual só tinha entrado por ocasião de um lançamento promovido pela professora Débora Nunes (outro post, com certeza!!), porém à noite. Lá estava de portas abertas para mim e nele penetrei como os diversos turistas que já invadem a cidade. Lá, além de apreciar a bela arquitetura, fui a uma das varandas e me deparei com uma vista inesquecível. De frente para um dia belíssimo, um céu de azul impactante, em perfeita sintonia com o azul do mar, debrucei-me sobre a balaustrada e pude imaginar como, há séculos atrás, a fina flor da aristocracia baiana deleitava-se como aquela vista. Realmente vale a pena ser vista por todos, como convém aos nossos tempos democráticos. Em seguida, ainda pude apreciar, em outra sala do palácio, uma exposição sobre os governadores da Bahia (pois ali era a sede do governo do estado) muito interessante, onde obras volumosas dão, por exemplo, a dimensão intelectual de Luís Vianna Filho. Dali, intencionando ir até o Largo do Carmo, atravessei a Praça da Sé e o Terreiro de Jesus, adentrando em seguida o Largo do Pelourinho. Mas quando cheguei lá embaixo e encarei a ladeira em direção ao Santo Antônio, admito que desisti. Novamente em meio às várias alternativas de destino possíveis para quem não tem nenhuma linha de chegada prévia, pensei: "Pôr do Sol no café da Aliança Francesa." Sem tempo a perder devido à distância e ao horário (condicionado à velocidade do sol, bem mais poética que a velocidade da luz, apesar de conceitualmente tão próximas), pus sebo (de outro tipo, menos cultural e mais metafórico) nas canelas e pedi ajuda a todos os orijás para subir de volta a ladeira do Largo do Pelourinho. Atravessando de volta a Praça da Sé, não pude deixar de notar a Cruz Caída, de onde também se tem uma bela vista da Baía. Fui até lá e me vi dentro de outra cena inusitada e preciosa. Lá, um jovem com uma longa trança loura tocava violão em meio ao cenário, que contrastava a brancura do piso, o verde das copas das árvores e o azul do céu. A música, algo entre o flamenco moderno e o barroco medieval, me encantou e lá permaneci, sentado nos degraus da escadaria feita de arquibancada por mais alguns interessado. Após uns vinte minutos, pus algumas moedas no chapéu daquele jovem músico e o imaginei, tocando nas mais diversas praças do mundo (Buenos Aires, Barcelona, Paris), acompanhando apenas do violão, do pequeno amplificador, e tendo como sustento apenas o aplauso incerto da sua arte. Novamente em movimento, preparo-me para subir a Carlos Gomes, quando me lembro do Centro Cultural da Caixa. Sempre com boas exposições, desta vez não foi diferente. Lá passei algum tempo apreciando uma bela exposição de fotos e videos sobre o Kuarup, o tradicional ritual dos índios do Xingú, registrando o trabalho dos irmãos Villas-Boas. Das fotos e histórias alí expostas, uma me impressionou sem um porquê específico: a foto de um índio andando, impávido, como que em direção ao seu destino, tendo ao fundo uma enorme oca de palha. Essa certeza do homem primitivo diante do seu destino, uma certeza que está além de toda a inteligência do homem moderno, que lutou para se livrar do julgo de um deus que lhe definia o lugar no mundo, e que agora enfrenta, lado a lado, o peso da responsabilidade sobre seu futuro e o vácuo de consciência diante dele. Essa certeza ancestral (e sua superioridade em relação às previsões precárias que estão ao alcance da nossa inteligência terrenamente tecnológica) é mostrada de forma magistral na cena final do filme Koyaanisqatsi (que mostra a decolagem e posterior explosão da Challenger, pontuada pela música brilhante de Philip Glass). A superioridade da nossa raiz ancestral sobre nossas próteses artificiais (do pensamento - computador; do corpo - as máquinas motrizes; ou até da alma - as religiões) está tão impressa naquela foto quanto nesta cena, cujo filme foi indicação da colega Ana Guerra, que integra meu panteão de colegas de trabalho memoráveis. Saindo do Espaço Cultural da Caixa, e seguindo pela Carlos Gomes em direção à Ladeira da Barra, onde fica a Aliança Francesa passei pela Rua do Cabeça, onde, inadvertidamente, achei que era a entrada para chegar ao Museu de Arte Sacra, outro lugar que merece visitação constante. Porém, me enganei e acabei saindo no Largo Dois de Julho. Atravessei o largo reconhecendo naquele também um lugar que tem toda uma atmosfera particular. Lembra um microcosmo, um cisto com vida própria inserido no organismo caótico da cidade. Dalí segui ainda pela Carlos Gomes, quando passei pelo Largo dos Aflitos. Novamente a lembrança da bela vista do mirante dos Aflitos atraiu meus passos. Lá fiquei e pude aproveitar bastante daquela vista, enquanto, atrás de mim, na pequena igrejinha ali localizada, uma missa transcorria, lembrando o contraste entre a natureza ilustrada por aquela baía e a cultura secular dos rituais católicos, me perguntando qual das duas seria uma obra mais digna da assinatura do divino. Dali segui, passando pelo Palácio da Aclamação, onde esperava também fazer uma parada para apreciar suas exposições. Porém, o mesmo estava fechado. Atravessei o Corredor da Vitória, vez ou outra apreciando alguns dos seus prédios de arquitetura imponente (ou extravagante, como a Torre Barcelona, um dos orgulhos da EDEPRIMA Empreendimentos, aos quais deve se juntar o hotel de alto luxo que promete se instalar na antiga sede do Jornal A Tarde. Da EDEPRIMA guardo algumas lembranças de um trabalho que fiz, a convite do colega João Pedro, referente a um investimento no município de Esplanada. Lá conheci figuras interessantes como o Jenner, o Érico Mendonça - atual coordenador do Plano de Desenvolvimento do Turismo Sustentável de Salvador-, entre outros). Chegando a Aliança Francesa, ainda havia tempo quando adentrei ao ambiente do seu bem localizado café e pude apreciar o belo pôr-do-sol. O deleite só não foi maior pois, sentei e durante todo o tempo que lá estive, não me foi oferecido sequer o cardápio para que eu pudesse, como deveria ser o objetivo de toda casa comercial, consumir. Creditando isso ao hábito que outros devem ter de ir até lá apenas para ver o fim do dia, e não necessariamente desfrutar dos crepes, especialidade da cozinha francesa, sai de lá com a intenção de finalizar o dia e retornar ao Center Lapa. Porém, passando pela rua que dá acesso à Graça, lembrei do café que fica no Museu Rodin, sobre o qual li uma boa referência na revista Muito (a qual já me referi aqui). Hora de mais uma experiência inédita. Para lá fui, e, após passar por réplicas que mostram toda a destreza na arte da escultura que fizeram a grandeza merecida de Rodin, pude, enfim, desfrutar um belo cappuccino (minha bebida preferida e que, certamente merece um post. Afinal, que outra bebida você conhece que é protagonista de um filme inteiro, como foi o capputino tão desejado por Bruce Willis em Hudson Hawk – O Falcão Está à Solta?) acompanhado por uma deliciosa torta. Depois, retornei pelo Corredor da Vitória, mas, temendo o deserto que deveria estar a Avenida Sete àquele horário (19:00) de um sábado, fui até a frente do Teatro Castro Alves e peguei um ônibus, saltando em frente ao Center Lapa. Quando me dirigia para a entrada, me ocorreu uma última visita. Confirmando que o shopping funcionava até as 21:00, subi a ladeira ao lado do Center Lapa e fui para um barzinho em frente a Biblioteca Central (são vários, eu sei. Refiro-me ao que fica num centro comercial, onde tem vários lojas.) Lá, enquanto violonista e baterista arrumavam seus instrumentos, pedi um guaraná e uma porção de bolinhos de carne do sol que, para minha surpresa devido às minhas últimas experiência com bolinhos desse tipo em bares desse tipo, estavam ótimos. E lá acabei minha “flanada” pela cidade: desfrutando meu guaraná e meus bolinhos de carne do sol, ao som do repertório de Djavan e Cia, e sob a luz da lua e das estrelas da minha cidade. Uma flanada com direito a tudo que constrói a nossa endocidade: os cinco sentidos. Seja a visão (com a paisagem natural do mar ou com a paisagem artificial da eclética arquitetura de Salvador, que vai do clássico do Palácio Rio Branco ao pós-moderno da Torre Barcelona), seja a audição (com a bela música flamenco-barroca ou com a nossa querida MPB), seja o paladar (com a torta doce e os bolinhos salgados), seja o olfato (com o cheiro do povo atulhado nos becos da cidade e com o aroma das flores dos jardins do Museu Rodin). Mas principalmente com o tato (com o tato cansado do meu pé esquerdo ou com o tato acabado do meu pé direito). Pois para conhecer a cidade, essa cidade de verdade, que é só nossa, a nossa endocidade, só assim. Só a pés.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Como me Tornei o Professor que Sou

