Liberdade de Pensamento é um dos pilares da democracia,
certo? Pois vou exercer a minha. Garanto que 99,9% das pessoas que lerem isso
vão achar: a) ingenuidade; b) conservadorismo; c) pensamento pequeno-burguês;
d) visão globo-guiada; e) Todas as alternativas anteriores. Elogiar os
movimentos que tem acontecido, pelo que eles tem de bom, é pleonástico. Sempre
achei que Política se faz mais com atos que com votos e é claro que a redução
do aumento dos ônibus em várias capitais tem que ser comemorada como demonstração
inconteste da força das "vozes das ruas". Até aqui, ok. Porém, as
hipérboles que tem sido utilizadas para falar desse momento (inclusive pela
eternamente diabólica Globo) refletem um romantismo acrítico por, pelo menos,
três motivos óbvios: 1) o movimento "Diretas Já" e
"Caras-Pintadas" foram muito mais sigificativos, sejam pelas
circunstâncias - ditadura militar e profunda crise econômica - seja pela
grandeza das pautas - volta da democracia e derrubada de um presidente notoriamente
corrupto. Ele não inaugura nada, mas reafirma uma tradição que se achava talvez
esquecida, mas não morta; 2) 90% dos cartazes e faixas exibidos pelos
manifestantes são dignos de hashtags de twitter: “Abaixo a corrupção”; “Mais
Educação e Saúde”; “Menos desigualdades sociais”. Uma manifestação deve buscar
adesão a uma causa comum: quem é a favor da corrupção ou contra os recursos
para hospitais? Corruptos e corruptores! E eles não vão aderir a essa causa. Isso
não é pauta de negociação, é tema de redação da 8ª série! Ainda existem pautas
objetivas, conquistas reais que podem ser obtidas com pleno apoio popular, como
a rejeição da PEC 37 e a rejeição do Projeto da “Cura Gay”, que podem dar um
sentido claro e lideranças legítimas ao movimento. Ninguém vai acabar com o
analfabetismo ou elevar nosso IDH a padrões escandinavos da noite para o dia
(nem 1 milhão na Paulista ou 20 mil na Joana Angélica); 3) as manifestações não
reunem dois grupos (manifestantes paz e amor e vândalos), mas três: gente com
militância nas veias que sempre esteve, está e estará nas ruas, com plena
consciência política (minha estimativa otimista – 25%), gente com vandalismo
nas veias, que sempre esteve, está e estará procurando oportunidades de
confusão e/ou saques (minha estimativa pessimista – 5%); gente que não tem a
menor ideia do que esta fazendo ali, além de buscar um bom ângulo para a foto
do face ou um video digno de curtidas no youtube (minha estimativa - 70%). A
boa noticia é que alguns desses 70% podem de fato se agregar com os primeiros
25%. A má notícia é que com a consciência desses 25% vem também a
responsabilidade. Considerando que errar uma vez é humano, mas duas é burrice,
achar que convocar uma multidão para sair noite a dentro pelas ruas da cidades
seria simplesmente como convocar um coro para entoar, de mãos dadas, “Vem,
vamos embora...”, é lindo, mas totalmente fora da realidade desigual e
exploradora que os próprios 25% denunciam; mas continuar convocando tais
mobilizações, sem ao menos rever horários – manifestações só durante o dia - ou
procedimentos – proibição de mochilas que podem esconder coquetéis molotov e
outros brinquedinhos – é assumir – irresponsavelmente – a possibilidades dos
mesmos fatos ocorrerem sempre ao final de cada manifestação. Milhões em prejuízo
– que, em sua maioria, sairão do mesmo orçamento que não garante recursos para
a educação e saúde tão reclamados –; centenas de feridos – incluindo policiais
-; e dois mortos, duas vidas que se perderam no meio do caos – caos que nasce
da semente plantada pelos vândalos, sem dúvida; mas no terreno fértil do
esconderijo das multidões propiciado por manifestações que já tinham todas as
provas necessária de que, indubitavelmente, após os movimentos, a violência
eclodiria. Bom, esse é meu desabafo. Relutei em escrever, pois sabia que estava
nadando contra a corrente do endeusamento das vozes da rua, mas após o anúncio
da segunda morte, não consegui segurar. Minha esperança é que nos próximos dias
haja ou pautas objetivas ou revisão das formas de manifestação. Caso essa
revisão não impeça a violência, que se assumam os erros e suspendam-se as
manifestações para uma reflexão mais profunda de novas formas de luta. Para os
que entendem que vale a pena morrer e matar pela “causa”, seja ela qual for, e
que protesto “comportado” não é protesto, é covardia, bom, ai, guerra é guerra,
que venha Lei Marcial e Exército na Rua. Se isso aqui for Egito, é sinal de que
esses estavam certos e vão ganhar no final; se isso aqui for Síria, é sinal de
que a coisa vai piorar a cada dia e todos nós vamos perder. Tomara que isso
aqui seja, definitivamente, Brasil e que consigamos achar uma maneira
legitimamente democrática e popular de construir um país melhor.
sexta-feira, 21 de junho de 2013
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Imersão Cultural 2013 - Discografia Legião Urbana Comentada - Disco 1 - "Legião Urbana" (1985)
Primeiro post aqui no blog resultante do projeto Imersão Cultural 2013. No campo da músíca, a idéia é percorrer uma discografia inteira de algum artista consistente, com uma produção temporal razoável, que permita avaliar a evolução do som (entenda-se letra, música, ambiência, mensagem, etc). Comecei a fazer o Caetano Veloso, mas o projeto ficou maior que eu, não só pela imensa discografia de Caê, mas também porque resolvi de cara fazer uma abordagem mais analítica, inclusive lendo, para isso, o "Verdade Tropical". Como disse, a coisa ganhou uma proporção que excedeu meus limites iniciais. Assim, resolvi fazer uma coisa mais intuitiva, ainda que depois retome com uma abordagem mais analítica (como a que pretendo fazer ao retornar ao projeto Caetano). Assim, pela facilidade de informações quanto a letras, compositores, músicos, processo de gravação dos albúns e, principamente, pela familiaridade e afinidade, acabei optando por fazer o Legião Urbana, até porque é uma obra acabada, diferente de Caetano, que continua produzindo. Outra influência forte para essa decisão foi assistir ao "Somos Tão Jovens", o que tornou o Legião a minha "obsessão do mês", indo atrás de todos os documetários possíveis sobre Legião Urbana, Renato Russo e Rock de Brasília. Ainda não conclui discografia, mas já vou colocando aqui os comentários totalmente audio-emotivos que fiz ouvindo faixa a faixa dos cinco primeiros albuns. Ao final, escolho a "Jóia da Coroa" (Hit preferido); o "Achado" (Música desconhecida - plo menos para mim - favorita); e a nota do disco, pensando basicamente no conjunto da obra:
1º DISCO – LEGIÃO URBANA (1985)
ACHADO – ALGUMAS MÚSICAS “NÃO-HITS” NÃO SÃO TOTALMENTE DESCONHECIDAS, PARA FALAR EM “ACHADO”. DAS TOTALMENTE DESCONHECIDAS, DIRIA “TEOREMA”, PELA GUITARRA E LETRA.
NOTA - COMO NÃO SEI EXATAMENTE O QUE ESPERAR DOS PRÓXIMOS, ALÉM DE UMA MONTANHA DE HITS, VOU DAR UM 8,0, CONSIDERANDO UM EXCELENTE ALBUM DE ESTRÉIA.
1º DISCO – LEGIÃO URBANA (1985)
- 1ª MÚSICA – “SERÁ” – HIT; AS LETRAS JÁ APARECEM COMO PONTO FORTE DA BANDA. VOCAL TAMBÉM IMPRESSIONA.
- 2ª MÚSICA – “A DANÇA” – TOTALMENTE TECNO-POP; BATERIA ELETRÔNICA; VOCAL MUITO LIMPO; BAIXO BEM PRONUCIADO. NÃO POR ACASO, O ARRANJO FOI DO BAIXISTA, O “LOUCO” RENATO ROCHA (LEMBROU “NEW ORDER”. IAN CURTIS E O JOY DIVISION SÃO GRANDES INFLUÊNCIAS DE RENATO. AINDA EXISTIA OU JÁ ERA O NEW ORDER?)
- 3ª MÚSICA – “PETRÓLEO DO FUTURO” – PEGADA BEM PUNK (A PRIMEIRA DO DISCO COM ESSA PEGADA, ESSA BATERIA ORGÂNICA “ACELERADINHA”)
- 4ª MÚSICA – “AINDA É CEDO” – HIT HISTÓRICO. A FAMOSA MÚSICA-RECONCILIAÇÃO PARA ANA, MOSTRADA NO FILME “SOMOS TÃO JOVENS” – LETRA IMPRESSIONANTE – AMOR OBSESSIVO/POSSESSIVO. TAMBÉM É ONDE SE ENCONTRAM OS FAMOSOS “BARULHINHOS” DO GRANDE GUITARRISTA MELÔDICO (COMO JOHNNY MARR, DO “THE SMITHS”) AINDA EM FORMAÇÃO DADO VILA-LOBOS.
- 5ª MÚSICA – “PERDIDOS NO ESPAÇO” – NADA A DIZER.
- 6ª MÚSICA – “GERAÇÃO COCA-COLA” – HIT HISTÓRICO. TOTALMENTE PUNK NA MÚSICA, LETRA E ATITUDE. SIMPLESMENTE MAGNÍFICA E ATEMPORAL.
- 7ª MÚSICA – “O REGGAE” – MOSTRANDO VERSATILIDADE, RENATO CANTA QUASE COMO UM RAGGAMUFFIN. LETRA DE PROTESTO MEIO OBVIA, MAS NEM POR ISSO RUIM. SURPRESA TAMBÉM COM O STEELDRUMS (REAL OU TECLADO?). ME LEMBRA “MARVIN” DOS TITÃS. QUEM PLAGIOU QUEM?
- 8ª MÚSICA – “BAADER-MEINHOF BLUES” – AS VOZES DOBRADAS CHAMAM ATENÇÃO AQUI, MAS APARECEM EM TODO O DISCO PRATICAMENTE, COMO UM ELEMENTO DE REFORÇO DA DRAMATICIDADE DO VOCAL. BOA LETRA, COMO QUASE SEMPRE. VIOLÃO ACUSTICO BEM PRONUNCIADO.
- 9ª MUSICA – “SOLDADOS” – ANDAMENTO LENTÍSSIMO DA BATERIA. PIANINHO DE APRENDIZ. VOCAL COM DRAMATICIDADE NO LIMITE MÁXIMO.
- 10ª MÚSICA - “TEOREMA” – LEVADINHA PUNK ACELERADINHA. O TIMBRE DA GUITARRA BEM “SMITHS” NO REFRÃO.
- 11ª MÚSICA – “POR ENQUANTO” – HIT ABSOLUTO. BATERIA ELETRÔNICA. TECLADOS PERMEANDO TUDO. LETRA ABSOLUTAMENTE PERFEITA. VOZ SUPER-DRAMÁTICA. AO LADO DE “GERAÇÃO COCA-COLA”, SÃO AS ÚNICAS ASSINADAS APENAS POR RENATO RUSSO. DEPOIS QUE A GENTE HOUVE A VERSÃO SUPER-FOLK DE CÁSSIA ELLER, NÃO DÁ PARA NÃO ACHAR OS TECLADOS EXCESSIVOS. MAS DÃO TOTALMENTE O CLIMA DE FIM DE ALBUM QUANDO VÃO SE PERDENDO EM FADE OUT.
ACHADO – ALGUMAS MÚSICAS “NÃO-HITS” NÃO SÃO TOTALMENTE DESCONHECIDAS, PARA FALAR EM “ACHADO”. DAS TOTALMENTE DESCONHECIDAS, DIRIA “TEOREMA”, PELA GUITARRA E LETRA.
NOTA - COMO NÃO SEI EXATAMENTE O QUE ESPERAR DOS PRÓXIMOS, ALÉM DE UMA MONTANHA DE HITS, VOU DAR UM 8,0, CONSIDERANDO UM EXCELENTE ALBUM DE ESTRÉIA.
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Estudos Urbanos - Livros - Resumo - "O Que é a Cidade". Raquel Rolnik
Para voltar a movimentar o blog, vou postar alguns resumos que farei dos livros que li. Separei todos os livros que li e fiz anotações dentre os que tenho. Foram uns 160 livros, divididos em quatro grupos: "Estudos Urbanos" (cerca de 20 livros); "Estudos Econômicos" (cerca de 40); "Estudos Políticos" (cerca de 40); e "Estudos Filosóficos" (cerca de 60). Alguns ainda poderão entrar como "Estudos Literários", com resumo dos livros de literatura que já li - como Veríssimo e Ludlum - ou que estou lendo no "Imersão Cultural 2013" - como Maugham e Gogol. Pretendo publicar aqui os resumos de "Estudos Urbanos" e "Estudos Filosóficos" (e o "Estudos Literários", se rolar) e no meu outro blog, neoestrategiasbrasil, os resumos dos demais. Como sempre, essa é uma ideia muito boa na teoria, mas na prática é que são elas. Mas, como sempre, a questão é ser algo prazeiroso e não obrigatório, como disse lá no já longínquo primeiro post. O primeiro é o simplérrimo "O Que é a Cidade", de Raquel Rolnik (os trechos em itálico são meus comentários, que tentei reduzir ao mínimo):
ROLNIK, Raquel. O Que é Cidade. 3ª Ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.