Em homenagem a este Dia do Professor (15/10), segue trecho de um texto do mestrado, feito à pedido da Prof.º Tânia Fisher, sobre os professores que mais nos marcaram durante a nossa formação:
"Dos anos tenros, onde se inocula conhecimento mais pelo carinho do afago do que pelo volume da voz, guardo lembranças da Tia Neide. Não sei se conhecedora dos vastos ensinamentos de mestres como Jean Piaget, Anísio Teixeira ou Paulo Freire, esta pequena notável de 1,60m, que na minha meninice parecia gigantesca, como que sabia instintivamente que as crianças são, como repetem os especialistas, verdadeiras “esponjas” do mundo ao seu redor. Assim, sabendo que o conhecimento posto à disposição será absorvido, restava tornar essa absorção natural o mais deleitosa possível, com cantigas e carinhos dignos de “mães de meio período.”
O desenrolar das lembranças vai me encontrar já nos anos 1990. Lembro-me bem do professor de História Chico e da professora de português Vitória Régia. O primeiro, no que depois descobri ser a essencial dos professores de história, despertava como poucos o nosso senso crítico então florescente. Não se limitava a descrever o passado como algo a ser decorado. Pelo contrário, mostrava como o nosso presente não era algo posto, como que ali sempre existente, mas fruto de outros presentes pretéritos, cujas conseqüências nos colocavam naquele exato momento, sentado naquelas exatas carteiras, com seus braços de fórmica branca, pergaminhos modernos a guardar, esculpidos com a ponta de ferro dos compassos, da fórmula de báscara a declarações apócrifas.
Das aulas da professora Vitória Régia, não guardo sequer um nome dos autores característicos do Simbolismo (Seria o Cruz e Souza?), mas tenho cravado na retina e nos tímpanos as suas performances viscerais quando, a pedido dos alunos, declamava poemas com toda a força dos pulmões, ao tempo em que lhe corriam a face lágrimas numa profusão tal que imaginei ser incapaz a qualquer outro ser humano (Descobri-me errado quando, sozinho em uma catedral humilde, contemplei todo o vigor do meu pai-herói reduzido a um corpo inerte contido num claustro de madeira em cujo carvalho falso escorria a verdade das minhas próprias lágrimas). Da professora Vitória Régia guardo a entrega ao limite de um professor em sala de aula, mostrando-nos a intensidade da vida, do amor mais sublime à angústia mais paralisante. Talvez em função de um amor nem tão sublime, devo a ela também o meu primeiro contato com a morte. Amante de um homem casado, a sua presença na escola foi suficiente para uma esposa ensandecida atirar, acidentalmente, na querida Lina, secretária da escola e muito estimada entre os alunos. A sua morte me faz agora refletir, tendo por foco a atividade de professor, o quanto nossa vida pessoal vai para dentro da sala de aula conosco. Na época, minha única lição foi como os sentimentos podem se transformar: o desejo da professora na saudade da secretária; o amor da esposa no ódio da assassina; a admiração do aluno no desprezo da testemunha.
Na UNEB, as maiores lembranças são das professoras Maria Palácios, Zalvira Vilasboas, Débora Nunes e Miriam Velasco e dos professores Vítor Lopes, Milton Júlio, Armando Branco e Clímaco Dias. Se tivesse que resumir as características que busco absorver desses professores, aquilo que os tornam meus mestres referenciais, sob pena de esconder suas outras qualidades, diria: da professora Palácios, a erudição; da professora Zalvira, a calma; da professora Débora, a responsabilidade social; da professora Míriam, o senso crítico; do professor Vitor, o rigor científico; do professor Milton, o profissionalismo; do professor Armando, o estímulo à produção do aluno; e do professor Clímaco, a visão holística.
Na Faculdade de Direito, não faltam grandes conhecedores das questões jurídicas. Porém, como já abreviei anteriormente, o ser professor é mais do que o ensinar princípios e liturgias. É atingir, além das mentes, os corações dos alunos. É neste quesito, dois mestres são imbatíveis: os professores Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona.
O professor Rodolfo Pamplona é uma das nossas maiores autoridades em Direito do Trabalho. Matéria, para mim, totalmente alienígena dentro dos meus interesses no campo do Direito (Filosofia e Sociologia Jurídicas, Teoria Geral do Estado e Direito Constitucional sempre me atraíram mais). No entanto, com a capacidade que só os grandes professores têm, a aula do professor Pamplona tornava assuntos como competência trabalhista e ritos processuais alvos dos meus mais esforçados comentários. Olhando nos olhos de cada aluno e dando-lhe o máximo da sua atenção quando lhe esclarecia uma questão, o professor Pamplona mantinha um permanente sorriso. Esse sorriso inefável comprovava diariamente o que ela havia nos dito no primeiro dia de aula: estava ali porque amava ser professor, e não por dinheiro ou prestígio, ambos já conquistados à frente da 1ª Vara Trabalhista da Bahia.
Quanto ao professor Pablo, torna-se ainda mais difícil resumir as suas qualidades cujo mimetismo é nossa maior ambição. Brilhante orador e profundo conhecedor do Direito Civil, suas aulas são lendárias, atraindo ouvintes como nenhuma outra na faculdade, a ponto de acumularem-se carteiras avulsas além daquelas do vasto auditório que constitui cada uma das salas laterais da Faculdade de Direito. Showman assumido, circula por toda a sala, microfone em punho. Quando em algum instante para de súbito, é apenas para dar ênfase dramática a alguma informação que acha especialmente importante ser lembrada por sua turma, misto de fãs e acólitos. Profundo estimulador do pensamento de cada aluno, busca a todo instante incentivar a fala, o comentário, a pergunta. Foi dele que ouvi pela primeira vez a frase por mim muitas vezes repetidas para meus próprios alunos: “Não existe pergunta boba. Existe bobo que não pergunta.” Assim ele desmistificava o temor reverencial imposto por professores que não queriam ser incomodados pelas tais “perguntas bobas.”
Esse estímulo à participação, numa turma que facilmente tinha 70, 80 alunos, implicava em vencer a barreira de ser o foco das atenções, coisa que alguns naturalmente buscavam e outros naturalmente temiam. E não bastava perguntar ou comentar. Era necessário fazer uma pergunta inteligente, um comentário relevante. Sabíamos que tínhamos atingido esse objetivo quando o professor Pablo nos olhava de volta e perguntava: “Qual o seu nome?” Lembro-me bem que a primeira vez que isso aconteceu comigo, foi como ter ganho um prêmio Nobel. Com a resposta, seguia-se um elogio à pergunta/comentário e a aula seguia a partir daquele ponto, como se você tivesse feito a maior descoberta da história moderna do Direito. Até a próxima pergunta. E assim por diante. Essa sensação prazerosa só tinha um problema: era extremamente viciante. Assim, passei a fazer algo que hoje, no mestrado, parece muito natural, mas que para mim começou ali, nas aulas do professor Pablo e na busca de mais um “Ótima pergunta!”: estudar para a aula seguinte.
É com legados como esse, do professor Pablo e de tantos outros mestres que tive, que busco construir o meu próprio caminho, na esperança de deixar nos meus alunos a marca em mim deixada por eles."