Principais passagens:
P. 08 – A Cidade é uma obra coletiva.
P. 08 - A Cidade nasce da sedentarização.
P. 08 - A cidade modifica a relação homem-natureza.
P. 08 - A cidade nasce da vida social, assim como a política. A existência urbana é uma existência política.
P. 09 – Cidade antiga – murada/fechada/fixa; cidade atual – aberta/fluída/fluxos.
P. 12 – Nunca se está diante da cidade, mas sim fora ou dentro dela (limites nublados).
P. 12 - O espaço urbano está além do conjunto físico. A sociedade como um todo é urbana.
P. 13 – A Cidade é um Imã (dimensão social do fenômeno urbano).
P. 13 - A demarcação da terra pela plantação é consolidada pela demarcação do céu pelo templo, formando as primeiras.
P. 14 – A cidade dos deuses e dos mortos antecede a cidade dos vivos (religiosidade na fundação das primeiras cidades).
P. 16 – A Cidade como Escrita (dimensão cultural do fenômeno urbano). Tanto a cidade quanto a escrita nascem da necessidade da gestão coletiva.
P. 16 - A Cidades nasce do excedente do campo, que permite a especialização funcional entre campo (agricultores) e cidade (outras funções).
P. 21 – A Cidade como Território (dimensão política do fenômeno urbano).
P. 21 – A origem da cidade está no binômio diferenciação social / centralização do poder.
P. 22 – A “Polis” não significava para os gregos um lugar físico, mas sim uma prática política. Da mesma forma, a “civitas” para os romanos.
P. 23 – O centro sempre teve importância na história das cidades, até o momento atual, marcado por cidades acêntricas ou policêntricas. No entanto, o paradoxo está no aumento da centralização do controle, mesmo na ausência de uma centralidade física, graças às novas tecnologias de comunicação e informação.
P. 24 – A dimensão política da cidade não está apenas na existência de uma ordem imposta pelo grupo hegemônico, mas também nas ameaças a esta ordem imposta, representada pelos protestos dos grupos insurgentes que acontecem nos espaços públicos (hegemonia e insurgência são duas faces inerentes ao fenômeno urbano, o que só reforça a sua dimensão política).
P. 26 – A especialização entre campo e cidade leva a especialização dentro da cidade que, por sua vez, é reforçada com a especialização entre as cidades e suas trocas.
P. 27 – Para que haja comércio entre as cidades, estas devem estar sob uma mesma autoridade, a exemplo do que foi o Império Romano.
P. 28 – Enquanto na Ágora grega era proibida a presença de mercadores, o Fórum romano superponha aas funções de ágora, acrópole e mercado.
P. 28 – Ainda assim, as cidades gregas e romanas tinham na dimensão política a sua marca característica. Hoje essa marca pertence à dimensão econômica.
P. 33 – A retomada da vida urbana nos burgos da Idade Média contribuiu para o fim do período medieval. O crescimento do comércio entre os burgos criava ocupações que atraiam os servos feudais. Esses abandonavam os feudos em busca do trabalho livre nos burgos. Dai o ditado: “O ar da cidade liberta.”
P. 36 – Gênova destacava-se entre essas cidades-mercado, tornando-se, no século XVI, o centro de uma ampla rede de comércio mundial.
P. 37 – A resposta à fragmentação do poder político feudal com a ascensão das cidades-mercados foi a criação das cidades-estados (recriação, se pensarmos nas cidades-estados gregas). As primeiras surgiram na região da Itália (Gênova, Florença, Veneza) e Espanha (Barcelona). São todas monarquias absolutistas.
P. 39 – As principais transformações que ocorriam na passagem da vila medieval para se tornar cidade-capital de um estado eram: 1) mercantilização da terra urbana; 2) divisão da sociedade em classes; 3) instauração de um poder despótico, que interfere na vida dos cidadãos.
P. 42 – As cidades modernas são caracterizadas pela segregação espacial. Essa segregação não era tão característica nos burgos medievais, pois havia significativa autonomia das famílias, sendo a habitação a oficina, a loja e o dormitório.
P. 47 – A segregação espacial amplia-se com a formação do estado moderno, que vai diferenciar bem o lugar de quem exerce o poder das áreas que abrigam quem serve ao poder.
P. 48 – Isso se intensifica ainda mais com a criação do trabalho assalariado, que extingue qualquer vínculo de responsabilidade que existia entre dono e escravo ou entre senhor feudal e servo.
P. 49 – A segregação espacial dos espaços externos da cidade também passa a se expressar nos espaços internos da moradia. A “rua” passa a ser vista como um lugar de descontrole, da heterogeneidade, de risco, enquanto a “casa” passa a ser o espaço de controle, da homogeneidade e da segurança. A “sala de visita” passa a ser a interface entre a “rua” e a “casa”.
P. 55 – A intervenção do Estado na cidade tem como símbolo o “plano urbanístico” e a prática do planejamento urbano, que tende a ver a cidade como um “mecanismo” que pode ser consertado.
P. 56 – No mundo medieval, não havia o planejamento urbano, porque até então a cidade era construída com base no conhecimento tácito dos mestres-construtores. Isso começa a mudar no Século XVII, com o avanço do conhecimento racional.
Obs: Por um lado, o que quiser dos planejadores urbanos etruscos (Vitruvius), gregos (Thales de Mileto) ou mesmo renascentistas (Alberti)?
P. 58 – A racionalidade que passa a influenciar o planejamento urbano é a racionalidade econômica do capitalismo industrial nascente.
P. 58 – A cidade utópica (More, Campanela), mesmo não saindo do papel, serviu para orientar o programa de intervenção de intervenção do Estado na cidade com alguns pressupostos: 1) leitura mecânica da cidade; 2) ordenação matemática; 3) a cidade planejada é a cidade sem males; 4) o Estado pode controlar a cidade.
P. 59 – exemplo prático desse pensamento foram as cidades espanholas no novo mundo, que já vinham desenhadas da Espanha e de Portugal.
P. 60 – O traço marcante desse primeiro planejamento urbano é a rua reta, seguida da visibilidade do Poder, dado pela monumentalidade do palácio ou pelo eixo monumental que levava até ele.
P. 62 – Novamente se estabelece a vinculação entre o Poder Estatal sobre a cidade e o Poder Patriarcal sobre a família. Da mesma forma que se criam os palácios no centro da cidade, se criam as prisões e os hospícios nos arredores dela, para que tanto o Estado quanto as famílias possam descartar os indivíduos indesejáveis e manter a ordem, pública e privada.
P. 62 – Vinculação entre a intervenção do Estado sobre a cidade, valorizando-a ou desvalorizando-a, e o interesse do mercado.
P. 64 – A própria intervenção pública gera espaços de especulação imobiliária (terrenos de engorda).
P. 67 – A intervenção urbana também reafirma a segregação urbana no momento em que estigmatiza os chamados bairros subnormais ou favelas, que devem ser erradicadas “para o bem da cidade.”
P. 73 – A chegada da indústria na cidade teve o impacto de uma revolução que alterou a natureza da aglomeração urbana.
P. 73 – A industrialização da produção preparou a formação de grandes cidades, com populações até então nunca vista nas cidades.
Obs: Isso se aplica a cidades europeias. Existam cidades pré-colombianas com grandes populações, porém eram diferentes das cidades europeias.
P. 73 – A industrialização também contribui para a urbanização do planeta, fazendo com que qualquer parte deste, mesmo fora das cidades, sofre os efeitos do que acontece dentro das cidades.
Obs: O que chamei de mundo urbanocêntrico.
P. 79 – A industrialização também traz para a cidade uma diversidade até então inexistente. Assim, a fragmentação entre as classes sociais que já existia na cidade moderna, intensifica-se ainda mais na cidade industrial, não mais entre diferentes classes, mas dentro das mesmas classes, porém entre as diferentes etnias e culturas que as integram. Agrega-se a isso a exploração do homem pelo capital e tem-se o cenário perfeito para a violência urbana.
P. 84 – As transformações econômicas (o mundo pós-industrial) e a tecnologia (a conexão de todos – uma omniconexão?) permite falar em uma reconfiguração de vida urbana no futuro. Se esse futuro será uma única cidade mundial, de um mundo sem cidades ou de um mundo com cidades diferentes de tudo que elas já foram, só o tempo dirá.
INDICAÇÕES DE LEITURAS:
“A Cidade na História.” – L. Mumford (Bíblia);
“História da Cidade” – L. Benévolo (Consultas Específicas);
“Economia Política da Urbanização” – P. Singer (Tenho e preciso ler);
“Espaço e Sociedade” – M. Santos (Tudo de Milton é fundamental);
“A Espoliação Urbana” – L. Kowarick (Lido, importante, mas foco excessivamente subjetivo. Farei o resumo para colocar aqui);
“Londres e Paris no Século XIX” – Maria Stella Bresciani (A autora tem um toque bem culturalista pelo que já li dela. Acho que valeria a pena ler);
“O Fenômeno Urbano” – G. Velho (Lido, fundamental para entender a sociologia urbana, de Weber à Escola de Chicado. Estará aqui); .
“O Direito à Cidade.” – H. Lefebvre (Fundamental. Falha imperdoável até hoje não ter lido nada de Lefebvre além de textos na faculdade. Preciso corrigir isso);
“O Declínio do Homem Público” – R. Sennett (Fundamental. Li “A Corrosão do Caráter” – cujo resumo estará aqui, só que nos “Estudos Econômicos” - e tenho e preciso ler “Carne e Pedra”. Esse é um dos que preciso ter, mesmo que seja – arghhh!! – novo);
“Guerra Pura” – P. Virilio (Fundamental. Um dos grandes pensadores contemporâneos, porém pouco reconhecido ainda.);
“Na Estrada” – J. Kerouac (Não sei se seria o melhor para entender a vida urbana. Mas não saberia indicar um livro de literatura – além do óbvio “Cidades Invisíveis”, de Calvino – se entender as cidades. Talvez livros de viagem, como “Nos Confins da Terra”, de Robert D. Kaplan, ou “O Caminho para Istambul”, de Jorge Wilheim. De qualquer forma, sou um admirador dos Beatniks – Bukowsky, Ginsberg – e leria qualquer coisa deles);
“Cidades Invisíveis” – I. Calvino (Fundamental. Sempre citado por todos e ainda não lido por mim. Preciso corrigir isso, nem que seja com um - arghh!! – novo).
ROLNIK, Raquel. O Que é Cidade. 3ª Ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.
Principais passagens:
P. 08 – A Cidade é uma obra coletiva.
P. 08 - A Cidade nasce da sedentarização.
P. 08 - A cidade modifica a relação homem-natureza.
P. 08 - A cidade nasce da vida social, assim como a política. A existência urbana é uma existência política.
P. 09 – Cidade antiga – murada/fechada/fixa; cidade atual – aberta/fluída/fluxos.
P. 12 – Nunca se está diante da cidade, mas sim fora ou dentro dela (limites nublados).
P. 12 - O espaço urbano está além do conjunto físico. A sociedade como um todo é urbana.
P. 13 – A Cidade é um Imã (dimensão social do fenômeno urbano).
P. 13 - A demarcação da terra pela plantação é consolidada pela demarcação do céu pelo templo, formando as primeiras.
P. 14 – A cidade dos deuses e dos mortos antecede a cidade dos vivos (religiosidade na fundação das primeiras cidades).
P. 16 – A Cidade como Escrita (dimensão cultural do fenômeno urbano). Tanto a cidade quanto a escrita nascem da necessidade da gestão coletiva.
P. 16 - A Cidades nasce do excedente do campo, que permite a especialização funcional entre campo (agricultores) e cidade (outras funções).
P. 21 – A Cidade como Território (dimensão política do fenômeno urbano).
P. 21 – A origem da cidade está no binômio diferenciação social / centralização do poder.
P. 22 – A “Polis” não significava para os gregos um lugar físico, mas sim uma prática política. Da mesma forma, a “civitas” para os romanos.
P. 23 – O centro sempre teve importância na história das cidades, até o momento atual, marcado por cidades acêntricas ou policêntricas. No entanto, o paradoxo está no aumento da centralização do controle, mesmo na ausência de uma centralidade física, graças às novas tecnologias de comunicação e informação.
P. 24 – A dimensão política da cidade não está apenas na existência de uma ordem imposta pelo grupo hegemônico, mas também nas ameaças a esta ordem imposta, representada pelos protestos dos grupos insurgentes que acontecem nos espaços públicos (hegemonia e insurgência são duas faces inerentes ao fenômeno urbano, o que só reforça a sua dimensão política).
P. 26 – A especialização entre campo e cidade leva a especialização dentro da cidade que, por sua vez, é reforçada com a especialização entre as cidades e suas trocas.
P. 27 – Para que haja comércio entre as cidades, estas devem estar sob uma mesma autoridade, a exemplo do que foi o Império Romano.