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Poesis: o sal da terra

A infinitude do humano se revela na arte, onde o escutado vai além do som, o escrito, além das letras e o visto, além das cores. Onde criador e criatura se desconectam, e o significado torna-se mero ponto de vista. Seguem-se algumas incursões nesse vazio transbordante de sentido:

O Medo é o Grito o Mundo

O medo é o grito do mundo
A vida é um veio que arde
A sombra é o milagre do sol
O destino é um acaso desfeito

O nada é ausência de tudo
O tudo só é possível aos poucos
A parte é um todo em si mesmo
O todo é um eterno juntar

O amor é o esquecimento da morte
O prazer é a certeza da vida
O corpo é um equívoco
A mente é a resposta

O sonho é a lembrança da alma
O suor é a lágrima da carne
A lágrima é uma água que queima
O olho é o mundo do avesso

O vazio nos olha de dentro
A guerra é a doma do homem
O agora é o início de tudo
O Tudo nunca tem fim

Morte

De tudo, medo
De todo mundo
O medo de tudo
Um mundo de medo

Saraiva de balas
De balas desvairadas
Varias maneiras
De cair na mesma vala

Corpos que morrem
Mortes que matam
Famílias inteiras
Vidas em pedaços

Muros florescem
Nas portas das casas
As casas se fecham
As covas esperam


Vida

Vide o verso, leia a bula
Queime o mapa, quebre a bússola
Ré na moto, descontrole!
Fé nos atos, acelere!

E corra e morra.
E viva a lascívia
De um mundo sem dor
Analgésico-purgante

Encontre sentido
Se sinta perdido
Se entregue em segredo
Espalhe chaves dos seus trincos

Desminta o que é verdade
Tire a venda de nós que te cegam
Ame um Deus de brinquedo
Se apaixone por quem ainda sequer nasceu

Futuro

O futuro é um furo no escuro
Um fardo do qual estamos fartos
Um salto que quebre os metacarpos
Um lapso na memória do tempo

O futuro é o ontem revisto
Um velho conhecido amnésico
Um barco a vela sem remos
Sem proa, sem popa, sem barco

O futuro é um gênero
Do qual somos todos espécies
Diversos, dispersos, ao avesso
Um sobresalto, um deja vu em retrocesso

O futuro é uma mostra de arte
Uma amostra da parte que nos falta
Uma alma em busca de um corpo
Uma falsa mensagem do nada

Amor

Não fale o óbvio
Te amo
Negue-se por completo
Amo somente você

Não abra os olhos para ver.
Feche-os para sentir
Fale tudo que ainda não foi dito
No eterno instante de um beijo

Mande flores e até cartões
Mande bombons e outras formas de afago
Mande recados, infinitos dizeres
Mande o vazio da ausência em um papel colorido

E se ainda há tarefas a cumprir
Coloque-as ao lado das outras coisas inadiáveis
Apague as cores do mundo
E venha brilhar só para mim.

Prazer

O chão em brasa, tudo queima
A boca seca, os olhos viram
As mãos procuram, a carne acerta
A mente voa, o corpo pede

E dois são um e nada mais
E o mundo vazio aguarda lá fora
Todos os calendários perdem o sentido
Tudo se dissolve em um só suor

A pele estática, de tato apurado
Recobre os músculos a pleno vapor
Mais fundo, um coração bate frenético
Colapso falso, por pouco ainda contido

Mas já não há forças a recorrer
Somente diques a transbordar
E somos lançados para fora de nós
Para queimarmos juntos no ventre do sol

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Um Reencontro com o Teatro

No último domingo (27/06/10), tive o prazer de assistir mais uma peça de teatro. A peça chamava-se “Os Enamorados” e foi apresentada no Teatro Vila Velha. Alguns elementos fazem esse reencontro com o teatro interessante o suficiente para valer um post. Primeiro, os motivos que me levaram à peça. Podia citar vários como a sugestão de Juli (minha noiva) para um programa diferente ou mesmo a economia do programa, considerando que o ingresso custava R$ 10,00 enquanto o cinema, no final de semana, pode chegar a R$ 16,00!! Porém, devo admitir que, além desses, é claro, um outro elemento foi decisivo para proporcionar esse reencontro, que, aliais, foi muito mais recompensador do que eu poderia imaginar, como poderemos ver ao final. O fato derradeiro que me levou a ir (ou melhor, voltar) ao teatro foi uma entrevista dada no programa de Rádio “Roda Baiana”, um dos meus preferidos na Rádio Metrópole (na verdade, o único fora os jornais. Mesmo o “Sintonia”, que vem na seqüência e às vezes ouço, tende a não me interessar muito, seja pela temática – espiritismo – seja pelo apresentador, José Medrado, que é muito histriônico para o meu gosto). O “Roda Baiana”, apresentado por André Simões, Jonga Cunha e Fernando Guerreiro, é um programa de variedades, um bate-papo bem informal, com comentários dos mais diversos sobre assuntos idem.
Pois bem, ouvindo certa feita o programa, eles estavam entrevistando atores da peça “os Enamorados” que estava em cartaz e que eu já tinha, para falar a verdade, até me interessado em ir, mas sem maiores entusiasmos. Foi quando eles apresentaram os atores. A atriz principal era Luiza Prosérpio. E ai temos que fazer uma pausa dramática! Luiza foi o meu primeiro e único caso grave de “paixonite platônica aguda”. Só para explicar: paixonite é uma inflação da paixão e, portanto, patológica. Não decorre daí nada mais sério, trata-se apenas de uma febre rápida, porém intensa. Platônica, obviamente, reforça a certeza de que aquilo não daria em nada. E aguda, porque durante uma semana não pensei em outra coisa, senão mergulhar nessa obsessão inofensiva. Pois bem. Luiza Prosérpio me atingiu como um caminhão quando eu fui casualmente assistir a uma peça de um ex-colega de urbanismo que, depois de formado, descobriu que queria mesmo era ser ator. Daniel Sobreira foi a primeira pessoa que lembro de ter conhecido ainda na matricula do curso de urbanismo, há mais de uma década, em 1996. Desde então, nutri por ele a maior admiração, seja pela sua inteligência, pelo seu caráter, pela sua simpatia. Uma das melhores pessoas que conheci e que, infelizmente, há muito tempo não vejo. De qualquer modo, o Daniel mandou para seus conhecidos um convite desta peça, cujo nome não me lembro, mas que era a encenação teatral do drama narrado no filme “Closer”, com Julia Roberts, Clive Owen, Jude Law e Natalie Portman, sobre as idas e vindas de quatro pessoas que se namoravam entre si (heterosexualmente falando). Eu já tinha assistido, ou melhor, tentado assistir o filme, que estava muito cotado na época, mas confesso que não me caiu bem. Da metade para lá, a coisa perdeu o ritmo,etc. Assim, não tinha maiores expectativas quanto à peça, mas fui para dar uma força ao amigo Daniel. Na peça, ele fazia o personagem interpretado por Jude Law no filme. E sua primeira parceira em cena era justamente a Luiza Prosérpio, que interpretava a personagem vivida por Natalie Portman na película. Pois bem, do momento em que entrou em cena até os aplausos finais, com destaque para uma cena de strip-tease no meio, não consegui tirar essa atriz da cabeça. Estava completamente hipnotizado. E é claro que não era uma questão física, como se você visse aquela tremenda gata do outro lado do salão. Era algo diretamente relacionado com a atmosfera do teatro, com a força dramática daquela personagem, que era de fato extremamente sedutora na peça. Mesmo assim, devo dizer que, ainda que a personagem tivesse um grande apelo e que a peça tenha, em algumas passagens, assumido uma conotação mais sexual, afinal estávamos falando do relacionamento amoroso entre pessoas adultas, fiquei muito impressionado com a força que a atriz conseguia colocar nas palavras, nos gestos, nos olhares. Resumindo, fiquei embasbacado. Tanto é que, alguns dias depois, sabendo que o colega Lázaro iria assistir a peça também pelo convite do Daniel, fiz questão de me auto-convidar e foi novamente assistir. Além disso, e é esta passagem que caracteriza a paixonite platônica aguda, passei os dias posteriores procurando na internet (esse paraíso dos obsessivos-compulsívos) tudo que podia encontrar sobre essa minha musa instantânea.
Pois bem, como toda paixonite, essa também passou e minha vida seguiu em frente, sem maiores transtornos. Quando, de repente, ao ouvir o “Roda Baiana”, lá está ela, como que saindo das profundezas adormecidas das minhas memórias, Luiza Prosérpio, convidando os ouvintes para irem vê-la, acompanhada da sua trupe, no espetáculo “Os Enamorados.” Bom, era o motivo que faltava para que eu voltasse ao teatro. Encerrando, portanto, o porquê da ida, passo a narrar agora o que foi essa minha experiência e, principalmente, porque a ela me refiro como um reencontro e,acrescento, agradabilíssimo. Chegamos por volta das 19:00 hs (a peça era as 20:00hs) no Passeio Público, próximo ao Campo Grande. Já tinha ido algumas vezes ao Passeio Público, um lugar que considero agradável, ainda que às vezes me dê uma impressão de estar sempre mal cuidado. Porém, não lembro de relacionar fortemente o lugar ao Teatro Vila Velha. Porém, como quase todos sabem (eu não sabia) o Teatro Vila Velha fica no Passeio Público e essa seria a minha chance de