P. 28 – Enquanto na Ágora grega era proibida a presença de mercadores, o Fórum romano superponha aas funções de ágora, acrópole e mercado.
P. 28 – Ainda assim, as cidades gregas e romanas tinham na dimensão política a sua marca característica. Hoje essa marca pertence à dimensão econômica.
P. 33 – A retomada da vida urbana nos burgos da Idade Média contribuiu para o fim do período medieval. O crescimento do comércio entre os burgos criava ocupações que atraiam os servos feudais. Esses abandonavam os feudos em busca do trabalho livre nos burgos. Dai o ditado: “O ar da cidade liberta.”
P. 36 – Gênova destacava-se entre essas cidades-mercado, tornando-se, no século XVI, o centro de uma ampla rede de comércio mundial.
P. 37 – A resposta à fragmentação do poder político feudal com a ascensão das cidades-mercados foi a criação das cidades-estados (recriação, se pensarmos nas cidades-estados gregas). As primeiras surgiram na região da Itália (Gênova, Florença, Veneza) e Espanha (Barcelona). São todas monarquias absolutistas.
P. 39 – As principais transformações que ocorriam na passagem da vila medieval para se tornar cidade-capital de um estado eram: 1) mercantilização da terra urbana; 2) divisão da sociedade em classes; 3) instauração de um poder despótico, que interfere na vida dos cidadãos.
P. 42 – As cidades modernas são caracterizadas pela segregação espacial. Essa segregação não era tão característica nos burgos medievais, pois havia significativa autonomia das famílias, sendo a habitação a oficina, a loja e o dormitório.
P. 47 – A segregação espacial amplia-se com a formação do estado moderno, que vai diferenciar bem o lugar de quem exerce o poder das áreas que abrigam quem serve ao poder.
P. 48 – Isso se intensifica ainda mais com a criação do trabalho assalariado, que extingue qualquer vínculo de responsabilidade que existia entre dono e escravo ou entre senhor feudal e servo.
P. 49 – A segregação espacial dos espaços externos da cidade também passa a se expressar nos espaços internos da moradia. A “rua” passa a ser vista como um lugar de descontrole, da heterogeneidade, de risco, enquanto a “casa” passa a ser o espaço de controle, da homogeneidade e da segurança. A “sala de visita” passa a ser a interface entre a “rua” e a “casa”.
P. 55 – A intervenção do Estado na cidade tem como símbolo o “plano urbanístico” e a prática do planejamento urbano, que tende a ver a cidade como um “mecanismo” que pode ser consertado.
P. 56 – No mundo medieval, não havia o planejamento urbano, porque até então a cidade era construída com base no conhecimento tácito dos mestres-construtores. Isso começa a mudar no Século XVII, com o avanço do conhecimento racional.
Obs: Por um lado, o que quiser dos planejadores urbanos etruscos (Vitruvius), gregos (Thales de Mileto) ou mesmo renascentistas (Alberti)?
P. 58 – A racionalidade que passa a influenciar o planejamento urbano é a racionalidade econômica do capitalismo industrial nascente.
P. 58 – A cidade utópica (More, Campanela), mesmo não saindo do papel, serviu para orientar o programa de intervenção de intervenção do Estado na cidade com alguns pressupostos: 1) leitura mecânica da cidade; 2) ordenação matemática; 3) a cidade planejada é a cidade sem males; 4) o Estado pode controlar a cidade.
P. 59 – exemplo prático desse pensamento foram as cidades espanholas no novo mundo, que já vinham desenhadas da Espanha e de Portugal.
P. 60 – O traço marcante desse primeiro planejamento urbano é a rua reta, seguida da visibilidade do Poder, dado pela monumentalidade do palácio ou pelo eixo monumental que levava até ele.
P. 62 – Novamente se estabelece a vinculação entre o Poder Estatal sobre a cidade e o Poder Patriarcal sobre a família. Da mesma forma que se criam os palácios no centro da cidade, se criam as prisões e os hospícios nos arredores dela, para que tanto o Estado quanto as famílias possam descartar os indivíduos indesejáveis e manter a ordem, pública e privada.
P. 62 – Vinculação entre a intervenção do Estado sobre a cidade, valorizando-a ou desvalorizando-a, e o interesse do mercado.
P. 64 – A própria intervenção pública gera espaços de especulação imobiliária (terrenos de engorda).
P. 67 – A intervenção urbana também reafirma a segregação urbana no momento em que estigmatiza os chamados bairros subnormais ou favelas, que devem ser erradicadas “para o bem da cidade.”
P. 73 – A chegada da indústria na cidade teve o impacto de uma revolução que alterou a natureza da aglomeração urbana.
P. 73 – A industrialização da produção preparou a formação de grandes cidades, com populações até então nunca vista nas cidades.
Obs: Isso se aplica a cidades europeias. Existam cidades pré-colombianas com grandes populações, porém eram diferentes das cidades europeias.
P. 73 – A industrialização também contribui para a urbanização do planeta, fazendo com que qualquer parte deste, mesmo fora das cidades, sofre os efeitos do que acontece dentro das cidades.
Obs: O que chamei de mundo urbanocêntrico.
P. 79 – A industrialização também traz para a cidade uma diversidade até então inexistente. Assim, a fragmentação entre as classes sociais que já existia na cidade moderna, intensifica-se ainda mais na cidade industrial, não mais entre diferentes classes, mas dentro das mesmas classes, porém entre as diferentes etnias e culturas que as integram. Agrega-se a isso a exploração do homem pelo capital e tem-se o cenário perfeito para a violência urbana.
P. 84 – As transformações econômicas (o mundo pós-industrial) e a tecnologia (a conexão de todos – uma omniconexão?) permite falar em uma reconfiguração de vida urbana no futuro. Se esse futuro será uma única cidade mundial, de um mundo sem cidades ou de um mundo com cidades diferentes de tudo que elas já foram, só o tempo dirá.
INDICAÇÕES DE LEITURAS:
“A Cidade na História.” – L. Mumford (Bíblia);
“História da Cidade” – L. Benévolo (Consultas Específicas);
“Economia Política da Urbanização” – P. Singer (Tenho e preciso ler);
“Espaço e Sociedade” – M. Santos (Tudo de Milton é fundamental);
“A Espoliação Urbana” – L. Kowarick (Lido, importante, mas foco excessivamente subjetivo. Farei o resumo para colocar aqui);
“Londres e Paris no Século XIX” – Maria Stella Bresciani (A autora tem um toque bem culturalista pelo que já li dela. Acho que valeria a pena ler);
“O Fenômeno Urbano” – G. Velho (Lido, fundamental para entender a sociologia urbana, de Weber à Escola de Chicado. Estará aqui); .
“O Direito à Cidade.” – H. Lefebvre (Fundamental. Falha imperdoável até hoje não ter lido nada de Lefebvre além de textos na faculdade. Preciso corrigir isso);
“O Declínio do Homem Público” – R. Sennett (Fundamental. Li “A Corrosão do Caráter” – cujo resumo estará aqui, só que nos “Estudos Econômicos” - e tenho e preciso ler “Carne e Pedra”. Esse é um dos que preciso ter, mesmo que seja – arghhh!! – novo);
“Guerra Pura” – P. Virilio (Fundamental. Um dos grandes pensadores contemporâneos, porém pouco reconhecido ainda.);
“Na Estrada” – J. Kerouac (Não sei se seria o melhor para entender a vida urbana. Mas não saberia indicar um livro de literatura – além do óbvio “Cidades Invisíveis”, de Calvino – se entender as cidades. Talvez livros de viagem, como “Nos Confins da Terra”, de Robert D. Kaplan, ou “O Caminho para Istambul”, de Jorge Wilheim. De qualquer forma, sou um admirador dos Beatniks – Bukowsky, Ginsberg – e leria qualquer coisa deles);
“Cidades Invisíveis” – I. Calvino (Fundamental. Sempre citado por todos e ainda não lido por mim. Preciso corrigir isso, nem que seja com um - arghh!! – novo).
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
A Arte é o Abismo
Novamente com uma mãozinha do meu grande parceiro de reflexões, Ruy Leal, acabei desenvolvendo, em resposta a um e-mail dele sugerindo a leitura de um artigo de Ferreira Gullar expressando suas dúvidas quanto ao status de arte de alguns exemplares da chamada "arte contemporãnea", algumas reflexões sobre uma das questões mais basilares da existência humana e com a qual tenho sempre me confrontado, ainda mais agora com meu projeto pessoal "Imersão Cultural 2013". Segue minha resposta a ele:
"Ruyzito, Bela reflexão de Gullar. Porém, acredito eu, um pouco autocêntrica e anacrônica. Por quê? Autocêntrica no sentido de que nega verdades relativas em face a uma verdade dita absoluta, da qual ele julga ser portador autorizado a falar em seu nome. Anacrônica porque, já há algum tempo, afirmações como "É ciência porque eu digo que é ciência" não podem causar também surpresa, haja vista a discussão em torno das abordagens científicas em torno de fenômenos espirituais ou, para não ser tão high-edge, discussões sobre o status de ciência da mecânica quântica. Toda essa discussão opõe basicamente dois tipos de pensamento extremos que, apesar de se diluirem ao longo do espectro, tem, no frigir dos ovos, que se filiar a um dos dois "times": relativistas e absolutistas. Entre os primeiros (time ao qual me filio), não existem verdades ou mentiras "a priori". Tudo existe em um contexto discursivo e, portanto, interpessoal. Assim, não é o fato de alguém dizer que algo é arte que torna aquilo arte para mim (enquanto receptor). Mas nada me autoriza a dizer que aquilo não é arte para ele (enquanto emissor). E, o mais importante, se aquilo será arte pra nós (enquanto interlocutores). O que vai definir o status das coisas é a sua extração, a posteriori, de um contexto dialogado.
Por exemplo: uma figa. Qual o seu status? um símbolo de sorte (para o crente)? Um símbolo sexual (para um turco)? ou uma demonstração de flexibilidade nos dedos (para o ateu)? A resposta será sim e não a depender do contexto dialogado, pois o turco pode ser crente (símbolo de sorte ou sexual?) ou o ateu pode ser turco (flxibilidade nos dedos ou símbolo sexual?) E assim por diante. Não precisa de muita explicação para dizer que, para os absolutistas, as coisas são o que são e somente podem ser isto. A mesma figa pode ser usada como exemplo. Tendo em vista que não há qualquer razão prática para trançarmos os dedos como numa figa, o absolutista estará satisfeito em dizer "a figa é um símbolo", pois, mesmo o ateu, ainda que considerando a hipótese difícil deste não estar imerso em uma cultura que atribua à figa algum significado especial, que já o faria reconhecer este significado, mesmo não dando maior importância a ela, observará a figa como algo anti-funcional e, portanto, atribuirá a ela um caráter simbólico, pelo simples fato de opor racionalidade (função prática) e simbolismo (função discursiva).
Agora, partindo dessa premissa que opõe relativistas e absolutistas, é claro que o discurso do Gullar é absolutista no sentido de estabelecer uma série de apriorismos para estalececer o status de obra de arte. Afirmar que a arte se caracteriza por uma linguagem única? O que dizer, por exemplo, de um show do Blue Man Group, onde se mescla o tempo todo música e imagem? Outro exemplo: Gullar colocou na periferia da arte a tal "arte perecível", porém o fez enquanto linguagem (o fato de ser perecível) ou enquanto conteúdo (deixar um animal morrer de fome e sede, como ele enfatiza no texto)? Se acaso tomássemos como exemplo as obras literárias publicadas pela Editora Eterna Cadência que tem como característica imprimir livros com uma tinta que desaparece com o tempo (numa coleção chamada apropriadamente de "Livros Que Nao Podem Esperar"). Estamos diante de uma obra perecível, porém cujo conteúdo é literatura, uma forma consagrada de arte (presente tanto na classificação sêxtupla de Hegel quanto no consagrado hepteto de Canudo). E então, Gullar? Como relativista, não possa admitir apriorismo, ainda mais em um contexto tão claramente interpessoal quanto a arte. Lembro-me de um debate sobre estetica como o grande João Carlos Salles, de São Lázaro, alguém que à época nem conhecia tanto e por quem hoje nutro imensa admiração não só pela sua reflexão filosófica de primeiro quilate (é um dos maiores especialistas em Wittgestein do país), mas pelos momentos que veem me proporcionando ao comandar os Encontros de São Lázaro. Ao defender a existência de parâmetros que permitir declarar uma obra de arte como bela ou não, não pude conter a indignação e o questionei: "Como pode algo cuja reverberação é tão íntima receber qualquer tipo de padronização? Aos apreciadores dos "Girassóis" de Van Gogh será dada a obrigação de flexionarem os joelhos diante da "Guernica" de Picasso?" A sua resposta, que para mim hoje parece óbvia, é que não se está ali falando em "beleza" como subjetividade, mas "beleza" como perfeição, como atendimento feito com o maior apuro tecnico aos cânomes de um determinado estilo artístico. Fica fácil perceber, diante da triade platônica da "busca do Bom, do Belo e do Justo", que antes Salles falava da "boa" obra de arte e não da "bela" obr de arte, à qual eu me referia em minha pergunta.
Fato é que obra de arte é tudo aquilo que, em um contexto interpessoal "desperta" algo em nós mesmo (e, mesmo que esse despertar íntimo se dê apenas na relação do observador com a obra de arte, não se pode esquecer que esta é sempre um medium no diáologo imagético entre o emissor e o receptor, o que os torna interlocutores, mesmo que deslocados no tempo e no espaço). Assim, obra de arte é toda aquela que, quando você olha para ela, ela olha pra você. E essa nem pode ser considerada uma explicação muito original, porque esta baseada numa frase do "Além do Bem e do Mal", de Nietzsche: " E se você contempla o abismo por muito tempo, o abismo também te contempla." Assim é com a obra de arte. Antes de olhar o abismo, ele simplesmente não existia (não há a priori). Após olha-lo, nada mais existe além dele. O abismo se torna você. Você se torna o abismo. É assim com a obra de arte.
Forte abraço.
Fagner
"Ruyzito, Bela reflexão de Gullar. Porém, acredito eu, um pouco autocêntrica e anacrônica. Por quê? Autocêntrica no sentido de que nega verdades relativas em face a uma verdade dita absoluta, da qual ele julga ser portador autorizado a falar em seu nome. Anacrônica porque, já há algum tempo, afirmações como "É ciência porque eu digo que é ciência" não podem causar também surpresa, haja vista a discussão em torno das abordagens científicas em torno de fenômenos espirituais ou, para não ser tão high-edge, discussões sobre o status de ciência da mecânica quântica. Toda essa discussão opõe basicamente dois tipos de pensamento extremos que, apesar de se diluirem ao longo do espectro, tem, no frigir dos ovos, que se filiar a um dos dois "times": relativistas e absolutistas. Entre os primeiros (time ao qual me filio), não existem verdades ou mentiras "a priori". Tudo existe em um contexto discursivo e, portanto, interpessoal. Assim, não é o fato de alguém dizer que algo é arte que torna aquilo arte para mim (enquanto receptor). Mas nada me autoriza a dizer que aquilo não é arte para ele (enquanto emissor). E, o mais importante, se aquilo será arte pra nós (enquanto interlocutores). O que vai definir o status das coisas é a sua extração, a posteriori, de um contexto dialogado.
Por exemplo: uma figa. Qual o seu status? um símbolo de sorte (para o crente)? Um símbolo sexual (para um turco)? ou uma demonstração de flexibilidade nos dedos (para o ateu)? A resposta será sim e não a depender do contexto dialogado, pois o turco pode ser crente (símbolo de sorte ou sexual?) ou o ateu pode ser turco (flxibilidade nos dedos ou símbolo sexual?) E assim por diante. Não precisa de muita explicação para dizer que, para os absolutistas, as coisas são o que são e somente podem ser isto. A mesma figa pode ser usada como exemplo. Tendo em vista que não há qualquer razão prática para trançarmos os dedos como numa figa, o absolutista estará satisfeito em dizer "a figa é um símbolo", pois, mesmo o ateu, ainda que considerando a hipótese difícil deste não estar imerso em uma cultura que atribua à figa algum significado especial, que já o faria reconhecer este significado, mesmo não dando maior importância a ela, observará a figa como algo anti-funcional e, portanto, atribuirá a ela um caráter simbólico, pelo simples fato de opor racionalidade (função prática) e simbolismo (função discursiva).
Agora, partindo dessa premissa que opõe relativistas e absolutistas, é claro que o discurso do Gullar é absolutista no sentido de estabelecer uma série de apriorismos para estalececer o status de obra de arte. Afirmar que a arte se caracteriza por uma linguagem única? O que dizer, por exemplo, de um show do Blue Man Group, onde se mescla o tempo todo música e imagem? Outro exemplo: Gullar colocou na periferia da arte a tal "arte perecível", porém o fez enquanto linguagem (o fato de ser perecível) ou enquanto conteúdo (deixar um animal morrer de fome e sede, como ele enfatiza no texto)? Se acaso tomássemos como exemplo as obras literárias publicadas pela Editora Eterna Cadência que tem como característica imprimir livros com uma tinta que desaparece com o tempo (numa coleção chamada apropriadamente de "Livros Que Nao Podem Esperar"). Estamos diante de uma obra perecível, porém cujo conteúdo é literatura, uma forma consagrada de arte (presente tanto na classificação sêxtupla de Hegel quanto no consagrado hepteto de Canudo). E então, Gullar? Como relativista, não possa admitir apriorismo, ainda mais em um contexto tão claramente interpessoal quanto a arte. Lembro-me de um debate sobre estetica como o grande João Carlos Salles, de São Lázaro, alguém que à época nem conhecia tanto e por quem hoje nutro imensa admiração não só pela sua reflexão filosófica de primeiro quilate (é um dos maiores especialistas em Wittgestein do país), mas pelos momentos que veem me proporcionando ao comandar os Encontros de São Lázaro. Ao defender a existência de parâmetros que permitir declarar uma obra de arte como bela ou não, não pude conter a indignação e o questionei: "Como pode algo cuja reverberação é tão íntima receber qualquer tipo de padronização? Aos apreciadores dos "Girassóis" de Van Gogh será dada a obrigação de flexionarem os joelhos diante da "Guernica" de Picasso?" A sua resposta, que para mim hoje parece óbvia, é que não se está ali falando em "beleza" como subjetividade, mas "beleza" como perfeição, como atendimento feito com o maior apuro tecnico aos cânomes de um determinado estilo artístico. Fica fácil perceber, diante da triade platônica da "busca do Bom, do Belo e do Justo", que antes Salles falava da "boa" obra de arte e não da "bela" obr de arte, à qual eu me referia em minha pergunta.
Fato é que obra de arte é tudo aquilo que, em um contexto interpessoal "desperta" algo em nós mesmo (e, mesmo que esse despertar íntimo se dê apenas na relação do observador com a obra de arte, não se pode esquecer que esta é sempre um medium no diáologo imagético entre o emissor e o receptor, o que os torna interlocutores, mesmo que deslocados no tempo e no espaço). Assim, obra de arte é toda aquela que, quando você olha para ela, ela olha pra você. E essa nem pode ser considerada uma explicação muito original, porque esta baseada numa frase do "Além do Bem e do Mal", de Nietzsche: " E se você contempla o abismo por muito tempo, o abismo também te contempla." Assim é com a obra de arte. Antes de olhar o abismo, ele simplesmente não existia (não há a priori). Após olha-lo, nada mais existe além dele. O abismo se torna você. Você se torna o abismo. É assim com a obra de arte.
Forte abraço.
Fagner
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
"Semeando Gratidão" - Uma Homenagem a Eduardo Neira
Revirando antigos backups (curiosidade: o concurso da SEI resolveu aportuguesar toscamente alguns termos em inglês da área da informática: backup virou "becape" e slide virou "eslaide"), encontrei um texto que achava perdido. Uma homenagem para Eduardo Neira, grande planejador e com quem convivi durante meus anos de Fundação Ondazul. Por ocasião da sua morte, escrevi o texto que disponibilizo aqui:
"Semeando Gratidão
Por Fagner Dantas
Partiu um grande homem. Daqueles a quem haveremos sempre de fazer referência quando da escolha de dois caminhos. Mártires temos em excesso; guias, tão poucos. Incomensurável na sua força que mal cabia no pequeno corpo, agigantava-se diante das encruzilhadas, dos acúmulos de medíocres indecisões, para, com a jovialidade peralta que lhe ardia nos olhos, erguer-se sobre os nossos ombros e enxergar soluções cuja simplicidade nos fascinava. Educou gerações, abriu caminhos com a força das palavras, conquistou a admiração daqueles que o tiveram presente. E um presente era o que o doutor, o professor e o amigo Eduardo Neira Alva era para todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Não vou enumerar os feitos deste que fez tanto, nem elencar os títulos, merecidos cada um. Trago apenas quatro recordações muito pessoais e por isso tão ricas para mim. Lembranças do inesquecível convite de trabalhar com ele, lembranças do orgulho de estar ao seu lado, lembranças de comungar de um de seus sonhos, lembranças de um de seus erros por mim tão apreciado. Trago aqui não mais que fragmentos, flashes momentâneos de uma vida tão intensa em grandeza que ninguém há de contar em sua plenitude; somente a ele coube vivê-la nesta condição.
O Convite
No ano de 1999, encontrava-me plenamente decidido a me dedicar exclusivamente à elaboração da minha monografia. Após um estágio de 01 ano na Secretaria Municipal de Planejamento, Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente, concluído em junho daquele ano, já me enredava em pesquisas bibliográficas quando toca o telefone. Do outro lado da linha, a querida amiga Mariana Mendonça, colega de bancos universitários, se mostra disposta a me fazer uma proposta de trabalho. Com a gentileza característica da nossa amizade, argumento por declinar do convite, escoimado na minha, até então inabalável, fidelidade ao projeto monográfico. Por sua vez, com a persistência das verdadeiras amizades, ela me intriga ao dizer que a proposta era irrecusável. Neste momento, já capturado pela curiosidade, abro a guarda. E ela então desfere os três golpes que me levam a nocaute: Eduardo Neira Alva. Trabalhar com o palestrante que provoca um silêncio reverencial por onde passa, ou seja, penetrar o venerável; Aprender com o mestre dos meus mestres, ou seja, beber na fonte; e Conviver com timoneiro de políticas governamentais, orientador de homens públicos e transformador da realidade, ou seja, fazer ao lado de quem já fez tanto. Ela tinha razão. A proposta era irrecusável.
Lado a lado com o mestre
Trabalhando no Projeto de Consorciamento Intermunicipal da Costa dos Coqueiros, mais conhecido como Projeto Vetor Norte, capitaneado pela Fundação Ondazul - Bahia (FOA/BA), tive a oportunidade única de, a cada terça-feira, ser agraciado com uma avalanche de conhecimentos que certamente me economizaram alguns anos de faculdade. Na mesa redonda do segundo andar do n.º 07, na Ladeira da Misericórdia, Sé, sentavam-se pessoas inesquecíveis, cujas palavras eu sorviam, insaciável, e cujas personalidades eu descobria, apaixonado. Ordinariamente sentados de costas para as três janelas da biblioteca da Fundação que emolduram uma bela vista do mar, subseqüente aos telhados dos prédios antigos do Comércio, Ronaldo Lyrio (geólogo) e Gey Espinheira (sociólogo); de frente para as tais janelas, Armando Almeida (administrador da FOA/BA) e Maria Gravina Ogata (advogada); numa das cabeceiras, Mariana Mendonça (estagiária) e Juca Ferreira (Presidente da FOA/BA); na cabeceira oposta, Eduardo Neira (arquiteto-urbanista) e eu (estagiário). Nesta composição tão eclética, cada peça parecia ter o seu lugar no tabuleiro: Ronaldo Lyrio, cujo conhecimento técnico só não é maior que o seu infatigável bom humor, sempre a rabiscar nos seus infinitos caderninhos (aos quais ele tentou, frustradamente, substituir por um reluzente palm-top), dava ao grupo o respaldo necessário para poder idealizar sem tirar os pés do chão. Gey Espinheira, um folclórico erundito, capaz de traduzir em poderosas idéias-signos horas de interminável discussão e de quem sempre podíamos esperar uma palavra de concordância (alegremente recebida pela certeza do caminho certo) ou de crítica demolidora, o que muitas vezes salvava o grupo de se perceber à deriva dali a alguns instantes. Armando Almeida, de uma cordialidade quase elizabetana, era dotado de um senso prático tão afiado que era capaz de cortar ao meio os nós górdios que enredávamos ao longo do desenvolvimento do projeto. Maria Gravina Ogata, em quem a simpatia e a amabilidade pessoais contrastavam com posições firmes e sempre muito bem fundamentadas, capazes de apontar detalhes que, caso permanecessem latentes, poderia comprometer semanas de planejamento. Juca Ferreira, de rico conhecimento acadêmico, e mais rica ainda experiência de vida, era brilhante em cada uma das suas intervenções, sempre inspirador, manifestando como poucos uma aptidão para fomentar o diálogo e exercer a liderança, sempre enxergando o futuro por sobre nossas discussões cotidianas. Mariana Mendonça, com a criatividade e a disposição que lhe são características, sempre estava disposta a, da sua falta de experiência, extrair uma visão nova e sem vícios dos diferentes problemas que se apresentavam. Eu, por minha vez, procurava me habituar àquela convivência quase mágica, tentando ao máximo estabelecer alguma compensação, ainda que ínfima, ao grupo que me proporcionava tanto aprendizado. E por fim, Eduardo Neira, o criador do conceito e o idealizador do projeto, dono da palavra final sobre cada decisão, era o “homem com um plano”, detentor de uma visão multiescalonada, capaz de corrigir detalhes sem perder de vista o todo, e, acima de tudo, de um respeito por parte de todos nós, que o reconhecíamos pela sua vasta experiência e inquestionável conhecimento. Com cada peça em seu lugar, ou seja, Ronaldo e Gravina provendo o substrato técnico, Neira e Gey discutindo as questões de fundo, Juca e Armando pondo ordem na casa e Mariana e eu jogando “nas onze”, a máquina, por diversas vezes, parecia funcionar como um relógio, ainda que alternasse entre o suíço e o paraguaio. A convivência com Neira no ambiente de trabalho era realmente inspiradora. Na maioria das vezes numa linguagem calma e cheia de paciência, outras com o fervor hereditário do sangue de um pré-colombiano Montezuma, o velho corpo vibrando com uma energia desconhecida, Neira expunha suas idéias, seus ensinamentos. Era emocionante ver alguém que já não tem mais nada a provar para ninguém, a não ser a si mesmo, entrar em discussões homéricas, amealhar argumentos das mais diversas tonalidades para enfim fazer ver o mundo tal qual ela desenhava em sua prancheta; acrecente-se, na maior de todas: a sua mente. Entre estas várias discussões, uma em especial me tocou. O tema era educação ambiental. A questão era saber qual o melhor procedimento para que pudéssemos incorporar ao nosso planejamento as visões de vários especialistas que seriam especialmente convidados para discutir o tema. Duas eram as maneiras discutidas. Ou definíamos a nossa própria visão interna de educação ambiental, apresentado-a em seguida para os nossos convidados a fim de que eles pudessem criticá-la, burilando-a à perfeição. Ou levávamos apenas o tema e, por meio da discussão, construíamos todo um corpo conceitual, sem pré-definições de qualquer gênero. Uns acreditavam que a pré-visão interna facilitaria a argumentação no momento das discussões abertas, proporcionando contribuições já amadurecidas e um aproveitamento melhor daquele grupo de excelência que certamente não haveria de se reunir novamente. Outros pensavam que a preparação de uma visão interna poderia, ao invés de otimizar, desperdiçar tempo, pois teríamos uma desgastante série de reuniões até termos nossa visão formada, para, em seguida, termos duas conclusões, ambas negativas: ou o grupo ampliado concordaria com as linhas gerais, amarrado que estava aos limites do conceito apresentado, reprimindo um momento de grande criatividade e tornando dispensável aquele esforço todo; ou o grupo ampliado utilizaria metade do seu tempo para, com suas críticas, desconstruir a visão inicial e, na outra metade, erigir um novo modelo, menos perfeito do que aquela que poderíamos ter ao final de uma discussão do zero desde o início. Foi quando Armando Almeida, ao explicar a um dos integrantes do grupo que não havia estado presente na reunião anterior que deu início à discussão, disse a frase que ficou gravada em minha mente: “Acontece que eu e Juca defendemos o início da discussão sem prévias definições quanto Fagner e Neira defendem que deveríamos construir primeiro uma visão interna para então podermos levá-la para a discussão”. Não tenho certeza se estas foram as palavras exatas ditas por Armando, mas o essencial está ai. Tive, no momento em que as ouvi, a plena sensação do que elas significavam para mim, talvez por ingenuidade, talvez pelo projeto pessoal de um dia estar ao lado destes monstros sagrados. E ali estava eu, cerrando fileiras com nada menos que Eduardo Neira Alva. Devo admitir que aquela sensação perdurou por vários dias, e, principalmente, teve um grande efeito prático para mim e para o projeto, pois dali em diante tornei-me mais seguro, mais disposto a apresentar e defender idéias. No fundo, acredito que esta sensação ainda esteja comigo até hoje. Ainda posso vê-lo ao meu lado, sorriso cúmplice e tapinha nas costas. Acredito que esta seja a herança das boas companhias e espero carregá-la por muito tempo.