conhecer melhor um lugar de que tanto eu tinha ouvido falar. Fazendo um parênteses que tem a ver com essa mística do Teatro Vila Velha como sendo um celeiro de grandes artistas, um caldeirão cultural, etc, uma das passagens da entrevista de Luiza no “Roda” que me chamou a atenção foi uma troca de comentários entre Luiza e Fernando Guerreiro, que dispensa apresentações (uma das maiores figuras do cenário artístico baiano, diretor de teatro e cabeça pensante – pena que esta esteja a serviço apenas da crítica, já que o mesmo foi convidado para presidir a Fundação Gregório de Matos e dar a sua contribuição, mesmo que pequena, para resolver alguns dos problemas que tanto critica, mas, após algum suspense, não aceitou, preferindo continuar como pedra a ser vidraça) onde os mesmos falavam com intimidade de pessoas que trabalhavam no Vila Velha e meio que já se integraram ao folclore do local. O que me chamou atenção nessa fala foi a coisa da “turma”.
A “turma” é um fenômeno psico-sociológico dos mais ricos, que merecia um estudo aprofundado ou até mesmo um post só para ele. A “turma” é aquela comunidade que fala a mesma língua, freqüenta os mesmos lugares e se identificam entre si. Isso pode acontecer tanto com turmas personalistas (a turma de “fulano”, a minha turma, etc) ou turmas temáticas (a turma do baba, a turma da faculdade, etc). Aqui particularmente estamos diante de uma das turmas mais interessantes: a turma do teatro. A turma do teatro é particularmente interessante pela sua própria vivacidade, pela cabeça aberta, pela vontade de viver a vida com intensidade, pela possibilidade de viver em muitos mundos, de viver em tantas vidas. A turma do teatro é uma das que mais gostaria de conhecer. Flertei um pouco com essa cultura das turmas no tempo de faculdade, principalmente durante o tempo em que fiz política estudantil, sendo coordenador do Centro Acadêmico de Urbanismo – CADU. Na política estudantil, você está sempre se relacionando com outros cursos, o que possibilita conhecer gente de todos os tipos, dos mais quadrados (como eu) aos mais artísticos (como o velho Chico De Riará, uma das figuras mais excêntricas dos meus tempos de UNEB, sempre exibindo uma vasta cabeleira e que, há pouco, tive a enorme felicidade de reencontrar na Livraria LDM – meu oasis do meio-dia, na Piedade – agora já como Dr. Francisco, um respeitável investigador da Policia Civil, quem diria!) Nesses anos 90, convivi com algumas das melhores figuras de que me lembro: Silvinha, SilPaty, Marceleza, Franklin, Vlad, pessoas inesquecíveis. Pois bem, nesta época acabei me aproximando, ainda que lateralmente, desse mundo mais artístico (Chico era pintor, Vlad era músico, ao lado do seu irmão gêmeo, Neto, formando o "Alma Gêmea") e curti muito ver como essas pessoas tinham uma relação diferente com o mundo. Lembrei até das minhas desventuras nessa área, afinal, lembro de que escrevi pecinhas de teatro para apresentação de trabalhos escolares, a serem trabalhados durante o ano. Cheguei, inclusive, a freqüentar aulas de teatro dadas na época do ensino médio, ao lado de mais três colegas, sendo que os elogios, modéstia a parte, ficavam restritos a mim e a colega Leila, diante da timidez dos nossos dois colegas, Max e Simone, figuras queridíssimas (acho que até hoje devo uma grana a Max, que me emprestou uns caramingás para comprar um LP – isso mesmo, um LP!! – do US3, um grupo de jazz-rap, que naufragou, como quase tudo que foi moda nos anos 90, de Vanilla Ice a Fernando Collor). Bom, o fato é que lá estava eu, nesse conhecidíssimo lugar da turma do teatro: o Vila Velha. Devo confessar que fiquei um pouco decepcionado com as instalações: uma audiência em forma de escada, com cadeiras soltas e dois corredores laterais suspensos. Tirando isso, ao estar ali, eu realmente tinha a impressão de que muita coisa já tinha rolado naquele lugar, naquele palco. E que muita gente boa já tinha sentado naquela platéia também (por falar nisso, o repórter Ricardo Ishmael, da TV Bahia, estava lá neste dia, ainda que trabalhar na TV Bahia não faça de ninguém gente boa, é claro.)
No palco, a peça foi muito interessante e, principalmente, bastante diferente do que eu esperava. Imaginava um drama contemporâneo sobre a relação de um casal atormentado pelo ciúme (sabia que a peça tratava disso). Na verdade, a peça era uma comédia, bem ao estilo italiano (sabia também que o texto havia sido sugerido e traduzido do italiano pela própria Luiza Prosérpio, que o descobrira durante sua estada na Itália), com ares (e figurinos) renascentistas e vários atores em cena. Ou seja, de um drama intimista e contemporâneo de um casal, a peça foi para uma opera-bufa com oito atores em cena, para lá e para cá, em movimentos que hora pareciam um filme de Bruce Lee ora uma apresentação de Diego Hipolito. Aliás, como esta era a última apresentação, eles deviam estar realmente bem treinados, depois de algumas quedas e contusões. O uso do espaços e do ambiente cênico foi outro ponto forte, com jogo de luzes e reposicionamentos, pelos próprios atores, das peças do cenário minimalista, mistura de half-pipe com tabuleiro de damas. Destaque também, como não poderia deixar de ser, para Luiza no papel de Eugênia, uma ciumenta incurável, que deixa louco o pobre Fulgêncio, a ponto desse, literalmente, se pendurar no lustre de tanta raiva!! Diante de tudo isso, não teve jeito, a paixonite aguda me atacou de novo. Só que desta vez, mas do que Luiza ou a linda Lizete (personagem de outra atriz belíssima que estava em cena), o alvo da minha paixonite aguda é o teatro, a magia do teatro, esta experiência incrível de virar as costas para o mundo e abrir a alma para o palco. De fechar os olhos aqui e, de repente, enxergar-se lá, em outro tempo, em outro espaço, partilhando das intimidades de uma vida que, ao mesmo tempo em que não existe, por outro lado reafirma continuamente a sua existência em repetidas encenações de cada ato, de cada gesto. Essa paixonite aguda por essa profusão de sentimentos, suspensos no tempo e no espaço dentro da aura mística na qual gravita o palco, no que tem de distinto no objeto da primeira, tem de equivalente na sua conseqüência: o desejo por um próximo reencontro. Que outras peças venham!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

"Eu voltei, agora para ficar..."

Nossa! De volta, direto do tunel do tempo!!! Depois de um bom tempo sem postar nada, tive novamente aquele impulso inicial, movido por quatro fatos recentes: 1) assistir a "O Solista", com Robert Downey Junior (fantástico em "Trovão Tropical", um dos meus filmes preferidos) e Jamie Fox (que tem se revelado um ator cada vez maior a cada trabalho). A relação é que, neste filme, Robert Downey Jr faz um jornalista que anda pelas ruas da cidade a procura de boas histórias para a sua coluna jornalística. Quando esbarra em alguma, anota num grande caderno e verifica se dali pode sair uma grande história (como no caso do personagem de Fox, um sem-teto que toca violino e que Downey descobre que foi aluno da famosa escola de música Jilliard, dando início à história do filme). Acabei tendo a sensação que é isso que sinto vontade de fazer no blog: andar pela minha vida esbarrando em alguns coisas para, quem sabe, dizer o que esses esbarrões me provocam.; 2) O que me leva ao segundo fato: tive essa sensação ontem, ao passar de ônibus (tenho carro, mas, ao contrário do que sempre ouvi do meu amigo/irmão Renato Prado, não fui daqueles que abandonou o velho buzu para sempre. Por incrivel que pareça, quando estou livre - sem horários a cumprir - prefiro a liberdade do ônibus do que do carro, porque ambos libertam. Sinto que o carro me liberta do tempo - se preciso chegar a um lugar tal hora, ele me liberta dessa obrigação tornando mais viável que eu chegue; ou se preciso sair a noite, ele também me dá essa liberdade. Em compensação, o ônibus me liberta do espaço: nada de procurar estacionamento, ficar pensando no risco de multa, arranhão, roubo, bater o carro.... Depois de andar de carro pela cidade e ficar suando para estacionar quando dou a sorte de encontrar aquela micro-vaga, a sensação de simplesmente descer do ônibus e sair andando, sem preocupação com mais nada, é indescritível. Nossa, mas que parênteses grande! Já tá com cara de outro post que vai render bastante em minha mão. Vamos voltar ao assunto...) na frente do ex-Clube Português. Vi um estranho monumento branco, de ferro, ainda com as placas de proteção, prestes a ser futuramente inaugurado. E começei a pensar em todos esses obeliscos, monumentos e totens que são derramados sobre a cidade: os dois monumentos do Jardim dos Namorados; a dança de roda do Costa Azul; os capoeiristas do Rio Vermelho; os Brasis do Centro de Convenções. Alguns até com histórias engraçadas, como a da estátua de Confúcio no Parque da Cidade (que lembra "Confusão" para a primeira-dama do Município); outras com histórias que mereciam ser recontadas, como a relocação das gordinhas de Eliana Kertesz do Farol da Barra para Ondina, sendo que havia uma motivação para elas estarem localizadas no Farol. Pois bem. Me deu essa vontade de perguntar para quem quiser ouvir: quem escolhe essas peças? Esses artistas? Esses lugares? A comunidade local é ouvida? Quanto de grana existe envolvida nisso? Tem uma seleção pública para esse uso do espaço público? Quem zela pela estética urbana, pela adequação dessas peças ao seu entorno imediato? Todas essas dúvidas teriam passado pela cabeça de Steve Lopez (o personagem de Downey Jr) e certamente daí poderia nascer uma bela reportagem (é claro que, na ausência de Steve Lopez, compartilhei essa inquietude com a minha jornalista n.º 1: Juli Arize e quem sabe ela não dá prosseguimento nesse meu ponta-pé inicial.) O fato é que não sou jornalista e criei o blog justamente para dar vazão a essa vontade de falar de coisas que às vezes tenho a impressão que só eu vejo (e outras que todo mundo vê, mas que eu quero falar assim mesmo!); 3) Outra coisa neste mesmo sentido do "fazer jornalismo intuitivamente" (e aqui percebo - ainda que não concorde - com a visão do Ministro Gilmar Mendes de que para jornalismo não se deve exigir diploma. O que talvez o ministro não perceba do alto da sua arrogância apolínea (ainda que tenha mais cara de Nosferatu do que de Apolo) é que uma coisa é comentar ou "colunar" (se é que cabe o neologismo), ou seja, dar uma opinião tanto melhor abalizada quanto julguem os leitores. Outra coisa é fazer uma reportagem jornalística, que tem uma série de procedimentos técnicos e éticos que garantem a imparcialidade e a exposição da informação de modo a dar um quadro completo do fato noticiado (é claro que aqui me dirijo apenas aos jornalistas verdadeiramente éticos). Assim, se desconfio da forma como se procedem as escolhas para a colocação de monumentos na cidade, posso opinar com maior ou menor conhecimento de causa, sem precisar fazer uma investigação ou ouvir todos os lados da história (coisa que um bom jornalista sempre faz, com técnica e competência própria da profissão e não-imediata para um leigo). E sequer posso ser acusado de leviano ou coisa que o valha, porque faria um comentário a partir de perguntas de algo que não é de conhecimento notório e a partir de conjecturas que caberia ao leitor considerar plausíveis ou não. Certamente não acusaria ninguém diretamente de estar embolsando (ou encuecando ou ainda emeiando) dinheiro. Para isso temos os jornalistas de carteirinha (e diplominha). Voltando ao "fazer jornalismo intuitivamente", outra coisa que me chamou atenção para a serventia do blog foi uma matéria publicada na Revista Muito do dia 18/04/10 sobre a profissão de prático. Lendo a matéria, tive aquela sensação de "deixei o bonde passar", pois a algum tempo atrás, num bate-papo de fim de expediante, alguém comentou dessa figura: um flanelinha de navio que ganha uma fortuna por mês. Aquela informação tem as duas qualidades essenciais de uma boa matéria: é inusitado e lida com algo que atinge a massa (o grana, não o navio). Lembro que pensei na hora: "Puxa, isso dá uma história daquelas. Manchete: Flanelinha de Navio: o emprego dos sonhos". Deixei para lá. A Muito do último domingo me deu esse tapa na cara e disse: "Acorda! Quando quiser falar de alguma coisa, vê se fala, pô!". Bom, tá aqui o blog para isso (coisa que fiz agora sobre os monumentos. Se aparecer uma matéria em algum jornal, pelo menos vou ter o prazer de dizer: "cantei a bola antes."); 4) Por fim, o último motivo para voltar ao blog foi que acabei de entrar em outra "roubada" tão prazeirosa quanto o Blog: agora estou no Twitter! @dantasfagner! Ou seja, além do blog, vou dar umas twitadas de vez em quando também. Já tinha uma curiosidade sobre o twitter, mas ficava naquela: "Não é nada de mais. É só gente sem ter o que fazer que fica colocando que acabou de sair do exame de próstata e descobriu que está louco por uma segunda opinião." Aliais, o mesmo pensamento que tinha do Blog. E com o twitter aconteceu a mesma mudança, pelo mesmo motivo. Da mesma forma que comecei a ver Blogs de gente como Samuel Celestino, Marcelo Taz, Theotonio do Santos, etc, comecei a ver Twiters de José Serra, Wiliam Bonner, Mario Kerstesz, que acredito, teria coisa melhor a fazer se não tivessem algo a dizer no twitter. Mas a motivação final veio mesmo por causa do Serra. Ainda não tenho uma definição de voto para presidente, mas devo admitir que é impressionante ver a desenvoltura do Serra nessa ferramenta. E ele realmente pegou o espírito da coisa: o twitter, diferente de um blog, que já é diferente de um site, está na menor escala de "sisudice". Ou seja, você até pode colocar alguma notícia política bombástica lá, mas nada impede que você faça uma aproximação direta com o eleitor (como um twet onde ele responde o peso e a altura para uma curiosa. Quer coisa mais trivial?!) ou dê uma opinião imediata sobre alguma notícia. Devo admitir que fiquei impressionado. Assim, me tornei Twiteiro primeiro para seguir o Serra. Mas depois vi que poderia ser uma fonte interessante de informações. Então, é claro que passei a seguir a Dilma também e o Mario Kertesz, no sentido de ter algumas informações em primeira mão, de vezs em quando. Até o Obama eu estou seguindo! Bom, como a maioria dos meus posts, a introdução se transformou no próprio post e nem pude retomar os posts prometidos no post anterior, sobre os psicólogos. Como já são três da manhã e tenho aula às nove, vou dar uma paradinha. Mas espero que ela seja bem mais curta do que a minha última parada. E, para fazer uma última homenagem ao Rei, pela primeira vez só como tendem a ser um dia todos os mortais: "Eu voltei, agora para ficar. Porque aqui, aqui é o meu lugar. Eu voltei para as coisas que eu deixei. Eu voltei..."