Compartilhando sonhos, um dia inesquecível
Um dia fui comunicado de que Neira estava com um projeto novo na cabeça. Porém, não fui comunicado por ele, mas por colegas que trabalhavam com ele em outro projeto na Caires de Brito Consultoria Ambiental. A Caíres, como era mais conhecida, era comandada por Ronan Caíres de Brito, homem de conhecimento robusto e tenacidade inquebrantável, com quem tive o prazer de trabalhar na elaboração do Plano Diretor Urbano de Ruy Barbosa. Abro aqui um pequeno parênteses. Nesta oportunidade pude compartilhar das discussões travadas na sacada do prédio da Caíres, que dava para a Ladeira da Barra (local certamente mais produtivo que o lado oposto, de deslumbrante vista para o mar, como lembrou o amigo e advogado Luís Portela que, levado por mim a Caíres para participar do projeto, declinou do convite e me deu a chance, que agarrei com unhas e dentes, de produzir meu primeiro produto técnico individual: o cenário normativo-institucional de Ruy Barbosa), e era freqüentado por micos que passeavam constantemente nas árvores que emolduravam a sacada. Ali, com Ronan e os demais companheiros de equipe, aprendia muito com as discussões travadas, destacando-se nestas discussões outras três figuras já notórias e significativas para mim: Marúsia Rebouças, socióloga, sempre com uma interferência sóbria e cheia de autoridade, tinha uma amistosidade que tornava as reuniões mais leves; Juca Gonçalves, arquiteto, era o tipo de pessoa que de tanto ouvirmos falar, achamos que é exagero, o que, naquelas tardes, ela provava que não era ao apresentar, sempre com uma visão pragmática, muitas sugestões rapidamente absorvidas pelo grupo; e Roberto Cortizo, arquiteto, de vasta experiência e bom humor incomparável, sempre disposto a mostrar, através de metáforas jocosas, falhas de argumentação ou novas soluções para os problemas que surgiam ao longo do projeto. Na Caíres, em momento anterior a este, trabalhavam, além de Ronan e Neira, três grandes amigos: João Pedro (companheiro leal e sempre irradiando alegria por onde passava), Ana Paula (um cérebro brilhante e um sorriso inesquecível) e Francis (de fulgurante presença, seja na mesa de reunião ou na roda de amigos). Foi através deles que fiquei sabendo que o Dr. Eduardo Neira pretendia reunir um grupo de jovens para discutir questões urbanas de modo a produzir um conhecimento novo, concretizado na forma de textos e quem sabe um livro, pautado na experiência de Neira e na jovialidade, experimentalismo e criatividade destes jovens já envolvidos no fazer diário da planejamento urbano. A notícia atingiu-me com um misto de alegria e frustração. Alegria por estar surgindo uma oportunidade tão fantástica, de poder não só discutir, sem nenhum interesse que não a ampliação do conhecimento, as questões que tanto me fascinavam com colegas que eu tanto admirava e ainda por cima com a supervisão de um mestre inigualável como Eduardo Neira e, mais importante, por iniciativa dele e não por insistência de um bando de fedelhos curiosos como nós, ou melhor, ele queria este grupo justamente por ser um bando de fedelhos curiosos e promissores. Por outro lado, a frustração de não saber se eu estava ou não neste grupo, afinal, sabia-se da idéia, mas não quem seria escolhido para participar do grupo e freqüentar as cobiçadas reuniões. Os dias de angústia se acumulavam, até que finalmente veio a notícia tão esperada. Foi convocado a ir a casa de Neira para lá passar o dia com ele e outros colegas a fim de discutirmos a possível formação do grupo de discussão. Aquilo era realmente um sonho tornando-se real. Na chegada a casa de Neira, acompanhado pelos já citados João Pedro, Ana Paula e Francis, além da inseparável Mariana e de Thiago, outro membro da Caíres, fomos recebido pelo mestre. Não posso descrever com exatidão as sensações dos meus colegas, mas eu estava maravilhado. Lá estava, num lugar deslumbrante, na companhia de diletos colegas, sob os auspícios de um ilustre intelectual a quem eu tanto aprendera a admirar, num dia totalmente ensolarado e dedicado às discussões urbanas. Era como estar na Academia, de Platão, ou no Liceu, de Aristóteles. Embebidos pela presença de Neira, passamos a manhã à beira da piscina. Discutimos o que o mestre tinha em mente. Neira dizia que achava interessante agregar um pouco das nossas impressões novas sobre as velhas questões que ele conhecia tão bem. Por outro lado, ela declarou-se interessado na formação do urbanista que estava nascendo no Brasil, na UNEB. Neira já havia dado palestras na nossa universidade, e nutria relações profissionais e pessoais tanto com seus alunos, como aqui já ilustramos, quanto com seu corpo docente, a exemplo da professora Débora Nunes, notável e nacionalmente reconhecida pesquisadora das questões ligadas à habitação e à participação popular. Interessava particularmente a Neira a interdisciplinariedade do curso e a diferença que isto poderia trazer nos momentos de avaliação da problemática urbanística. A partir destas discussões iniciais, se desenhava na mente do mestre o formato daquela equipe e daquelas reuniões. Uma das atividades pretendidas por Neira dizia respeito a outra novidade instigante para ele: a informática. Ele estava fascinado com as possibilidades de software de simulação como Civilization e SimCity. Era sua intenção que iniciássemos uma série de simulações com tais jogos, testando teorias e colhendo resultados, imprimindo um arcabouço científico ao que era visto até por alguns de nós como mero divertimento. Era esse o meu caso, que havia passado todo um semestre jogando SimCity no bojo de uma disciplina acadêmica, sem conseguir distinguir aquilo de uma partida de Pac-Man. Para Neira, no entanto, aquela era uma forma nova e eficiente de testar teorias urbanísticas. Quando ele expressou sua vontade de utilizar esse programa, de imediato me veio a cabeça meu grande amigo Alexandre Caramelo, cuja voracidade com que se agarrava a uma nova obsessão, seja ela científica ou não, tornou-se conhecida em toda a UNEB. Uma dessas obsessões era justamente o SimCity, o qual ele dominava como poucos, construindo cidades que mal cabiam dentro do laboratório de informática, enquanto eu não conseguia passar dos dois quarteirões. Sem dúvida se o SimCity viesse a ser uma das atividades do grupo de Neira, o velho Caramelo seria uma aquisição indispensável. Após estas conversa inicial, Neira nos convidou para um passeio na praia, a qual até então eu não virá. Ao invés de ir para a entrada da casa onde estavam os carros que, pensava eu, nos levariam à praia, Neira nos conduziu para os fundos da casa onde, ao deslizar duas portas de vidro, descortinou uma das mais belas praias do Litoral Norte a menos de 20 passos. Partimos então para uma caminhada na qual as amabilidades deram o tom. Neira falou da prática de Pilates, que o havia ajudado na correção da postura, falado sobre suas experiências de vida, as viagens que fizera. Foram momentos que, mais do que na memória, ficaram profundamente guardados no coração. Na volta, as despedidas, que eram meros “até breves”, acabaram, por esta força estranha e muitas vezes injusta que é o destino, por se tornar um grande “adeus”. Saímos de lá com planos e idéias que restaram não realizados. Porém, as lembranças daquele dia, estas ficarão para sempre. Um dia onde pudemos não só desfrutar de uma mente brilhante, mas principalmente pudemos, cada um de nós, ser tocado pela abnegação daquele que, além de intelectual notável, mostrava-se detentor de um coração aberto e de uma alma hospitaleira. Como uma árvore mais velha e mais sábia, Neira queria espalhar as sementes ao seu redor, não para que estas apreciassem a sua grandeza, mas para que ele pudesse, ao dar vida a uma nova geração, revigorar-se na certeza de quão significativa estava sendo a sua existência perante o próprio tempo, do qual então se libertava pela força de suas criações. Naquele dia, compartilhamos desse desejo que ele trazia no peito. Seu sonho, e acredito que aqui posso falar por todos que dele participaram, tornou-se latente em cada um de nós. E se a cada reunião intelectual, a cada encontro de discussão destas questões que são o substrato do trabalho do urbanista, eu me sinto imensamente contente, certamente é porque elas reacendem as lembranças tão caras daquele dia inesquecível.
Um certo Juarez
Ao terminar este enlace de lembranças, falo aqui de um erro de Neira. Pode parecer estranho que num texto que se propõe uma homenagem, se conclua com uma falha, ainda mais quando estamos diante de um homem com uma tal desproporção entre erros e acertos ao longo de sua vida. Mas, tal qual o convite que iniciou este texto, esta se trata de uma lembrança personalíssima e particularmente engraçada. Lá pelas tantas, com o avançar dos trabalhos do Projeto Vetor Norte, Neira desenvolveu um estranho hábito que, no começo foi mal entendido e depois acabou sendo solidariamente ignorado por todos nós, principalmente por mim, alvo do súbito e posteriormente freqüente lapso. Sem nenhuma razão especial, Neira começou a se referir a mim como Juarez. “Juarez pode ver isso”; “Não vamos nos preocupar com os termos, pois depois Juarez dá uma arrumada no texto”; “Ainda acho que a posição de Juarez é mais coerente”. Se no início a surpresa tornava difícil a comunicação e nos obrigava a corrigi-lo para continuarmos a discussão, com o passar do tempo a freqüência com que ela acontecia acabou por tornar a correção mais incômodo que solução. Destaque-se que estas correções nunca partiam de mim, que sempre sabia de quem ele estava falando pelo contexto da frase, mas de Armando e principalmente de Juca. Neste sentido, era particularmente engraçado observar a expressão de dúvida de Juca, que já aquela época (bem antes, portanto de ser o atual Secretário-Executivo do Ministério da Cultura) tinha várias ocupações e às vezes se esquecia de que aquilo já havia acontecido outras vezes. Ao ouvir a menção a um tal de “Juarez”, Juca olhava de imediato para Armando. Este, já sabendo do que se tratava, apontava para mim. Juca ao me olhar encontrava minha melhor expressão de “Sou eu mesmo, deixa pra lá”. Com o avançar do projeto, o tal de “Juarez” volta e meia aparecia, trazendo descontraídas risadas para as nossas reuniões. Risadas que o próprio Neira compartilhava, primeiro sem saber porque, depois reconhecendo o próprio erro. Erro que agora, olhando em perspectiva, uma perspectiva que só a ausência pode proporcionar, torna-se mais um motivo de saudade. Que bom se o velho Juarez pudesse aparecer novamente, com incumbências mil, respondendo sempre aos comandos do velho mestre. Tenho saudades de Juarez. Mas tenho ainda mais saudades do velho mestre. Tenho saudades de tudo que Neira ensinou, de tudo que Neira representou para nós, jovens aprendizes de planejador. Mais que um intelectual de conhecimento refinado e sotaque proeminente, Neira era uma inspiração a todo aquele que quer se dedicar a um sonho.