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Porque os psicólogos são os "gurus" do momento.

Depois de uma conversa com a amiga Regina Célia, figura cultíssima, que já leu duas vezes todo que eu pretendo um dia ainda ler, tive idéias para três posts diferentes: um sobre a importância atual dos psicólogos, e de como as suas opiniões parecem estar sendo requisitadas ultimamente; uma sobre a dificuldade de alguma obra que defina o nosso tempo, ou algum autor ou escola de pensamento que realmente consiga captar o nosso "zeitgeist", como diriam os alemãos, o espírito da nossa época; e, por fim, um post crítico acerca de três vozes que para mim (com todo respeito aos que gostam) significam a celebritização da filosofia de bula de remédio, seja oferecendo o caminho mais curto para uma visão do inferno (Malu Fontes), seja, pelo contrário, oferecendo um bilhete só de ida para a libertinagem sem eira nem beira (Roberto Albergaria), ou, por fim, sempre nos brindando com o melhor da mais fina filosofia de porta de banheiro de escola secundária, o comandante da nave louca (Pedro Bial). Como imagino que 99,9% da pessoas adoram um barraco, vou deixar para falar mal dos três arautos da filosofia midiática e raquítica por último. Por enquanto, vou dar umas canetadas aqui sobre aquelas duas questões iniciais, começando pelos psicólogos e sua importância contemporânea para além da compreensão do indivíduo. Ou, em outras palavras, porque Freud pode ser mais importânte do que Marx para entender a sociedade em que vivemos.

Tenho notado que algumas das figuras mais ouvidas ultimamente quando se procura entender a nossa sociedade atual não são sociólogos, economistas, políticos ou mesmo filósofos (ainda que alguns aceitem também essa denominação, mesmo tendo formação original diversa). Tratam-se dos psicólogos. Quando penso em psicologos, a primeira coisa que me vem à cabeça é o divã. Não o Divã, filme estrelado por Lilia Cabral (ótimo, por sinal). Nem Odivan, ex-zagueiro do Vasco (cujo nome, reza a lenda, foi inspirado num sucesso de Roberto Carlos - o cantor, não o lateral - chamado, pasmem, "O Divã"). Mas não é verdade? O que tem mais cara de psicólogo do que aquele móvel estranho, mistura de sofá com cama, recentemente filmado com um usuário ilustre (ainda que não muito nobre), o Arruda, recebendo uma grana para comprar uns panetones, que sairam bem indigestos para ele (O panetonegate daria um ótimo post, mas agora já é notícia velha). Bom, voltando ao divã, o que há de mais solitário, de mais íntimo, do que alguém deitado num divã, contando seus segredos mais secretos, seus medos mais intensos, para alguém que, na maioria das vezes, apenas ouve. Soltando, é claro, uns "Hum, Hum...", para justificar a cobrança por hora. Na verdade, essa cobrança se justifica mesmo sem essas onomatopéias monossilábicas. São em sua grande maioria, profissionais extremamente dedicados, que ajudam muito pessoas a superarem problemas que elas imaginam intransponíveis. Mas ainda assim, essa ajuda normamente é individual. Trata-se de um diálogo (muitas vezes do paciente consigo mesmo) travado à exaustão. Exige uma confiança mútua enorme, construída de forma consistente. Talvez beire o exagero (ou apenas manifeste a exatidão da tese freudiana), mas acredito que, sob certos aspectos, podemos comparar a análise ao sexo. Psicólogos(as) e prostitutas(os) podem ter mais em comum do que a letra inicial. Em ambos os casos pagamos alguém para o exercício da penetração: física, no caso do sexo prostituído; psiquica, no caso da análise psicológica. A completa submissão de um poderoso homem de negócios sob as botas salto Luiz XV de uma dominatrix envelopada num latex negro brilhante não poderia ser comparada à reconhecimento, aos prantos, do medo do fracasso corporativo por este mesmo chefão, só que agora sob a angulação do cachimbo de um velho discispulo de Lacan ou Jung? Sem contar que nos dois casos, a depender da intensidade da atividade, ambos os casos deixam os clientes/pacientes exaustos.

Então, como algo tão pessoal, tão íntimo pode servir de ponte para um profissional avaliar a sociedade como um todo? Bom, pelo menos me lembro, lá das minhas aulas com a professora Palácios, no meu primeiro semestre de urbanismo, de um caso onde se provou que o comportamento mais individual pode ter uma relação direta com a sociedade: O Suicídio, de Emile Durkheim. Justamente para justificar ainda mais as bases da nascente sociologia, Durkheim utilizou-se do ato que parece ser o mais individuial possível, tirar a própria vida, para provar como o nosso comportamento individual reflete as agruras da sociedade. Ao que parece, estamos fazendo, no início do século XXI, o caminho inverso proposto no final do século XIX: ao invés de procurar reconhecer no comportamento individual a influência da sociedade, uma nova safra de psico-filósofos procura desvelar as patologias sociais a partir da analogia com os quadros típicos das patologias mentais. Nesta linha de raciocínio, podemos propor a seguinte imagem: a sociedade nada mais é que um cérebro coletivo, cujos neurônios são os cérebros individuais. Porque a pertubação das nossas micro-sinapses não pertubaria as macro-sinapses que construem o mundo aqui fora?