Pouco antes de concluir meu período de estágio na FOA/BA, Neira nos comunicou que havia sido convidado para planejar uma nova cidade, a partir do zero. Diante de tão imenso desafio, Neira se mostrava plenamente cônscio da sua capacidade, encarando-o como mais um trabalho, mais um feito para a sua posteridade. Essa forma de encarar os obstáculos, considerando-os não insuportáveis, mas, pelo contrário, insubstituíveis para dar sentido a vida, até hoje se encontra latente em todos que privaram da sua companhia. Ainda posso vê-lo, sorriso aberto no rosto largo, um gesto curto de despedida ao entrar no carro e partir para mais um dia construindo o futuro. Um futuro que certamente agora ele vê construído por nossas mãos, pelas mãos de quem ele apoiou, ensinou e incentivou. Um futuro que, agora, todos nós temos a responsabilidade de tornar merecedor da sua herança.
"Semeando Gratidão
Por Fagner Dantas
Partiu um grande homem. Daqueles a quem haveremos sempre de fazer referência quando da escolha de dois caminhos. Mártires temos em excesso; guias, tão poucos. Incomensurável na sua força que mal cabia no pequeno corpo, agigantava-se diante das encruzilhadas, dos acúmulos de medíocres indecisões, para, com a jovialidade peralta que lhe ardia nos olhos, erguer-se sobre os nossos ombros e enxergar soluções cuja simplicidade nos fascinava. Educou gerações, abriu caminhos com a força das palavras, conquistou a admiração daqueles que o tiveram presente. E um presente era o que o doutor, o professor e o amigo Eduardo Neira Alva era para todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Não vou enumerar os feitos deste que fez tanto, nem elencar os títulos, merecidos cada um. Trago apenas quatro recordações muito pessoais e por isso tão ricas para mim. Lembranças do inesquecível convite de trabalhar com ele, lembranças do orgulho de estar ao seu lado, lembranças de comungar de um de seus sonhos, lembranças de um de seus erros por mim tão apreciado. Trago aqui não mais que fragmentos, flashes momentâneos de uma vida tão intensa em grandeza que ninguém há de contar em sua plenitude; somente a ele coube vivê-la nesta condição.
O Convite
No ano de 1999, encontrava-me plenamente decidido a me dedicar exclusivamente à elaboração da minha monografia. Após um estágio de 01 ano na Secretaria Municipal de Planejamento, Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente, concluído em junho daquele ano, já me enredava em pesquisas bibliográficas quando toca o telefone. Do outro lado da linha, a querida amiga Mariana Mendonça, colega de bancos universitários, se mostra disposta a me fazer uma proposta de trabalho. Com a gentileza característica da nossa amizade, argumento por declinar do convite, escoimado na minha, até então inabalável, fidelidade ao projeto monográfico. Por sua vez, com a persistência das verdadeiras amizades, ela me intriga ao dizer que a proposta era irrecusável. Neste momento, já capturado pela curiosidade, abro a guarda. E ela então desfere os três golpes que me levam a nocaute: Eduardo Neira Alva. Trabalhar com o palestrante que provoca um silêncio reverencial por onde passa, ou seja, penetrar o venerável; Aprender com o mestre dos meus mestres, ou seja, beber na fonte; e Conviver com timoneiro de políticas governamentais, orientador de homens públicos e transformador da realidade, ou seja, fazer ao lado de quem já fez tanto. Ela tinha razão. A proposta era irrecusável.
Lado a lado com o mestre
Trabalhando no Projeto de Consorciamento Intermunicipal da Costa dos Coqueiros, mais conhecido como Projeto Vetor Norte, capitaneado pela Fundação Ondazul - Bahia (FOA/BA), tive a oportunidade única de, a cada terça-feira, ser agraciado com uma avalanche de conhecimentos que certamente me economizaram alguns anos de faculdade. Na mesa redonda do segundo andar do n.º 07, na Ladeira da Misericórdia, Sé, sentavam-se pessoas inesquecíveis, cujas palavras eu sorviam, insaciável, e cujas personalidades eu descobria, apaixonado. Ordinariamente sentados de costas para as três janelas da biblioteca da Fundação que emolduram uma bela vista do mar, subseqüente aos telhados dos prédios antigos do Comércio, Ronaldo Lyrio (geólogo) e Gey Espinheira (sociólogo); de frente para as tais janelas, Armando Almeida (administrador da FOA/BA) e Maria Gravina Ogata (advogada); numa das cabeceiras, Mariana Mendonça (estagiária) e Juca Ferreira (Presidente da FOA/BA); na cabeceira oposta, Eduardo Neira (arquiteto-urbanista) e eu (estagiário). Nesta composição tão eclética, cada peça parecia ter o seu lugar no tabuleiro: Ronaldo Lyrio, cujo conhecimento técnico só não é maior que o seu infatigável bom humor, sempre a rabiscar nos seus infinitos caderninhos (aos quais ele tentou, frustradamente, substituir por um reluzente palm-top), dava ao grupo o respaldo necessário para poder idealizar sem tirar os pés do chão. Gey Espinheira, um folclórico erundito, capaz de traduzir em poderosas idéias-signos horas de interminável discussão e de quem sempre podíamos esperar uma palavra de concordância (alegremente recebida pela certeza do caminho certo) ou de crítica demolidora, o que muitas vezes salvava o grupo de se perceber à deriva dali a alguns instantes. Armando Almeida, de uma cordialidade quase elizabetana, era dotado de um senso prático tão afiado que era capaz de cortar ao meio os nós górdios que enredávamos ao longo do desenvolvimento do projeto. Maria Gravina Ogata, em quem a simpatia e a amabilidade pessoais contrastavam com posições firmes e sempre muito bem fundamentadas, capazes de apontar detalhes que, caso permanecessem latentes, poderia comprometer semanas de planejamento. Juca Ferreira, de rico conhecimento acadêmico, e mais rica ainda experiência de vida, era brilhante em cada uma das suas intervenções, sempre inspirador, manifestando como poucos uma aptidão para fomentar o diálogo e exercer a liderança, sempre enxergando o futuro por sobre nossas discussões cotidianas. Mariana Mendonça, com a criatividade e a disposição que lhe são características, sempre estava disposta a, da sua falta de experiência, extrair uma visão nova e sem vícios dos diferentes problemas que se apresentavam. Eu, por minha vez, procurava me habituar àquela convivência quase mágica, tentando ao máximo estabelecer alguma compensação, ainda que ínfima, ao grupo que me proporcionava tanto aprendizado. E por fim, Eduardo Neira, o criador do conceito e o idealizador do projeto, dono da palavra final sobre cada decisão, era o “homem com um plano”, detentor de uma visão multiescalonada, capaz de corrigir detalhes sem perder de vista o todo, e, acima de tudo, de um respeito por parte de todos nós, que o reconhecíamos pela sua vasta experiência e inquestionável conhecimento. Com cada peça em seu lugar, ou seja, Ronaldo e Gravina provendo o substrato técnico, Neira e Gey discutindo as questões de fundo, Juca e Armando pondo ordem na casa e Mariana e eu jogando “nas onze”, a máquina, por diversas vezes, parecia funcionar como um relógio, ainda que alternasse entre o suíço e o paraguaio. A convivência com Neira no ambiente de trabalho era realmente inspiradora. Na maioria das vezes numa linguagem calma e cheia de paciência, outras com o fervor hereditário do sangue de um pré-colombiano Montezuma, o velho corpo vibrando com uma energia desconhecida, Neira expunha suas idéias, seus ensinamentos. Era emocionante ver alguém que já não tem mais nada a provar para ninguém, a não ser a si mesmo, entrar em discussões homéricas, amealhar argumentos das mais diversas tonalidades para enfim fazer ver o mundo tal qual ela desenhava em sua prancheta; acrecente-se, na maior de todas: a sua mente. Entre estas várias discussões, uma em especial me tocou. O tema era educação ambiental. A questão era saber qual o melhor procedimento para que pudéssemos incorporar ao nosso planejamento as visões de vários especialistas que seriam especialmente convidados para discutir o tema. Duas eram as maneiras discutidas. Ou definíamos a nossa própria visão interna de educação ambiental, apresentado-a em seguida para os nossos convidados a fim de que eles pudessem criticá-la, burilando-a à perfeição. Ou levávamos apenas o tema e, por meio da discussão, construíamos todo um corpo conceitual, sem pré-definições de qualquer gênero. Uns acreditavam que a pré-visão interna facilitaria a argumentação no momento das discussões abertas, proporcionando contribuições já amadurecidas e um aproveitamento melhor daquele grupo de excelência que certamente não haveria de se reunir novamente. Outros pensavam que a preparação de uma visão interna poderia, ao invés de otimizar, desperdiçar tempo, pois teríamos uma desgastante série de reuniões até termos nossa visão formada, para, em seguida, termos duas conclusões, ambas negativas: ou o grupo ampliado concordaria com as linhas gerais, amarrado que estava aos limites do conceito apresentado, reprimindo um momento de grande criatividade e tornando dispensável aquele esforço todo; ou o grupo ampliado utilizaria metade do seu tempo para, com suas críticas, desconstruir a visão inicial e, na outra metade, erigir um novo modelo, menos perfeito do que aquela que poderíamos ter ao final de uma discussão do zero desde o início. Foi quando Armando Almeida, ao explicar a um dos integrantes do grupo que não havia estado presente na reunião anterior que deu início à discussão, disse a frase que ficou gravada em minha mente: “Acontece que eu e Juca defendemos o início da discussão sem prévias definições quanto Fagner e Neira defendem que deveríamos construir primeiro uma visão interna para então podermos levá-la para a discussão”. Não tenho certeza se estas foram as palavras exatas ditas por Armando, mas o essencial está ai. Tive, no momento em que as ouvi, a plena sensação do que elas significavam para mim, talvez por ingenuidade, talvez pelo projeto pessoal de um dia estar ao lado destes monstros sagrados. E ali estava eu, cerrando fileiras com nada menos que Eduardo Neira Alva. Devo admitir que aquela sensação perdurou por vários dias, e, principalmente, teve um grande efeito prático para mim e para o projeto, pois dali em diante tornei-me mais seguro, mais disposto a apresentar e defender idéias. No fundo, acredito que esta sensação ainda esteja comigo até hoje. Ainda posso vê-lo ao meu lado, sorriso cúmplice e tapinha nas costas. Acredito que esta seja a herança das boas companhias e espero carregá-la por muito tempo.