Assim, podemos falar agora em neurose social ou amnesia coletiva. Podemos falar em depressão econômica ou esquizofrenia política (muito comum em épocas eleitorais, na busca de aliados a qualquer preço). Podemos, enfim, transportar, por analogia, as inquietações que abalam nossa alma para descrever o estado crítico da sociedade como um todo. Alguns nomes destacam-se nessa tradução, que aqui chamo de psico-filosófica: os brazucas Maria Rita Kelh e Contardo Caligaris e os gringos Cornelius Castoriadis e Zlavoj Zizek. Não pretendo aqui fazer uma resenha da produção intelectual dos citados, mas é facil encontrar artigos, livros e entrevistas dessas figuras dando opiniões que vão muito além da descrição das fases oral, anal, fálica, latente e genital. Só posso dizer de imediato que admiro a todos. Maria Rita Kehl deu uma das melhores entrevistas já publicadas na Revista Muito, suplemento dominical do A Tarde. Contardo Caligaris tem uma coluna impedível na Folha de São Paulo. Castoriadis é um sábio à moda antiga, que transita com facilidade por várias searas intelecutais, tendo pelo menos uma obra obrigatória: A Instituição Imaginária da Sociedade. Além disso, é a principal referência de Marcelo Lopes de Souza, geógrafo voltado para as questões urbanas e que é uma das minhas principais referências. Por fim, Zizek é um dos críticos sociais mais "hypados" do momento, tendo lançado recentemente mais um livro de críticas ácidas à sociedade atual: Visão em Paralaxe. Uma das principais características de suas obras é o uso de símbolos da dita cultura pop descartável para mapear as brechas compreensivas do mundo (mostra disso é a descrição "papo-cabeça" da cena do consultório do dentista da animação Procurando Nemo). Apesar de ser acusado de excessivamente midiático (tendo sido confrontado por Maria Rita Kehl num momento clássico de um Roda Viva da TV Cultura), acredito que Zizek trouxe um tempero mais que bem vindo para animar a discussão sobre a contemporaneidade.

Assim, ao que tudo indica, a psicologia está na crista da onda em matéria de decodificar esse mundo "desbussolado" (expressão tipicamente psicológica, não acha?) em que vivemos. Parece que finalmente estamos em vias de confirmar o famoso bordão popular: Só Freud Explica...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Participação Popular nas Políticas Públicas de Desenvolvimento Urbano

Às vezes queremos rodar os ponteiros do relógio ao contrário, parar o tempo, nos acomodar, fazer as coisas como sempre fizemos. Afinal, em time que está ganhando... Mas você já parou para pensar que o outro time não deve estar gostando nada dessa história. Assim, mudanças são inevitáveis, principalmente quando estamos em meio à convivência social, onde o placar normalmente favorece a uma pequena minoria, enquanto a maioria fica a maior parte do tempo sem a bola nos pés. E tomando de goleada!

Podemos visualizar o ponteiro da história em sua marcha inexorável (para desespero de alguns) no sentido de uma maior abertura do Estado para a participação popular na elaboração das políticas públicas. Seja pela perda da condição de todo-poderoso provedor, engolido que foi o Estado pela Crise do Financiamento Público na década de 80, ou pelo erguimento da Sociedade Civil frente à inércia, em muitos casos, intencional, do Estado no enfrentamento efetivo das questões ambientais, urbanas e sociais, o fato é que não dá mais para se cogitar fazer planejamento urbano sem participação popular. A necessidade de reconquistar a autoridade perdida, desta vez não pelo caminho da força, mas sim através da construção mútua de legitimidade, abriu as portas do Estado, fazendo com que novos atores ocupassem o palco da governança.

No Brasil, a semente plantada em 1988, germinou em 2001 e floresceu em 2003, ganhando mais força a cada dia. O capítulo de política urbana da Carta Magna representou o abrir de olhos diante de uma realidade que já não dava para ignorar. O Estatuto da Cidade, por sua vez, serviu para escorar definitivamente a porta entreaberta. Já o Conselho das Cidades materializou o que era vontade para alguns e sapo a ser engolido por outros. Na sequência, em 2007, a Bahia entrou em sintonia com o Paradigma Participativo, criando o CONCIDADES/BA.

Não desprezando os avanços alcançados, bem como reconhecendo que não é nem de uma hora para outra que se muda uma cultura política encravada em um sociedade, mais do que em um aparelho de estado, nem existe receita pronta para a gestão democrática (trata-se de aprender fazendo), há de se reconhecer que ainda estamos longe de uma participação efetiva da população em geral na elaboração (destaquemos: ELABORAÇÃO e não LEGITIMAÇÃO) de políticas públicas urbanas na Bahia. Ao reconhecer a importância do CONCIDADES/BA até agora e, mais importante, o potencial que essa instância tem para ser a grande mesa de negociação entre Estado, Mercado e Sociedade Civil no que toca à configuração de um modelo de desenvolvimento urbano socialmente igualitário, economicamente includente e ambientalmente equilibrado, fica patente a sua subutilização, haja vista a pauta que vem se esvaziando nos últimos anos em termos de decisões estruturantes para o ordenamento urbano do estado. Essa subutilização só não é pior que o aviltamento provocado pela redução da consulta ao conselho à mera formalidade, sem qualquer efeito efetivamente deliberativo sobre os rumos da rede urbana estadual. Casos como o da "discussão" do Projeto de Lei de Saneamento, para não falar de outros, são exemplo de como não se deve fazer a gestão democrática do desenvovimento urbano.

O CONCIDADE/BA tem um corpo de conselheiros extremamente diversificado no que toca aos seus campos de atuação, bem como ao conhecimento técnico e mesmo posicionamento ideológico em relação ao Governo do Estado. Essa diversidade, se por um lado, torna difícil a articulação entre os representantes de cada segmento, por outro cria uma pluralidade que certamente submeterá os projetos estruturantes do desenvolvimento urbano estadual a um crivo qualificante, multidimensional e transescalar, ampliando em muito as condições desses projetos alterarem positivamente a realidade. Subutilizar esse imenso potencial ou transformá-lo em mera formalidade, desestimulando conselheiros e provocando reuniões cada vez mais esvaziadas não só é uma caricaturização da gestão democrática do desenvolvimento urbano, como pode significar um processo de definhamento do conselho em si, o que será uma perda irreparável. Será como voltar os ponteiros do relógio da História para trás. E todos os jogadores, ganhando ou perdendo com isso, sairão de campo vaiados pelos torcedores do "Democracia Futebol Clube".

Para quem quiser maiores detalhes sobre a participação popular na gestão pública, no planejamento urbano e na gestão urbana, pode dar uma olhada em um artigo nosso publicado na excelente Revista do Observatório do Milênio n.º 01 , Ano 2, de Belo Horizonte. (http://observatoriodomilenio.pbh.gov.br/)