Compartilhando sonhos, um dia inesquecível
Um dia fui comunicado de que Neira estava com um projeto novo na cabeça. Porém, não fui comunicado por ele, mas por colegas que trabalhavam com ele em outro projeto na Caires de Brito Consultoria Ambiental. A Caíres, como era mais conhecida, era comandada por Ronan Caíres de Brito, homem de conhecimento robusto e tenacidade inquebrantável, com quem tive o prazer de trabalhar na elaboração do Plano Diretor Urbano de Ruy Barbosa. Abro aqui um pequeno parênteses. Nesta oportunidade pude compartilhar das discussões travadas na sacada do prédio da Caíres, que dava para a Ladeira da Barra (local certamente mais produtivo que o lado oposto, de deslumbrante vista para o mar, como lembrou o amigo e advogado Luís Portela que, levado por mim a Caíres para participar do projeto, declinou do convite e me deu a chance, que agarrei com unhas e dentes, de produzir meu primeiro produto técnico individual: o cenário normativo-institucional de Ruy Barbosa), e era freqüentado por micos que passeavam constantemente nas árvores que emolduravam a sacada. Ali, com Ronan e os demais companheiros de equipe, aprendia muito com as discussões travadas, destacando-se nestas discussões outras três figuras já notórias e significativas para mim: Marúsia Rebouças, socióloga, sempre com uma interferência sóbria e cheia de autoridade, tinha uma amistosidade que tornava as reuniões mais leves; Juca Gonçalves, arquiteto, era o tipo de pessoa que de tanto ouvirmos falar, achamos que é exagero, o que, naquelas tardes, ela provava que não era ao apresentar, sempre com uma visão pragmática, muitas sugestões rapidamente absorvidas pelo grupo; e Roberto Cortizo, arquiteto, de vasta experiência e bom humor incomparável, sempre disposto a mostrar, através de metáforas jocosas, falhas de argumentação ou novas soluções para os problemas que surgiam ao longo do projeto. Na Caíres, em momento anterior a este, trabalhavam, além de Ronan e Neira, três grandes amigos: João Pedro (companheiro leal e sempre irradiando alegria por onde passava), Ana Paula (um cérebro brilhante e um sorriso inesquecível) e Francis (de fulgurante presença, seja na mesa de reunião ou na roda de amigos). Foi através deles que fiquei sabendo que o Dr. Eduardo Neira pretendia reunir um grupo de jovens para discutir questões urbanas de modo a produzir um conhecimento novo, concretizado na forma de textos e quem sabe um livro, pautado na experiência de Neira e na jovialidade, experimentalismo e criatividade destes jovens já envolvidos no fazer diário da planejamento urbano. A notícia atingiu-me com um misto de alegria e frustração. Alegria por estar surgindo uma oportunidade tão fantástica, de poder não só discutir, sem nenhum interesse que não a ampliação do conhecimento, as questões que tanto me fascinavam com colegas que eu tanto admirava e ainda por cima com a supervisão de um mestre inigualável como Eduardo Neira e, mais importante, por iniciativa dele e não por insistência de um bando de fedelhos curiosos como nós, ou melhor, ele queria este grupo justamente por ser um bando de fedelhos curiosos e promissores. Por outro lado, a frustração de não saber se eu estava ou não neste grupo, afinal, sabia-se da idéia, mas não quem seria escolhido para participar do grupo e freqüentar as cobiçadas reuniões. Os dias de angústia se acumulavam, até que finalmente veio a notícia tão esperada. Foi convocado a ir a casa de Neira para lá passar o dia com ele e outros colegas a fim de discutirmos a possível formação do grupo de discussão. Aquilo era realmente um sonho tornando-se real. Na chegada a casa de Neira, acompanhado pelos já citados João Pedro, Ana Paula e Francis, além da inseparável Mariana e de Thiago, outro membro da Caíres, fomos recebido pelo mestre. Não posso descrever com exatidão as sensações dos meus colegas, mas eu estava maravilhado. Lá estava, num lugar deslumbrante, na companhia de diletos colegas, sob os auspícios de um ilustre intelectual a quem eu tanto aprendera a admirar, num dia totalmente ensolarado e dedicado às discussões urbanas. Era como estar na Academia, de Platão, ou no Liceu, de Aristóteles. Embebidos pela presença de Neira, passamos a manhã à beira da piscina. Discutimos o que o mestre tinha em mente. Neira dizia que achava interessante agregar um pouco das nossas impressões novas sobre as velhas questões que ele conhecia tão bem. Por outro lado, ela declarou-se interessado na formação do urbanista que estava nascendo no Brasil, na UNEB. Neira já havia dado palestras na nossa universidade, e nutria relações profissionais e pessoais tanto com seus alunos, como aqui já ilustramos, quanto com seu corpo docente, a exemplo da professora Débora Nunes, notável e nacionalmente reconhecida pesquisadora das questões ligadas à habitação e à participação popular. Interessava particularmente a Neira a interdisciplinariedade do curso e a diferença que isto poderia trazer nos momentos de avaliação da problemática urbanística. A partir destas discussões iniciais, se desenhava na mente do mestre o formato daquela equipe e daquelas reuniões. Uma das atividades pretendidas por Neira dizia respeito a outra novidade instigante para ele: a informática. Ele estava fascinado com as possibilidades de software de simulação como Civilization e SimCity. Era sua intenção que iniciássemos uma série de simulações com tais jogos, testando teorias e colhendo resultados, imprimindo um arcabouço científico ao que era visto até por alguns de nós como mero divertimento. Era esse o meu caso, que havia passado todo um semestre jogando SimCity no bojo de uma disciplina acadêmica, sem conseguir distinguir aquilo de uma partida de Pac-Man. Para Neira, no entanto, aquela era uma forma nova e eficiente de testar teorias urbanísticas. Quando ele expressou sua vontade de utilizar esse programa, de imediato me veio a cabeça meu grande amigo Alexandre Caramelo, cuja voracidade com que se agarrava a uma nova obsessão, seja ela científica ou não, tornou-se conhecida em toda a UNEB. Uma dessas obsessões era justamente o SimCity, o qual ele dominava como poucos, construindo cidades que mal cabiam dentro do laboratório de informática, enquanto eu não conseguia passar dos dois quarteirões. Sem dúvida se o SimCity viesse a ser uma das atividades do grupo de Neira, o velho Caramelo seria uma aquisição indispensável. Após estas conversa inicial, Neira nos convidou para um passeio na praia, a qual até então eu não virá. Ao invés de ir para a entrada da casa onde estavam os carros que, pensava eu, nos levariam à praia, Neira nos conduziu para os fundos da casa onde, ao deslizar duas portas de vidro, descortinou uma das mais belas praias do Litoral Norte a menos de 20 passos. Partimos então para uma caminhada na qual as amabilidades deram o tom. Neira falou da prática de Pilates, que o havia ajudado na correção da postura, falado sobre suas experiências de vida, as viagens que fizera. Foram momentos que, mais do que na memória, ficaram profundamente guardados no coração. Na volta, as despedidas, que eram meros “até breves”, acabaram, por esta força estranha e muitas vezes injusta que é o destino, por se tornar um grande “adeus”. Saímos de lá com planos e idéias que restaram não realizados. Porém, as lembranças daquele dia, estas ficarão para sempre. Um dia onde pudemos não só desfrutar de uma mente brilhante, mas principalmente pudemos, cada um de nós, ser tocado pela abnegação daquele que, além de intelectual notável, mostrava-se detentor de um coração aberto e de uma alma hospitaleira. Como uma árvore mais velha e mais sábia, Neira queria espalhar as sementes ao seu redor, não para que estas apreciassem a sua grandeza, mas para que ele pudesse, ao dar vida a uma nova geração, revigorar-se na certeza de quão significativa estava sendo a sua existência perante o próprio tempo, do qual então se libertava pela força de suas criações. Naquele dia, compartilhamos desse desejo que ele trazia no peito. Seu sonho, e acredito que aqui posso falar por todos que dele participaram, tornou-se latente em cada um de nós. E se a cada reunião intelectual, a cada encontro de discussão destas questões que são o substrato do trabalho do urbanista, eu me sinto imensamente contente, certamente é porque elas reacendem as lembranças tão caras daquele dia inesquecível.
Um certo Juarez
Ao terminar este enlace de lembranças, falo aqui de um erro de Neira. Pode parecer estranho que num texto que se propõe uma homenagem, se conclua com uma falha, ainda mais quando estamos diante de um homem com uma tal desproporção entre erros e acertos ao longo de sua vida. Mas, tal qual o convite que iniciou este texto, esta se trata de uma lembrança personalíssima e particularmente engraçada. Lá pelas tantas, com o avançar dos trabalhos do Projeto Vetor Norte, Neira desenvolveu um estranho hábito que, no começo foi mal entendido e depois acabou sendo solidariamente ignorado por todos nós, principalmente por mim, alvo do súbito e posteriormente freqüente lapso. Sem nenhuma razão especial, Neira começou a se referir a mim como Juarez. “Juarez pode ver isso”; “Não vamos nos preocupar com os termos, pois depois Juarez dá uma arrumada no texto”; “Ainda acho que a posição de Juarez é mais coerente”. Se no início a surpresa tornava difícil a comunicação e nos obrigava a corrigi-lo para continuarmos a discussão, com o passar do tempo a freqüência com que ela acontecia acabou por tornar a correção mais incômodo que solução. Destaque-se que estas correções nunca partiam de mim, que sempre sabia de quem ele estava falando pelo contexto da frase, mas de Armando e principalmente de Juca. Neste sentido, era particularmente engraçado observar a expressão de dúvida de Juca, que já aquela época (bem antes, portanto de ser o atual Secretário-Executivo do Ministério da Cultura) tinha várias ocupações e às vezes se esquecia de que aquilo já havia acontecido outras vezes. Ao ouvir a menção a um tal de “Juarez”, Juca olhava de imediato para Armando. Este, já sabendo do que se tratava, apontava para mim. Juca ao me olhar encontrava minha melhor expressão de “Sou eu mesmo, deixa pra lá”. Com o avançar do projeto, o tal de “Juarez” volta e meia aparecia, trazendo descontraídas risadas para as nossas reuniões. Risadas que o próprio Neira compartilhava, primeiro sem saber porque, depois reconhecendo o próprio erro. Erro que agora, olhando em perspectiva, uma perspectiva que só a ausência pode proporcionar, torna-se mais um motivo de saudade. Que bom se o velho Juarez pudesse aparecer novamente, com incumbências mil, respondendo sempre aos comandos do velho mestre. Tenho saudades de Juarez. Mas tenho ainda mais saudades do velho mestre. Tenho saudades de tudo que Neira ensinou, de tudo que Neira representou para nós, jovens aprendizes de planejador. Mais que um intelectual de conhecimento refinado e sotaque proeminente, Neira era uma inspiração a todo aquele que quer se dedicar a um sonho.
Pouco antes de concluir meu período de estágio na FOA/BA, Neira nos comunicou que havia sido convidado para planejar uma nova cidade, a partir do zero. Diante de tão imenso desafio, Neira se mostrava plenamente cônscio da sua capacidade, encarando-o como mais um trabalho, mais um feito para a sua posteridade. Essa forma de encarar os obstáculos, considerando-os não insuportáveis, mas, pelo contrário, insubstituíveis para dar sentido a vida, até hoje se encontra latente em todos que privaram da sua companhia. Ainda posso vê-lo, sorriso aberto no rosto largo, um gesto curto de despedida ao entrar no carro e partir para mais um dia construindo o futuro. Um futuro que certamente agora ele vê construído por nossas mãos, pelas mãos de quem ele apoiou, ensinou e incentivou. Um futuro que, agora, todos nós temos a responsabilidade de tornar merecedor da sua herança.
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Relato Pessoal da urbBA12: o que vi, ouvi, pensei (Dia 1)
Ocorrido de 07 a 09 de
novembro de 2012 na Faculdade de Arquitetura da UFBA, o Seminário “Urbanismo na
Bahia 2012” (urbBA12) foi um raro momento de reflexão e troca de ideias entre
pesquisadores locais e visitantes. O evento, cuja primeira edição ocorreu em
2011, reuniu, em suas mesas redondas e palestras, alguns dos maiores
especialistas nacionais na questão urbana, seja pelo seu viés físico,
econômico, social ou político. Ao lado da presença dos luminares, ocorreu
também, em turno oposto, a apresentação de trabalhos selecionados pela Comissão
Científica do evento e que trouxe, a partir de três eixos temáticos, as mais
diversas abordagens para a apreensão da cidade e do urbano. O presente relato é
eminentemente pessoal e busca reproduzir, enquanto ainda vivas, algumas
memórias de momentos interesses ocorridos nesses três dias. Com o tema: “A
produção da cidade e a captura do público: que perspectivas?”, o evento foi
aberto com uma mesa que reuniu os seguintes nomes: Ana Fernandes (UFBA), Luiz
Antônio de Souza (UNEB) e Adriana Lima (UEFS), representando as três
instituições educacionais à frente da organização do evento. Em termos de fala,
o que mais me chamou atenção foi a fala da professora Ana Fernandes, reconhecida
por todos como uma voz crítica em relação aos mandos e desmandos que imperam
nas cidades. Em sua fala, essencialmente sobre a substituição, na atividade de
planejamento urbano, do Estado pelo Mercado, a professora Fernandes apresentou
duas informações chocantes. A primeira, a exposição de duas fotos colocadas
lado a lado. De um lado, se via uma proposta de intervenção chamada “Vetor
Oeste de Expansão da RMS”, feita por uma empresa privada, e que delimitava
diversas áreas da Ilha de Itaparica que poderiam vir a ser ocupadas com a
construção da tão polêmica ponte; do outro, a demarcação, em uma foto aérea da
Ilha de Itaparica, dos perímetros formados pelas coordenadas geográficas de
decretos de desapropriação de determinadas áreas da ilha. Percebia-se, com um
misto de assombro e curiosidade, que os dois conjuntos de áreas eram
praticamente iguais, o que leva a suspeitar que o primeiro deu origem ao
segundo. Em outros termos, o planejamento privado deu origem aos decretos
públicos. O outro fato trazido pela professora Fernandes foi a notícia no
Jornal A Tarde de 07/11/2012 de que a empresa global de consultoria Mckinsey
teria se oferecido para, gratuitamente, ajudar o prefeito eleito ACM Neto a
preparar a reforma administrativa pretendida para o próximo governo. Não fosse
essa uma notícia já bastante estranha, ela fica ainda mais interessante quanto
se busca saber o que é exatamente a Mckinsey. Segundo a professora Ana
Fernandes, a empresa é uma das mais reconhecidas no mundo no campo da
consultoria, tendo escritórios em mais de 100 países. Além disso, vem
auxiliando a administração municipal do Rio de Janeiro, na gestão do prefeito
Eduardo Paes. Uma outra informação, que posteriormente acrescentei durante a
apresentação que fiz no seminário sobre o Conselho Municipal de Salvador, é que
a Mckinsey é também a empresa a que esteve (está?) associado Kenichi Ohmae,
simplesmente o autor do conhecido livro “O Fim do Estado-Nação”, que prega que
os Estados se tornaram obsoletos diante do poder das grandes corporações
mundiais. O caso “Mckinsey” tornou-se, ao longo do seminário, o exemplo sempre
citado da captura de um público (administração municipal) cada vez mais
fragilizado por um privado (Mckinsey) cada vez mais poderoso. Infelizmente não
pude permanecer para a segunda mesa, que congregou diversas lideranças dos
movimentos sociais, porém é fundamental ressaltar a importância dessa mesa.
Como bem lembrou Gabriela Pereira, membro da comissão organizadora em seu
balanço sobre o evento, na mesa final, se no urbBA11, os movimentos sociais já
tinham sido incorporados, por meio de uma oficina dedicada a eles, no urbBA12,
o seu protagonismo avançou ao ocupar uma das mesas do evento. Os votos dela (e
os meus) são para que este protagonismo continue e avance ainda mais nos próximos
encontros. À tarde, a terceira mesa foi marcada essencialmente por uma
ausência: a do secretário de planejamento do estado da Bahia, Jose Sérgio
Gabrielli, virtual candidato petista ao governo do estado em 2014. Apesar das
falas do geógrafo franco-pernambucano Jan Bitoun e do arquiteto-economista
Edgard Porto terem trazido elementos interessantes ao debate da questão urbana
(a importância da questão das escalas de planejamento, no caso de Bitoun, e a
recorrente abordagem da cidade como “chassi”, de Porto), foi o silêncio do
Estado (o que não deixa também de ser expressão da sua captura) na única mesa
para a qual foi convidado que se destacou. A condição de Edgard Porto de
técnico da SEI não invalida a ausência do estado, pois esse falou mais na
condição de acadêmico do que de servidor. Já a ausência de Gabrielli não pode
ser tomada como mera fatalidade individual, pois, institucionalmente (caso se
esperasse uma fala institucional e não a do economista), deveria ter sido
enviado um substituto pela SEPLAN, como ocorreu na mesa de encerramento do VIII
Encontro de Economia Baiana, onde Paulo Henrique de Almeida, o substituto de
então, protagonizou eletrizante debate com os outros componentes da mesa, em
especial Aristóteles Menezes, presidente do Desenbahia, e Lívio Wanderley,
coordenador do mestrado de economia da UFBA. Esse silêncio foi tão ensurdecedor
que constou, com destaque, no novamente acertado balanço feito por Gabriela
Pereira. A quarta atividade do dia foi a magnífica palestra do professor
Giuseppe Cocco (UFRJ). Aqui os pontos a destacar são tantos (a discussão do
conceito de “comum”, que balizou o evento, destacando a sua visão pejorativa,
daquilo que não tem valor por não ter singularidade, até a visão positiva, e
defendida por ele, daquilo que é coletivamente construído e, por isso mesmo,
mais rico; a discussão da relação entre Estado e Mercado, na qual, em resposta
a uma pergunta que fiz sobre o Estado ser cúmplice ou refém do mercado, afirmou
que os dois são univitelinos, ainda que, durante os “Trinta Gloriosos”
(1950-1980), o Estado tenha feito concessões, acordadas com o capital, em favor
do trabalho, o que, para mim, foi resultado muito mais da “alternativa
socialista” do que da boa vontade do capitalismo). Porém, o que mais ficou para
mim foi sua descrição das ações da prefeitura do Rio na remoção de comunidades
carentes, citando o exemplo da Vila Autódromo. Além das imagens dignas de um
urbanismo fascista, com tratores derrubando a casa de quem aceitou a
indenização oferecida, não importando ser esta vizinha de muro de outras casas
não-indenizadas, numa clara tentativa de aterrorizar aqueles que ainda resistem,
o que ele fez questão de frisar foi que, diferentemente da remoção também
violenta da comunidade de Pinheirinhos, em São Paulo, que era uma ação
demandada pelo privado, as ações na Vila Autódromo eram protagonizadas pelo
Poder Público. E, mais que isso, por uma Secretaria Municipal de Habitação
comandada por um petista e tendo como técnicos figuras que integraram as
fileiras do Movimento Nacional de Reforma Urbana. É mais uma vez a “esquerda”
brasileira (a qual não se pode reduzir só ao PT, mas outros partidos desta
mesma linhagem, como o PC do B) em sua inesgotável “crise de identidade
ideológica”, que tende a evoluir ou para a falsidade ideológica declarada,
enquanto crime, ou para uma maníaco-depressão suicida, enquanto angústia.
Relato Pessoal da urbBA12: o que vi, ouvi, pensei (Dia 2)
Na manhã seguinte,
infelizmente não pude estar presente na primeira rodada de apresentação dos
trabalhos selecionados, fica impedido de ver o certamente belíssimo trabalho do
amigo José Augusto Saraiva sobre a ponte Salvador-Itaparica. Pela tarde, além
da curiosidade de ter sido lido (e aplaudido!!!) um texto de um dos
participantes ausentes na mesa (Renato Balbim - IPEA), cabe destacar as falas
de Rogério Proença (UFS) e Tânia Cordeiro (UNEB). O principal destaque dessas
falas vem menos do que elas efetivamente continham (a dialética do “alto” e do
“baixo” na topografia sócio-territorial de Salvador e a pobreza da nossa “dieta
comunicacional”, por Tânia Cordeiro; a dialética do público e do íntimo na
bio-virtualidade contemporânea, por Rogério Proença) e mais das suas origens.
Saindo do universo dos arquitetos, urbanistas e profissionais físico-espaciais
(apenas para caracterizá-los, e não para reduzi-los – principalmente o
urbanista – a isto), uma era comunicóloga e o outro sociólogo, o que certamente
contribuiu e muito para oxigenar o tantos debates ocorridos e a ocorrer. A
terceira atividade foi também um dos pontos altos do seminário. Uma mesa redonda
que reuniu Paulo Fábio, Jorge Almeida, Liana Viveiros e Maria de Azevedo
Brandão (como debatedora) para discutir o tema “Política e Cidade.” O tema em
si já me era instigante. A primeira fala, de Paulo Fábio, o mais conhecido
cientista político baiano, impressionou pela historicidade, pela capacidade de
conectar fluidamente os dois polos discursivos e pela já conhecida argumentação
muito bem ancorada teoricamente. Porém, ao final, para mim (e ao que parece
também para a professora Ana Fernandes, que ao final fez a pergunta que eu
pretendia fazer a ele), ficou um travo amargo na boca. Principalmente pelo uso
das expressões “panaceia”, para se referir às tais “práticas de gestão
participativa tão desejadas e enaltecidas” e “delírio” para a ideia de “auto-governo
do povo”. A primeira é, até certo ponto, comum (eu mesmo uso) para se referir a
uma prática, de todo condenável, que é a de abordar as ações de democracia
direta com um certo ar messiânico, de que é na sociedade civil organizada que
está a única possibilidade de recuperar o que a sociedade política vampiresca
sugou da máquina administrativa estatal. Já a segunda, em meio a tantas
dificuldades de auto-organização popular, quiçá de uma autonomia cidadão à la
Castoriadis, mas igualmente de exemplos históricos e cumulativos (que, no campo
urbano, tem nos multirões um exemplo ate certo ponto trivial) e outras
tentativas mais ou menos reconhecidas (como o orçamento participativo, em seus
erros e acertos), me pareceu um pouco forte. Chamar de “delírio” a ideia do
auto-governo, como que fechando uma porta no futuro simplesmente pela ausência
de chaves no presente – caso consideremos que as experiências citadas não o são
– me leva a optar pelo discurso, até bem comum hoje, da valorização da utopia
enquanto leit motiv da reflexão
crítica e da qual essa não pode se descolar, sob pena de imobilizar-se em um
pragmatismo contábil. Não por acaso, a fala do professor Heliodorio Sampaio, que
comentarei a seguir, inicia-se com a discussão do conceito de utopia e encerra-se
com um clamor pela democracia direta, no que me parece ser uma trajetória
hermenêutica diametralmente oposta àquela traçada por Paulo Fábio. Porém, o que
mais me chocou nesse discurso inicial foi o pender a balança tão rápida e
definitivamente para o outro lado, ou seja, entender que a única forma de lidar
com as deficiências da ação do Estado é apostar todas as fichas no
fortalecimento da sociedade política, seus agentes institucionais e,
especialmente, seus componentes partidários. E ai, reconhecendo que, tal qual
reconheceu a própria Maria de Azevedo Brandão, é difícil seguir o raciocínio
extremamente consubstanciado do professor Paulo Fábio, a minha interpretação
(provavelmente errada, mas é a única que tenho para expor aqui) é que o
professor Paulo Fábio justifica um erro com outro: se é panaceia apostar todas
as fichas nessa tal sociedade civil organizada (haja vista as atuais
reportagens envolvendo a ONG Pierre Bourdieu), reduzir a democracia a conduite
entre eleitores que votam e eleitos que governo e ponto me parece uma
reverberação perigosa do que dita a Escola da Escolha Pública (Buchanan &
Tullock), ou seja, uma sociedade inerte é o sinal positivo de um governo
eficiente. Apesar de ainda apostar que este é um entendimento incorreto da fala
do professor Paulo Fábio (sendo que sua resposta à pergunta da professora Ana
Fernandes - que demonstrou, na minha opinião, também um certo incômodo com
aquela aposta na mesma sociedade política que é cooptada pela Mckinsey e atua
de forma fascista no Rio de Janeiro – não me possibilitou mudar de opinião),
cumpre afirmar que ela se aproxima muito da fala de outro professor de São
Lázaro, ao qual rendo as maiores homenagens, que é o professor Alvino Sanchez,
pois, nas aulas que tive o prazer de assistir durante meu mestrado, às vezes
justamente pelo debate provocado por suas opiniões, ele parecia defender a
sociedade política de um eventual hegemonia da sociedade civil organizada no
campo das alternativas. Fica portanto registrada essa minha (in)compreensão. Posto
isso, ficou à cargo de Jorge Almeida, outro importante professor de São Lázaro,
e a Liana Viveiros, arquiteta que esteve a frente da Superintendência de
Habitação da Secretaria de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (SEDUR), o
reposicionamento da discussão do Estado em termos, de um lado, mais críticos à
sociedade política e, de outro, mais realista em relação ao Estado (e,
portanto, disposto a apontar não só erros como acertos na conduta deste, visão
típica de quem sai da frente do quadro-negro e senta atrás da mesa da
burocracia pública, eivada de vícios e “esqueletos” dos quais não se livra do
dia para a noite, por mais bem intencionado que se seja). Um dos momentos mais
quentes do debate (quiçá do seminário inteiro, pois esse prezou por mesas, digamos,
ideologicamente “monocromáticas”) foi a discussão do conceito de hegemonia
gramsciana, utilizado por Jorge Almeida para descrever o atual quadro político
nacional, que reúne consenso e coerção, no que teve dura réplica de Fábio (que
afirmou ser a compreensão do conceito gramsciano de Hegemonia por Almeida
totalmente equivocada) e, inesperadamente para mim, igualmente dura tréplica de
Jorge Almeida, citando textualmente diversas passagens da obra de Gramsci onde
haveria tal descrição do conceito. A nota dissonante foi a participação da
professora Maria de Azevedo Brandão, pilar da sociologia baiana e com
reconhecida capacidade crítica. Tendo sido informado pela professora Maria
Palácios, presença constante no evento, ao lado do colega Ednaldo, seu orientando
em recente e interessantíssima monografia no curso de urbanismo (Itapagipe
vista a partir de Jane Jacobs), que a professora Brandão vinha andando um tanto
quanto adoentada ultimamente, não foi surpresa, ainda que tenha sido triste,
vê-la fazer apenas alguns comentários soltos e sem maior impacto ao final da
mesa, comentários esses que versaram apenas (e por poucos minutos) sobre a fala
de Paulo Fábio. Se a minha primeira impressão foi de que a mesma estava de fato
com a saúde abalada, o que afetou a sua condição de fazer um comentário mais
consubstanciado sobre as três falas, ocorreu-me rever essa posição quando,
participando da plateia da mesa da tarde, no dia seguinte, ela fez uma pergunta
extremamente articulada e pertinente. Isso me levou a levantar a hipótese de
que não foi a saúde abalada que levou a professora Brandão a proferir algumas
poucas palavras sobre a fala do professor Paulo Fábio, dentre as quais se
destacou a sua afirmação de que é muito difícil seguir o raciocínio dele,
inclusive por ela mesma. A motivação para tão lacônica participação, em
contraste com a lucidez demonstrada no dia seguinte – me passa agora pela
cabeça – pode ter sido a mesma que abalou a mim e à professora Ana Fernandes:
um certo desconforto com as ideias por ele colocadas, em especial sua defesa
militante da necessidade de se investir na sociedade política como expressão
democrática exclusiva. Bom, certamente essa mesa foi uma das que deixou mais
inquietações.
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